Amor em tempos de pandemia.
Abriu os olhos pela primeira vez naquela manhã e foi tele-transportado novamente para a sua realidade. Estava em quarentena. Uma pandemia assolava o mundo. Desligou o despertador e olhou para a sua mulher que dormia lado. Estavam casados há cerca de sete anos. A amava. Porém nunca tinha ficado tão perto dela quanto a quarentena exigiu. Quando olhou para ela naquela manhã, não sentiu nada. Mas a amava.
Vestiu seu roupão, e foi direto para a cozinha preparar o café. Ao entrar nas redes sociais, viu uma antiga amiga. Era bonita. Tinha uma boca bonita. Daquelas que dá vontade de beijar por horas à fio. As torradas ficaram prontas, assim como o café.
- Bom dia! Sua esposa havia levantado.
Ao ser beijado por sua companheira no pescoço, não sentiu nada. Nenhum frio na barriga. Nada. Mas a amava. Enquanto ela jogava conversa fora dizendo o quanto adorava a mescla de tons pasteis com cores secundárias, ele desligou-se do que era dito por ela. Era sempre aquela mesma coisa. Todos os dias. A olhava, fingindo que escutava. Mas reparava em suas características físicas. Os olhos pretos, cabelos pretos que deslizava pelo ombro. Um rosto oval que abrigava uma boca muito bem desenhada.
Era bonita, sem dúvidas. Mas por alguma razão aquela beleza não o empolgava mais. Mas a amava. Não tinha sonhos eróticos com ela. Na verdade, não tinha nenhum tipo de sonho com ela. Seu corpo não o empolgava.
Ao contrário do corpo de sua amiga. Via-se passeando por aquele corpo. Explorava-o de todas as maneiras, com as mãos, com a boca. Tinha curiosidade em descobrir cada detalhe daquelas curvas. Cada mancha. Cada pelo.
- ..... você não acha?
Retornou ao local onde seu corpo físico tomava o desjejum. Sentia-se quase flagrado. Como se a esposa conseguisse acessar seus pensamentos mais íntimos. Por isso, numa fração de segundos, tentou responder com a máxima normalidade possível:
- Sim, acho.
Palavras pontuais, mínima chance de erro. Se ela perguntou se ele não achava era porquê de alguma forma buscava a aprovação dele. Se ele concordasse, fim de assunto. Ela conseguia o que queria, assim como ele.
Dito e feito. Satisfeita, a esposa levantou-se da mesa e foi lavar a xícara que havia usado. Ele permaneceu sentado, um tanto quanto reflexivo. Envergonhado pelo teor dos pensamentos. Ainda que apenas ele pudesse acessá-los.
Por que se sentia assim? Quase se censurava. Sua esposa é bonita. Haviam construído uma estrutura, tinham uma vida juntos. Era o que ele sempre quis. Não entendia porque aquele pensamentos inoportunos insistiam em vir à sua cabeça.
Em sua rotina “normal”, passavam um tempo juntos, é verdade. Porém estavam sempre rodeados de outras pessoas. O sexo era o sexo de sempre. E a cabeça estava sempre nos afazeres do outro dia.
Com a pandemia, foram forçados a ficar perto. Perto demais. De um jeito que foi obrigado a perceber todos os contornos de seu casamento. Repetia um ciclo eterno. Casamentos convenientes. Mas seriam todos os casamentos assim?
Tinha saudade de quem ele era antes do casamento. Na verdade, nem se lembrava direito de quem era. Tinha saudades da amiga. Mas amava sua esposa. Amava? O que por certo é amar?
A queria bem, tinha certeza disso. Ótimo, de alguma coisa tinha certeza. Mas o que é amar? Esse verbo é tão amplo, tão abstrato. Do mesmo modo que a queria bem, não negava para si que tinha atração por outras pessoas. Especialmente por aquela amiga.
Ah! Que bom seria se as instruções acerca do amor viesse em um manual. Ao invés disso, tudo é vago, impreciso. Cenário perfeito para a proliferação das mais diversas angústias.
Percebeu que estava, de certo modo, obcecado pela amiga. Pensava nela sem parar. Mas como, se amava a esposa? Sentia carinho pela esposa e, mais, estava acostumado a ela. Estava acostumado a ter aquela companhia, aquela pessoa. O medo de ficar só o assustava.
E a amava sim, mas também amava sua amiga. Ou era apaixonado? Ainda era jovem, tinha toda uma vida pela frente, pensar em ter a mesma mulher de sempre e viver aquela vida sem cores não o empolgava. Mas o medo de deixar essa vida o impedia de agir.
Sim, o medo. Medo de abrir mão das estruturas que construiu. O medo de respirar os ares da vida por si só. Não sabia se conseguiria. Estava dependente de sua esposa. Aquela vida não o fazia feliz, mas abandona-la o assustava.
E se tudo isso for uma grande loucura? E se a amiga não fosse nada daquilo que idealizava? E se o arrependimento viesse, quisesse voltar para sua esposa e essa tivesse seguido e não o quisesse de volta?
Sobressaltou-se. Precisou sair para caminhar. Andou. Andou e pensou. Pensou muito. Sobre o que o faria de fato feliz. Se sentia egoísta por querer ser feliz. Questionava, inclusive, se a felicidade de fato existia. Se não era apenas mais um termo criado por publicitários para vender coisas.
Amor. O que é o amor? Amava a esposa. Amava? Por certo, gostava de sua companhia. Se davam bem, conversavam, estavam acostumados um ao outro. Mas não conversavam como antes e, mais do que isso, ele não tinha vontade de conversar com ela. Havia carinho. Mas ele não se sentia vivo. Na verdade, não sentia nada. Percebeu que se sentia quase como se estivesse anestesiado quando na companhia dela.
Apesar disso, sentia-se profundamente confortável perto da esposa, isso era bom. Por certo deveria ser amor. Uma forma de amor. Não havia fingimentos, ele era quem era. Ou quem achava que era. Ou quem esperavam que ele fosse. Em verdade, nem ele sabia mais quem era.
Chegou à conclusão que talvez o amor que sentia pela esposa estivesse próximo de um amor fraternal. Tinha carinho por ela. Mas não tinha mais faísca. Fogo. Desejo. Que era tudo o que sentia por sua amiga.
Na verdade, pensava nessa amiga obcecadamente. Por certo estava apaixonado. Ou a amava? Tinha sentimentos por ela, sem dúvidas. Sentimentos fortes. O desejo estava presente. A vontade de tocar. De ouvir a voz. De rir junto à ela. Dormir e acordar ao seu lado. Era quase idealizado.
Se sentia mal. Se pudesse escolher, continuaria apaixonado pela esposa. Era mais cômodo. Porém, assim é a vida, não se preocupa em nos guiar pelo caminho mais fácil, mas nos mostra a face da realidade sem se importar com o que vamos sentir por isso.
Pensar em passar toda a vida com sua esposa o deixava triste. Mais do que triste, desesperado. Talvez estivesse perdendo a chance de viver um grande amor, aquele que empolga e nos tira dos eixos. Aquele que nos faz sentir que a vida vale à pena ser vivida. Ou talvez estivesse apenas se perdendo em ilusões, que o guiariam unicamente ao amargo caminho do arrependimento.
O sol se punha. Deveria voltar para casa. Pensou se ligava para sua amiga e se declarava. Iria mudar de vida. Se redescobriria. Seria quem nasceu para ser, seja lá o que isso signifique. Sentiu um ímpeto de felicidade. Uma empolgação e fagulha que o fizeram se sentir novamente como uma criança conhecendo o inexplorado do mundo. É agora. Seria feliz!
Porém, ao fim e à cabo, no momento de agir se acovardou. Preferiu o seguro. O medo, mais uma vez, o paralisou. O roubou de si. Dias iguais o esperavam, assim sabia. Sofria. Mas aceitou seu destino como se não fosse ele próprio o responsável por escrever sua estória. Assim deve ser a vida, pensou. Matamos quem somos em busca do que entendem como certo.














