comfortable silence is so overrated why won’t you ever say what you want to say? (even my phone misses your call, by the way) | pov
Marlene passava a maior parte de seu tempo olhando para o teto do quarto de hóspedes de seu irmão ultimamente. Ainda sentia cada pedaço de seu coração partido fincado entre suas costelas e era difícil se mover assim, era difícil respirar. Sentia falta de sua cama, dos lençóis com o cheiro que Dorcas havia escolhido, do rosto dela sempre do outro lado de toda porta que abria. Juraria que estava tentando não pensar nela, assim como havia tentado todos os anos anteriores e, assim como nesses, estava falhando. Não conseguia acreditar que havia perdido tudo assim numa briga feia, num descuido seu. Passava as mãos sobre seu rosto, cansada, chateada por ter ficado em silêncio no único momento em que poderia dizer tudo.
Mas era o que Marlene sabia fazer, não era? Engolir suas palavras e ficar em silêncio.
Como quando era criança e visitou sua nova escola pela primeira vez. A mão de sua mãe colada a sua, o desinteresse em seu olhar até ver uma saia rosa, um cabelo cacheado preso em um coque no topo da cabeça. Marlene sorriu e acenou, mas não disse nada. Não até o dia seguinte pelo menos.
Ou quando a mesma menina, anos mais tarde, mostrava para ela “a flor mais bonita que já tinha visto” no jardim da mesma escola. Marlene não disse que não sabia apreciar plantas e não disse que seu coração dançava no ritmo da animação da outra. Sorriu e deixou que ela falasse, mas não disse nada.
Nem pensou em dizer nada na primeira neve que caiu quando ainda estava no primeiro ano do ensino médio e escutou Dorcas exclamar animada que estava nevando. Ela viu como os flocos se acumularam nas ondas escuras da outra, mas não comentou isso com ela.
Marlene não disse para a outra que nem gostava tanto assim de tangerinas, não gostava da sensação áspera da casca entre seus dedos, mas que ainda assim descascava todas as camadas, separava metade e entregava para Dorcas. Cada gomo era um pedaço de seu coração, porém nunca comentou.
Ou quando dormiu com alguém que se parecia muito com ela, quase a chamou pelo nome de Dorcas e, quando chegou em casa, não pensou em falar do incidente.
Nas vezes em que rolou inquieta sobre os lençóis que Dorcas havia escolhido e não conseguia dormir porque não conseguia parar de pensar na sua amiga sorrindo para outra pessoa. Se estivesse incomodada com qualquer outra coisa iria até o quarto ao lado reclamar, mas não podia fazer isso dessa vez.
Uma vez, era tarde e talvez fosse o sono ou o fato de que tinha passado a última hora com Dorcas aninhada em seus braços enquanto assistiam um filme, quando a amiga comentou que aquele era seu jeito preferido de passar a sexta à noite. Marlene abriu sua boca e achou que diria algo. Algo parecido com: eu te amo tanto que nem existe mais nada em mim. No entanto, o peso das palavras acabaram fechando seus lábios e ela os usou para deixar um beijo sobre a têmpora da amiga.
Ou no dia anterior, quando estava no trem voltando para Rain Town e uma mulher sentou na sua frente e ela tinha o mesmo perfume de Cas, o que fez Marlene só descer três estações depois da sua porque precisava sentir um pouco mais daquilo que havia perdido. Fora do trem, com o guarda-chuva em uma mão e o celular em outra, quase mandou uma mensagem para ela, mas não o fez.
O silêncio que invadia o quarto de seu irmão era insuportável e Marlene se viu gritar sobre o travesseiro para tentar afastá-lo. Odiava quem falava de silêncio confortável, queria pegar essas pessoas pela gola da camiseta e perguntar quando, quando que o silêncio podia ser confortável? Se ela sempre tivera tanto a dizer e não podia? E agora já fazia dias que não falava com Dorcas e o silêncio estava matando Marlene. Por que nunca havia falado o que queria? Por que precisava nunca mais falar com quem mais amava? Por quê? Porque não era corajosa? Porque tivera incontáveis chances de dizer algo e desperdiçou? Não era justo, falar não teria mudado nada.