it's never over, she is the tear that hangs inside my soul forever | dorlene
@lenemk
Frank tinha mesmo razão, a viagem entre Sun City e Rain Town levou quase quatro horas. Se tivesse ido de trem, como era seu plano inicial, teria demorado ainda mais para chegar na cidade da chuva. Não pela primeira vez naquele dia, Cas ficou extremamente grata pela gentileza do primo de Lene. Já tinha entrado na cidade e o GPS do carro apontava gentilmente que ela chegaria ao seu destino em 4 minutos - parecia tempo demais e ao mesmo não tempo suficiente. Tinha ficado extremamente calma a viagem toda, talvez por estar dirigindo e precisar se concentrar, especialmente quando começou a chover. Mas agora tão perto de onde Lene estava, as mãos de Cas suavam sobre o volante, seu coração descompassado como as gotas de chuva que batiam no vidro do carro.
Você chegou ao seu destino. A voz suave do GPS não ajudou em nada no nervosismo de Cas e ela olhou em volta, enxergando por pouco a casa do irmão de Marlene. A chuva era forte e não pela primeira vez ela se perguntou se os dias ali eram todos assim. Respirando fundo, Dorcas desligou o carro e saiu de dentro do veículo, todo seu corpo sendo encharcado em questão de poucos segundos. Caminhou até a entrada da casa, seus passos pesados pela chuva e por outras coisas. Quando alguém abriu a porta depois dela bater, Cas não soube dizer se ficou decepcionada ou aliviada desse alguém não ser Marlene. "Uhm, oi," acenou brevemente, afastando seus cabelos já grudados no rosto pela água da chuva. Não sabia dizer se o irmão de Marlene estava confuso ou surpreso ao vê-la, mas não importava. "Desculpa o incômodo, mas será que você poderia chamar a Lene pra mim?" Tentou um sorriso simpático, mas estava tão nervosa que não tinha certeza se funcionou. Viu o rapaz se afastar e sentiu seu coração acelerar com a possibilidade de ver a Lene logo mais.
Marlene estava tentando colocar sua vida de volta no eixo, não que se sentisse melhor de qualquer forma, mas sabia que precisava voltar a ser uma pessoa funcional logo. As mensagens que tinha trocado com Frank mais cedo a fizeram pensar que talvez estivesse na hora de sair da casa de seu irmão. Não ia voltar para Sun City, tinha decidido isso, preferia andar de moto na chuva por horas algumas vezes na semana para terminar sua pesquisa do que correr o risco de esbarrar com Dorcas e nunca fechar o buraco que existia em seu peito. Então estava procurando por aluguéis em Rain Town, algum lugar perto e ao mesmo tempo longe o suficiente de seu irmão.
Pensava em tudo que precisaria colocar em caixas, em mais uma conversa difícil que precisaria ter, na despedida da casa que amava e da garota que amava ainda mais. Era um saco. Estava pronta para voltar a se deitar e ignorar tudo aquilo mais uma vez quando viu o rosto de seu irmão na porta do quarto em que estava. Miles falou de um jeito muito esquisito que tinha visita para ela e mais esquisito ainda foi escutar ele mandando Marlene arrumar o cabelo. Ele definitivamente tinha algum problema, como se Lene não soubesse que aquela era mais uma das visitas de Frank. Quando Marlene chegou na sala, porém, não foi seu primo que viu no batente da porta. “Dorcas?” Perguntou mais para si mesma, parando de supetão a uma distância segura do que deveria ser o delírio mais verossímil que alguém já tinha tido.
A primeira coisa que Cas notou, de todas as coisas, era que Marlene ficava incrivelmente bonita com as roupas folgadas que provavelmente pertenciam ao irmão dela. A melhor amiga estava mais magra e seu cabelo era uma bagunça; Dorcas precisou desviar rapidamente o olhar para não fazer alguma coisa a respeito. Era engraçado, seus sentimentos dormentes pareciam ter aflorado muito rápido em pouco tempo. Como ela podia nunca ter percebido? Poderia rir se não estivesse tão nervosa, suas entranhas se remexendo num movimento desconfortável e o peso da chuva em suas roupas começando a incomodar. Tinha muita coisa pra falar, pra colocar pra fora. Poderia começar dizendo o quanto tinha sentido falta dela, de ouvir a voz suave chamando seu nome. "Oi," tentou, um sorriso nervoso surgindo em seu rosto molhado. "Desculpa ter aparecido assim, nossa. Eu ia vir de trem e ia te avisar no caminho, mas o Frank me emprestou o carro dele e quando vi eu já tava na estrada e nem deu tempo de falar com você." Tinha o hábito de gesticular muito com as mãos quando estava nervosa e quando percebeu o que fazia, juntou as duas mãos na frente de seu corpo, um de seus dedos portando um anel igual ao que a própria Marlene também usava. "Eu sei que a gente deixou as coisas bem ruins, mas será que a gente podia conversar? Tudo bem se você não quiser, sério. Mas talvez eu possa só falar e você ouvir?" Olhou para Lene de novo, sentindo seu peito apertar por diversos motivos.
Marlene observou estática enquanto Dorcas falava muitas coisas ao mesmo tempo e gesticulava como se só assim suas palavras fizessem sentido, coisas que ela sempre fazia quando estava nervosa. Não conseguiu desviar seu olhar das roupas molhadas da amiga, de como seu cabelo estava grudado em sua cabeça e ficou preocupada com a possibilidade de ela estar sentindo frio. A chuva de Rain Town podia ser tão terrível quanto o vazio que Lene sentia no meio de seu peito. Era difícil ver Dorcas depois de tantos dias, a saudade arranhava e tirava pedaços de sua pele, a tristeza de que nada mais seria do mesmo jeito parecia ficar maior. E Cas ainda estava com frio, provavelmente, que era o que mais incomodava Marlene ali. “Você só me dá um segundo?” Não deixou que a resposta chegasse e se afastou até o armário onde seu irmão guardava as toalhas que tinha, enquanto voltava se viu num espelho e tentou ajustar seus fios. “Aqui,” entregou para Cas, agora sentindo-se melhor. Sendo sincera, não queria conversar, não suportaria explicações que tentassem amenizar a dura realidade: Dorcas não sentia o mesmo. Ela sentia muito, mas não sentia o mesmo. E um dia Marlene iria superar, poderia seguir em frente menos pesada, mas não era aquele dia. Como podia negar qualquer coisa para Cas, no entanto? Ela tinha dirigido até ali, pegou o carro de Frank e foi até o encontro de Marlene, que se pensasse bem diria que era a coisa mais bonita que tinham feito para ela. Ela estava molhada, com frio e ali. De todos os lugares, ali na sua frente. “Tudo bem.” Assentiu, guardando suas mãos nos bolsos da calça de moletom que usava.
O tempo que levou entre Lene pedir um segundo e aparecer com uma toalha foi praticamente infinito. Dorcas sentiu seu estômago se revirar inteiro e suas pernas fraquejarem por mais de um motivo. Era tão difícil, pensou, e logo se sentiu mal. Tinha conhecimento de tudo que sentia há pouco tempo e o aperto em seu peito era tão grande, não conseguia conceber o quão pior era pra Lene. “Obrigada,” disse baixinho, sentindo o peito pesar e ficar leve na mesma medida só de ver Marlene de novo. A toalha era agradável ao toque e Dorcas tentou ao máximo ficar confortável, mas era meio impossível naquela situação. “Eu tenho muita coisa pra te falar,” começou devagar, respirando fundo e apertando suas mãos junto a toalha. Olhou para Marlene, os olhos castanhos que tanto amava. “Sabe quando é de tarde e você tá deitado no sofá quase dormindo, mas não exatamente dormindo? E meio que seu corpo já sabe que você dormiu antes da sua mente processar a informação? Acho que se apaixonar é isso. Seu corpo sabe antes da sua mente se dar conta.” Se remexeu um pouco, desconfortável em suas roupas molhadas, mas também seu próprio corpo. Estava finalmente sendo sincera consigo mesma e com Lene. “Eu sempre te amei, disso todo mundo sabe. Desde a primeira vez que eu encontrei seus olhos naquele corredor, eu te amei. E você me amou também. A coisa sobre o amor é que ele tem tantas formas que as vezes é difícil distinguir entre elas. E você sempre foi minha melhor amiga. Eu não sabia que era possível te amar de outra forma, eu nunca considerei essa possibilidade, porque você sempre foi minha melhor amiga e eu sempre te amei.” Não sabia se estava sendo clara e estava bastante nervosa, mas agora que tinha começado percebia que não conseguia parar, precisa falar tudo. “O fato é que eu sempre fui o centro do seu universo e acho que no meio de tudo isso, de todos esses anos… eu não percebi que também te fiz o centro do meu. Eu fiquei muito confusa quando você me contou que era apaixonada por mim e eu não conseguia entender se o que eu sentia era só uma resposta ao que eu sabia ou não. Eu nunca pensei, Lene, eu nunca cogitei que eu pudesse te amar de outra forma. Que tudo que eu sentia, que eu sinto, por você pudesse ser outro tipo de amor. Mas eu te amo, Lene. De todas as formas do mundo. De formas que eu não sei colocar em palavras. Eu não te amo como amo a Ken, ou a Lily ou qualquer outra amiga. Eu te amo da única forma que eu sei, de um jeito que só pode ser seu.” Dorcas queria muito poder tocar Marlene, segurar sua mão, mas se conteve, suas mãos trêmulas ainda segurando a toalha com força. “Eu não vim aqui pedir nada pra você e eu não quero te pressionar a qualquer coisa. Mas eu vim pra dizer que te amo, muito. Que eu sempre te amei e que eu nunca soube. Mas agora eu sei. Você não precisa fazer nada a respeito. Mas eu preciso que você saiba que eu te amo. E que meu amor inteiro é seu, como sempre foi.” Sabia que seu rosto estava molhado, mas agora não tinha certeza se era só da chuva, de seu cabelo molhado ou se estava chorando. Era isso, não era?
Quando Dorcas começou a falar, Marlene abaixou a cabeça. Tinha razão, não conseguia suportar aquilo. Sentia sua cabeça doer e começava a se dar conta de que aquela cidade ainda era perto demais. Talvez conseguisse transferir seu mestrado, podia perguntar para seu orientador se ele conhecia alguém em algum outro país. No fundo, sabia que podia tentar se esconder nos cantos mais profundos e distantes da Terra, mas ainda assim seria atormentada pelo que sentia. Mas não aguentava ouvir aquilo, ouvir com todas as letras que Dorcas nunca tinha sequer cogitado que pudesse ser sua. Fechou seus olhos com força, sentia uma dor aguda no fundo de seus olhos e repetiu mentalmente que não iria chorar. Não podia mais ser a melhor amiga de Dorcas, iria dizer isso para ela, precisava. E estava tudo bem que ela não dividia aquele sentimento, mesmo sem estar, mas Marlene não conseguia mais dar conta daquilo. Estava pronta para cortar o discurso da amiga pela metade, mas as próximas palavras de Cas a surpreenderam. Por diversas vezes Marlene se perguntou o que faria e sentiria se algum dia seu sentimento fosse correspondido, achou que seu coração explodiria dentro de seu peito. A realidade não foi assim. Nem seus sonhos mais bonitos conseguiriam representar o que estava sentindo naquele momento, achava que nem toda felicidade do mundo explicaria, teriam que inventar uma nova emoção que fizesse jus. Levantou seu rosto, sentindo suas bochechas ficarem molhadas e passou os dedos rapidamente sobre o caminho molhado em sua pele. Queria correr até Dorcas, segurar ela em seus braços e finalmente dizer tudo que tinha escondido por anos e anos, mas não conseguia se mexer. “Você… você tem certeza?” Se estivesse diante de qualquer pessoa teria se preocupado com o quão vulnerável soou, mas não com Cas.
Dorcas quase riu. Quase. Como podia explicar para Marlene que nunca teve tanta certeza de algo? Que seu sentimento, apesar de recém descoberto, era a coisa mais real que Cas já tinha sentido em toda vida? Mesmo que nervosa e com o corpo ainda todo molhado da chuva, Dorcas deu dois passos pra frente. A toalha ainda era macia e seu peito ainda batia como as gotas de chuva contra o telhado da casa do irmão de Marlene. Suas mãos tremiam; talvez pelo frio, talvez por estar no ímpeto de algo mágico, talvez por estar de frente com o amor de sua vida inteira. Cas deixou que seus dedos obedecessem finalmente sua vontade e secou as lágrimas do rosto macio de Lene. “Como nunca tive de nada em minha vida,” respondeu manso, um sorriso singelo em seu rosto. “Eu sei que talvez seja difícil de acreditar e tudo bem. Você tem alguns bons anos na minha frente.” Seu tom era mais leve, mas seu coração ainda batia descompassado. “Mas eu vou te falar de novo, tudo bem? E quantas vezes você quiser ouvir… se você quiser ouvir. Eu te amo, Lene. Eu sempre te amei. Desculpa não ter percebido antes. Desculpa ter feito você sofrer todo esse tempo. Eu sempre achei que fosse alguém pontual, mas quando o assunto é você parece que me atraso sempre.” Sorriu meio sem jeito, desviando o olhar por um tempo. “Eu só… tive essa epifania hoje mais cedo e eu precisava que você soubesse. Tanto que fui bater no seu primo pra pedir o endereço do seu irmão. Tanto que nem me importei quando ele me emprestou o carro e passei as últimas quatro horas vindo até você. E eu sempre vou vir até você, não importa quanto tempo eu passe dirigindo ou quanta chuva eu pegue no caminho. Eu te amo. E eu só precisava muito te contar.”
Era surreal escutar tudo aquilo, ter Dorcas a sua frente e tocando seu rosto, repetindo as palavras que Marlene sempre sonhou em escutar. É claro que sempre soube que Cas a amava, mas não assim, nunca imaginou que assim da mesma forma em que Lene amava ela. Pensou em tudo o que sentiu naqueles últimos dias, a tristeza, o medo, a decepção, a saudade e sentiu tudo isso desaparecer no ar que ambas respiravam. Mais uma vez perto, juntas. Estava olhando para a tempestade dos olhos castanhos de Dorcas e teve a certeza de que guardaria aquele olhar pelo resto de sua vida, a coisa mais doce que já tinha visto. Aos poucos começou a soltar o ar que estava preso em seus pulmões, seus ombros voltaram a relaxar e ela segurou a mão de Cas que encostava em seu rosto com ambas as suas. “E essa foi a coisa mais bonita que já fizeram por mim.” Sorriu, os olhos ainda marejados. “Eu não te falei também. Quer dizer, eu não me lembro. E eu quero me lembrar, quero que você se lembre e que eu me lembre de quando disse que amava você. Então: eu amo você.” Seu coração dava voltas e voltas dentro de seu peito, agora tal sensação não a causava enjoo. “Eu te amo há tanto tempo que não me lembro quando comecei a amar e você tem razão que fiz de você o centro do meu universo, mas te amar é a coisa mais bonita que existe em mim.” Apertou suas mãos na dela, mais do que tudo queria que Dorcas sentisse a intensidade de seus sentimentos. “E não me arrependo de nada, Cas, de nenhum dia que amei você sem saber se você sentia o mesmo, de nenhum dia em que passamos juntas. Eu não sofri se tinha você.” Era verdade que algumas coisas tinham um gosto amargo, mas era verdade também que a simples presença dela era capaz de fazer Marlene se esquecer do que era difícil. Ter a oportunidade de olhar o amor da sua vida todos os dias, acompanhar ela viver era o maior prazer da vida dela. “E como você pode dizer que não veio aqui para me pedir nada? Me pede qualquer coisa, Dorcas. Qualquer coisa. Eu faço.” Franzia suas sobrancelhas, sua expressão habitual voltando a aparecer depois de tantos dias escondida dentro de si. Como se Dorcas não fosse o motivo de tudo, como se não fosse onde as coisas começavam e terminavam.
Dorcas sorriu. Provavelmente da maneira mais sincera e feliz desde que tinha brigado com Marlene no ano novo. Era realmente uma incógnita como nunca tinha percebido seus sentimentos verdadeiros antes. Quando tudo que era e sentia sempre retornava para Lene. Quando sua melhor amiga comandava as cordas de seu coração tão gentil com a ponta de seus dedos. A vida toda esteve vários passos atrás de Lene, seus sentimentos em degraus mais baixos; sempre atrasada. Mas agora estava ali. E amava Marlene. Nada mais importava. “Eu tenho muitas outras coisas bonitas pra fazer por você, se você quiser. Todas as coisas mais bonitas do mundo. E o meu amor inteiro.” Os olhos castanhos de Lene ainda estavam marejados e Cas deixou que sua mão livre limpasses os cílios úmidos de sua melhor amiga. Era tão bonito ouvir aquilo de Lene e não sentir seu peito se comprimindo em dor. Saber apreciar aquelas palavras como um doce se desfazendo na ponta de sua língua. Sem pressa. Sem medo. Só uma felicidade genuína. Sempre tinha visto o amor como o mais bonito dos sentimentos. Sempre tinha, também, amado Lene com todo seu coração. Mas era diferente agora entender que não havia limites para o que sentia em seu peito. O amor de Dorcas por Marlene era como um rio; uma nascente singela que derramava em um corpo d’água intenso, sem amarras, que carregava não só areia, mas também formas de vida únicas; que seguia seu caminho independente do tempo, das estações, sem ser refém de nada; que desaguava em mar, oceano, se transmutando e transformando em coisas ainda maiores, ainda sem limites, ainda intenso e constante. Encostou a testa na dela, deixando que o ar saísse de seu peito como se estivesse em casa - e estava mesmo. “Eu sei, meu amor, eu sei.” Falava manso, seu peito calmo pela primeira vez em dias. Sorriu de novo, achando fofo a expressão no rosto de Lene. “Volta pra casa. Comigo. Até as plantas sentem sua falta, sabia? Não é a mesma coisa sem você. Eu não sou a mesma coisa sem você.”
Marlene piscava, mas quase não queria ter qualquer outra coisa limpando seus olhos que não os dedos de Dorcas. Não queria fazer mais nada sem ela, nunca mais estar sem ela, nunca mais pensar que precisaria imaginar um mundo em que elas não fossem uma coisa só. Fechou seus olhos com as palavras de Cas, seu nariz encostando na bochecha dela, o cheiro da pele dela misturado com a chuva era seu novo aroma preferido. Uma parte de si tinha medo de estar sonhando, de ter pegado no sono enquanto fingia escrever sua dissertação ou se interessar pelo que seu irmão falava, mas começava a descobrir que a realidade podia ser tão doce quando a mulher que amava. E Dorcas agora não era somente a mulher que Marlene amava, ela era sua, era alguém que a amava de volta. “Até eu sinto falta das plantas também, de tudo na nossa casa. Não aguentava mais não estar com você na nossa casa.” Sincera, conseguiu rir um pouco pela primeira vez em muitos dias. Olhando agora para Cas, alguns fios molhados entre seus dedos, pensou em quantas vezes deixou aquele momento escapar nos últimos anos. Claro que Dorcas não estava pronta e talvez a própria Marlene não estivesse também, porém sentiu seu coração se apertar mais uma vez por todas as vezes em que não encostou seu nariz na bochecha de Cas, não encarou o marrom de seus olhos de perto, não segurou o cabelo dela com suas mãos que só sabiam ser gentis com ela. Se deu conta de que não podia mais deixar tanta vida passar e não fazer nada. “Eu te amo tanto,” afirmou mais uma vez agora mais calma, tinha pressa em seu coração mas não na doçura de suas palavras. “Você é tão linda e eu te amo tanto.” E não posso mais deixar que o tempo passe sem deixar que você saiba, sem ser sua, poderia ter completado. No lugar, olhou cada detalhe que amava no rosto de sua melhor amiga, sorriu e passou seus dedos pela bochecha dela. “Eu vou beijar você agora, tudo bem?” Procurou qualquer sinal de hesitação nos olhos de Dorcas e depois abaixou seu olhar para os lábios dela. Conforme sua boca encostava na da outra, todas as versões de Marlene que tinham amado Dorcas sorriram dentro de si, finalmente em casa.
Dorcas riu de novo. Era diferente estar feliz ao lado de Marlene. Seu sorriso era mais bonito, o riso mais leve, as lágrimas de alegria. Lembrava de sua vó, há muitos anos, lhe dizendo que o amor era mais ou menos isso mesmo: o morno em seu peito, o riso mais gostoso ao lado de quem se ama, o pertencer inegável. (De novo, como Cas nunca tinha percebido antes era um grande mistério). “Ah, a casa talvez esteja meio bagunçada.” Fez uma leve careta, lembrando de como tinha deixado tudo depois de sua grande revelação e sua saída dramática. “E talvez eu deva muitas coisas ao seu primo. O carro dele é bem cheiroso inclusive, achei engraçado.” Lembrava também das palavras de Frank, pedindo que Dorcas somente trouxesse Lene de volta. Ela gostava de pensar que estava fazendo muito mais do que isso. Meio sem jeito, Cas empurrou levemente o ombro de Lene. “Para com isso,” reclamou, mesmo que estivesse sorrindo e seus olhos marejados. “Eu também te amo,” respondeu baixo, deixando que sua lágrimas rolassem. “Eu te amo muito e eu senti muito a sua falta.” O final de sua frase virou um soluço, mas Cas não se importou. “Tudo bem.”Fechou os olhos e se permitiu respirar fundo, sentindo o cheiro de Lene e um nervoso ansioso tomar conta de todo seu corpo. Nunca tinha imaginado beijar sua melhor amiga, mas mesmo se tivesse nada chegaria aos pés da realidade. Era como voltar pra casa. Como mergulhar no mar em um dia quente. Ou andar de mãos dadas com quem se ama no fim de tarde. Eram muitas coisas que não tinham comparação ou sequer explicação. Era Marlene e Dorcas e só isso importava.
“Eu amo sua bagunça.” Estava genuinamente feliz pela primeira vez naquele ano e aprofundou seus dedos sobre os fios da nuca de Dorcas. Mal podia esperar para voltar para a sua casa, a casa que só era e seria seu lar porque tinha Cas lá. “Eu amo tudo que é seu.” Tinha sentindo tanto a falta dela, suspeitava de que não passava de um grande pedaço que faltava. “Ele é muito metódico com limpeza.” Revirou seus olhos, mas sentia o carinho que sentia por Frank crescer em seu peito. Marlene também faria questão de agradecer ele por ter ajudado com a única coisa que ela queria desde sempre. Nunca tinha pensado nisso, porém fazia sentido que seu primo fosse a pessoa a ajudá-la com isso.
Talvez nunca se acostumasse a ouvir Dorcas dizer aquelas três palavras, talvez seu coração sempre se revirasse, talvez todas as próximas vezes que seus lábios se tocassem ela ainda se sentisse ansiosa, talvez seus dedos ainda formigassem. Lene não queria se acostumar, não queria nunca pensar que aquela não era a melhor coisa que podia acontecer consigo. Dorcas não era só mais um acontecimento rotineiro, ela sempre seria como uma estrela cadente, a coisa mais brilhante de qualquer céu. Marlene tocava seu rosto com delicadeza e sua boca tentava dizer todas as coisas que nunca pode, tinha calma e a teria para sempre, seu coração descansava nessa certeza.
Dorcas havia sentido muitas coisas nos últimos dias, das coisas mais desesperadoras e tristes até um amor e uma alegria imensa. Nenhuma das coisas se comparava ao que ela sentia no momento, com os lábios de Lene nos seus e seu peito paradoxalmente calmo, mas o coração batendo descompassado. Não soube quanto tempo passou enquanto beijava Marlene, suas mãos na cintura dela e a chuva como única testemunha. Mas quando finalmente se afastou, minimamente, pois não conseguia ficar mais muito longe dela, Cas sentia quase como se estivesse em outra dimensão. Marlene era tão linda e os lábios inchados pelo beijo deixavam Dorcas sem ar, então a beijou de novo e de novo e de novo, pensando que gostaria de passar o resto da vida assim. "Eu te amo, eu te amo, eu te amo," murmurou várias vezes, deixando beijos delicados pelo rosto úmido de Lene. Queria continuar ali para sempre, mas a verdade é que sua roupa molhada a incomodava e a proximidade do irmão de Marlene a fazia corar. "Você quer voltar ainda hoje?" Arriscou olhar para o céu, percebendo que não fazia ideia do horário. "O seu primo não disse nada sobre quando eu precisava devolver o carro, então nós podemos esperar se você quiser." Sorriu, deixando um beijo rápido contra a bochecha de Lene. "Mas se você pudesse me emprestar algo pra vestir ia ajudar bastante," falou meio sem graça, olhando para suas roupas molhadas.
Por muito tempo Marlene não sabia ser qualquer coisa que não alguém que esperava, ansiava e desejava por coisas que nunca chegavam. Reconhecia a tolice de sonhadores porque talvez ela era a mãe de todos eles. Enxergava o que poderia ter sido, o que ainda poderia ser e se frustrava dia após dia. Valia a pena continuar querendo? Valia a pena desejar pela mesma coisa em cada assoprar de vela há tantos anos? Tinha achado que não, porém agora descobria que sim. Dorcas sempre valeria a pena. Ela valia todo o seu tempo, os seus dias, os seus porquês, tudo. Olhar para seus olhos castanhos, seus fios molhados, as bochechas e a boca rosada, tudo valia a pena ali. A verdade é que queria voltar sim, queria ir para casa, queria o quanto antes voltar para a casa delas, mas já estava escurecendo e o caminho era longo e Cas já tinha dirigido tanto. “A gente pode voltar amanhã.” Afastou alguns fios dela, os colocando por trás de sua orelha. “Claro, meu amor, tudo o que você precisar.” A voz de Marlene era suave, o tom que só usava com Dorcas e que para sempre só seria dela. “Você fica linda até assim, mas tudo meu te serve, a gente acha algo.” Seu coração já dava um pulo de imaginar ela com uma de suas camisetas. “Você toma um banho e descansa e amanhã a gente volta para casa.” Elas duas, juntas, como tinha que ser.
O coração de Dorcas era como uma ferida se recuperando. Uma ferida que ela mesma havia causado, sabia disso, mas que ainda assim era sensível. Ouvir aquelas palavras doces no tom de voz suave de Marlene era como um bálsamo em seu peito. Uma sensação que irradiava por todo o seu corpo e se derramava até mesmo onde Cas julgava ser impossível. Já tinha associado amar Lene como um rio desaguando eternamente em um mar, mas a profundidade da água era tão grande que era fácil se assustar; não era o caso de Dorcas. Com Marlene ao seu lado era possível atravessar os meandros e marés das águas, nunca tendo medo de não dar pé, pois sua mão estaria sempre segura na dela. "Você tem certeza?" Sabia que a melhor amiga sempre dormia melhor em casa. "Eu não me incomodo de dirigir de novo, se é o que te preocupa e eu sei que você está com saudades de casa." A mão de Cas na cintura de Lene deixava um carinho suave no local mesmo por cima da roupa que a melhor amiga usava. "Mas podemos fazer o que você achar melhor. Vou aceitar o banho e suas roupas, sabe que gosto mais delas de toda forma." Deixou um beijo suave na bochecha de Lene, sentindo o cheiro bom de seus fios de cabelo. "Seu irmão não vai se importar? Meio que cheguei sem avisar."
“Minha saudade era mais sua que de qualquer outra coisa na verdade. Mas sim, também estou com saudade de casa.” Sentia-se até mais leve de poder falar de sua casa novamente, de se imaginar com Dorcas no lugar que sempre tinha sido só delas. Marlene prendeu um fio de cabelo da outra por trás de sua orelha e pensou aquilo que já tinha certeza há muito tempo: jamais conseguiria ficar muito tempo longe dela. “Eu sei que você não se incomoda, mas você merece descansar. Eu posso dirigir também aí voltamos logo hoje e você pode dormir no carro se quiser.” Gostava mais de sua moto, mas ali na cidade de seu irmão ela estava inutilizada de toda forma com toda aquela chuva. “Ele não se importa com nada e, além do mais, acho que ele também tá sentindo falta de morar só então vai te agradecer pelo resto da vida.” Riu um pouco, sentindo como se pudesse sair flutuando a qualquer momento. “Você toma seu banho, eu faço alguma coisa quente para você beber enquanto isso e aí vamos, pode ser?” E nunca mais existirá um único dia em que não voltarão para o mesmo lugar, em que não estejam juntas, Marlene prometeu para si mesma.
O toque de Lene era sempre tão gentil, tão cheio de amor, carinho e cuidado que mesmo ali, com o coração nas mãos corretas, Cas teve o pensamento rápido de como nunca tinha percebido antes. Mas não era mais um problema, não quando estavam ali, juntas, da maneira que sempre deveria ter sido e que nunca mais deixaria de ser. "Como você quiser, meu bem." Respondeu manso, sentindo que seu corpo respondia não só ao alívio de finalmente estar perto de Lene, como também o cansaço dos últimos dias. A verdade é que poderia muito bem somente ir dormir nos braços de Lene, com a certeza de que teria um sono tranquilo e de que acordaria exatamente no lugar onde deveria estar. "Mas e sua moto?" Afastou o rosto levemente para conseguir olhar para a melhor amiga, uma expressão engraçada em seu rosto.












