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Apesar do tamanho avantajado e da primeira impressão que quase todo mundo tinha do rapaz quando reparavam apenas a aparência tacanha, Robert era, de forma humilde, mínima e consideravelmente uma pessoa observadora e atenciosa. Ele sabia muito bem como ler a maioria das pessoas, apesar da parca habilidade social e capacidade de fazer amigos com facilidade que quase todo mundo naquela cidade tinha. Pouquíssimos minutos de conversa foram suficientes para que Bobby percebesse a defensiva na qual a loira entrara, envolta em uma nuvem de mal humor que embora claramente fosse proveniente do calor e do carro e do dia e de qualquer coisa que não fosse culpa dele, deveria tomar cuidado com brincadeiras e abster-se de comentários muito mais intimistas ou empáticos. Expressando-se de forma mais simplória, aquela garota devia ter um gênio forte – gênio este com o qual não tinha tanto contato desde seus tempos de colegial, pois era justamente desse que fugia pra não causar problemas. “Se serve de consolo, nada está tão ruim que não possa piorar.” Decidiu-se, por fim, apoiar-se em uma resposta genérica e bem humorada. Não diria a ela diretamente que deveria ver o lado bom de tudo, afinal, não tinha lado bom nenhum em ver seu carro morrer em um local mais ermo do que o normal em um dia quente como aqueles depois de passar por poucas. Utilizar-se de uma postura negativa era mais eficaz, às vezes.
Robert confirmou suas considerações duvidosas quando no menor sinal de problema, a loira estourara. Entendia, não era pra menos. Se fosse com ele, provavelmente estaria mastigando as próprias bochechas e cerrando a mandíbula pelo mal humor e a falta de sorte, quieto em um canto pensando no que fazer – afinal de contas, o Reagan era bastante habilidoso na prática de reprimir as próprias emoções para que estas não incomodassem os demais. Sabendo que pedir que tivesse calma era um caminho errado a se tomar dada a reação da garota, mais uma vez o mais alto apostou num posicionamento baseado na razoabilidade. “O seu carro deve precisar de uma manutenção extra em temporadas muito quentes, não tenho certeza. Ele é um bom automóvel, na realidade, creio que só precisa de alguns cuidados extras e vai durar por anos. Você chegou a levar em alguma oficina nos últimos meses?” Indagou, passando a mão na nuca ao ajeitar o cabelo. Apesar da indignação dela, a relutância estava dando espaço para o conformismo. “Bem, talvez sim. Quer dizer, moça, eu não sou profissional, não posso te dar um diagnóstico 100% correto.” Riu um pouco, levantando as mãos em sinal de rendição. Ele realmente não queria ser o responsável por acabar com o carro dela. A observação dela o fizera rir novamente, negando com a cabeça ao levar o comentário na esportiva. “Ele não é muito generoso com os parentes, sabe. Eu não reclamaria de ser presenteado com um Toyota Hilux.” O moreno cruzou os braços, dando um olhar rápido em sua velha camionete, companheira desde seus dezesseis anos. Sorriu, soltando ar penas narinas. “Mas ela dá conta de me ajudar no que é preciso e vai me acompanhar até não conseguir mais andar. Ou pelo menos até eu arranjar um dinheiro pra comprar um carro novo e reformar ela.” Deu de ombros. Caminho para percorrer o Reagan tinha. Quem sabe no futuro. “Seus pais foram bem criativos. Eu tenho o nome do meu pai, então não tive lá muita escolha.” Riu, analisando o nome nada comum. Era bonito mesmo, diferente das Tiffanys, Madisons e Jennifers que via por aí, desfilando com sandálias de salto e minissaias pelo campus. Bobby mantinha o sorriso no rosto, sentindo-se um pouco mais confortável em compartilhar a conversa com a loira agora que devidamente apresentados. Ela parecia menos uma bomba agora do que antes também.
A pergunta dela o fizera sorrir e mover ligeiramente o corpo, num pequeno lapso de lembrança ao achar graça no trocadilho. “Alguns estados à esquerda. Ohio.” Informou, colocando o boné até então pendurado na parte de trás da calça, e apontando para ele ao tentar fazer piada. Ele era a personificação do estado sem precisar fazer muito depois daquela camisa xadrez. “Universidade. Ganhei uma bolsa na USC, meu pai disse que eu não deveria desperdiçá-la e me chutou de casa. Pra um caipira de Fleming, como vocês daqui dizem, estar morando em uma fraternidade na Califórnia é uma grande aventura, você sabe.” Sorriu, voltando a cruzar os braços. “E você? Sempre morou por aqui? Você parece uma legítima californiana. Sem ofensas, dona, leve como algo positivo.” Brincou, encostando-se no carro ao aproveitar a sombra. Deus, estava realmente quente. “Escuta, não quer ir até o quiosque pra beber uma água, pelo menos? Apesar de estarmos na sombra, ainda tá muito quente aqui e eu tô meio desidratado.”
Crescer em um lar predominantemente masculino certamente havia contribuído para o jeito de ser da californiana, as habituais respostas altamente reativas e o tratamento defensivo para com os outros não eram apenas uma coincidência: embora fossem taxados como uma família hippie – afinal de tudo, eles viviam em uma comunidade eco-alternativa no coração das montanhas da Califórnia – crescer rodeada por três rapazes por toda a adolescência fora, talvez, a experiência mais próxima do “normal” que Lennon poderia ter tido em toda a infância. Ser a caçula e única filha mulher dos Rhodes foram aspectos que forjaram a personalidade da menina desde muito cedo, a natureza espírito livre aliada ao modo sobrevivência necessário para conviver com outros três adolescentes durante a puberdade contribuíram para a personalidade temperada e um tanto irreverente que acompanhavam a surfista por onde fosse. Ao contrário do que a própria aparência poderia acusar, isto é, os cabelos loiros queimados pelo sol e os olhos azuis como o pacífico, Lenny definitivamente não era o estereótipo da loira cabeça-de-vento e fazia questão de deixar isso bem explícito, mesmo que aquilo significasse ter afogar-se no próprio orgulho ao recusar a ajuda do caipira de dois metros que generosamente oferecia sua ajuda.
A reação exagerada da surfista diante das notícias foi alimentada pela impulsividade à qual estava acostumada e a realização de que estava com mais problemas do que gostaria de admitir. Lennon sabia que o diagnóstico feito pelo caubói fazia sentido, quer dizer, ela nem de longe era a pessoa mais responsável do mundo e era um milagre que o carro sequer funcionasse depois de todos aqueles anos, mas ainda não estava disposta a dar o braço a torcer. Diante da pergunta do outro a garota abaixou a cabeça, encarando o asfalto enquanto uma das mãos repousava sob a nuca, buscando disfarçar a derrota que havia acabado de sofrer. – Ah, foi meu pai quem deu uma olhada da última vez… – respondeu contra a própria vontade, deixando que a resposta escapasse por entre seus dentes. – Há uns três anos atrás. – murmurou em volume baixo enquanto dava de ombros, olhando para o forasteiro por entre os longos cílios, preparando-se para ouvir algum comentário alarmado sobre sua completa irresponsabilidade. – Olha, eu não faço ideia, tá legal? – os braços cruzados eram capazes de acentuar o sentimento defensivo que a surfista projetava em sua escolha de palavras. – Quer dizer, eu troco a água quando me lembro e dou uns chutes na parte da frente da lataria quando ele pára de funcionar, mas é isso. – o findar da fala uniu-se a um longo suspiro frustrado. Exausta, Lennon abaixou as armas e o enorme orgulho. – Eu não preciso de algo 100% correto, só… Faz funcionar, por favor. – o tom de voz da loira enfim se despiu da exaltação de minutos atrás e uma risada fraca acompanhou a do desconhecido, dando-se por vencida ao charme interiorano do rapaz. – É, bom, pelo menos ela funciona. – o comentário ainda continha um resquício de sarcasmo, mas não era mal intencionado.
A menção a criatividade dos pais arrancou um riso inesperado dos lábios de Lennon, sacudindo a cabeça em acordo com Robert. – Você nem imagina. – o sorriso se manteve por mais alguns instantes, divertindo-se com a observação inocente feita pelo outro. – Quem sabe se você der um jeito no meu amigão aqui eu te conto a história de como eu escapei por muito pouco de me chamar Sunshine. – riu, enfiando as mãos no bolso, sentindo-se mais à vontade na presença do até então caipira misterioso. Lenny já havia tido experiências ruins o suficiente para saber que falar sobre sua vida familiar e suas origens era a oportunidade perfeita para arrancar alguns olhares esquisitos das pessoas, mas não parecia ser o caso de Bobby – ora, a camisa xadrez presa para dentro da calça definitivamente não o conferia exatamente a postura de zoar alguém. – Ohio? Ah, eu mesma nunca estive lá, mas meus pais fizeram parte do movimento de limpeza do rio Cuyahoga depois de fazerem pressão pro Congresso aprovar o plano nacional de água limpa. – apesar de ter crescido quase que como uma itinerante, viajando com os pais por todo país ao lado do movimento ambientalista, a jovem ainda não conhecia o estado natal do colega. – Deve ser legal morar em um estado onde o governador não é uma estrela de cinema e realmente se importa com problemas socioambientais, não? – com os braços cruzados a garota revirou os olhos, pronta para engatar em mais uma discussão política sobre os rumos do movimento ambientalista do Oeste e seus planos para melhorar o problema da desigualdade de recursos naturais no condado, mas fora interrompida pela revelação do outro. – Não, espera… Tá falando sério? – exclamou, erguendo as sobrancelhas em surpresa. – Cara, eu também estudo lá, que viagem! – de um soquinho com uma das mãos no braço do rapaz. – Mas calma aí, forasteiro. De que fraternidade você tá falando? – perguntou, semicerrando os olhos com suspeita. – Ah, eu? – apontou para si mesma, dando de ombros. – Eu sou, na verdade eu venho de uma comunidade ecológica de cooperação sustentável em Wheeler Springs, há umas duas horas daqui. Meus pais são uns dos fundadores do programa de proteção às espécies nativas. – a resposta fora mais longa do que havia antecipado, mas Lennon quase nunca conseguia resumir adequadamente de onde vinha. – Tipo um culto, sabe? – brincou, falando em um tom sério o suficiente para fazer o outro confundir-se com suas respostas; a garota não se incomodou com o estereótipo californiano atribuído a sua pessoa, sabia que se encaixava perfeitamente à sua imagem, mas resolveu brincar com o rapaz apenas para divertir-se após um longo dia estressante. – Total. E, bem, já que você vai se mudar para cá então tem que começar a conhecer as coisas, tipo o Sammy’s que tem o melhor sushi vegetariano de todo o litoral, te prometo. – Lennon percebeu que todas as palavras que saíam de sua boca soavam como buzzwords de algum anúncio publicado no MySpace, mas ele pegaria o jeito. Bem, logo logo.














