Bastou a caloura adentrar a residência das Zeta Phi Beta para que uma rápida mudança nos rumos da conversa se colocasse em curso – talvez tal comparação pudesse soar demasiado dramática e fantasiosa para quem quer que fosse, afinal de contas não havia nada de sobrenatural sobre a casa e Jasmyne era cética demais para acreditar em qualquer lenda universitária, mas era como algo tivesse subitamente mudado no segundo em que as duas meninas atravessaram o batente branco que separava o mundo exterior e o ambiente perfumado de jasmim. Como em filmes de scifi, onde os laboratórios de segurança máxima e alta sofisticação tecnológica eram designados para conter armas químicas poderosíssimas e altamente voláteis, as paredes cuidadosamente pintadas de branco eggshell pareciam ser tão poderosas quanto, ainda muito mais sutis e discretas já que não havia sinal algum de reatores de corrente elétrica, ao contrário, o ingrediente de alta periculosidade parecia pairar junto ao ar, sendo impossível enxergá-lo, embora pudesse sentir sua presença em cada cômodo. Se antes o objetivo de tornar-se uma Zeta parecia um feito facilmente atingível, apesar de custoso, um breve passeio até os aposentos íntimos da veterana foi capaz de revelar nuances que Jasmyne não fora capaz de perceber enquanto aguardava do lado de fora, na companhia das roseiras brancas do jardim.
Ouvir April falar era como estar em um passeio no serpentário do zoológico – em um momento a espécie parecia docilmente controlada em seu aquário de vidro, estudando àqueles que se atreviam em visitá-la, mas em um fragmento de segundos depois, a mesma parecia romper de seu repouso sereno para assustá-los com algum golpe imprevisível. A garota de roupas cor-de-rosa parecia tão imprevisível quanto uma serpente em seu lar. A Campbell percebeu, então, que longe de ser como as meninas do colégio católico o qual havia frequentado, a moradora da sororidade era ainda uma espécie desconhecida, embora pudesse facilmente ser confundida com mais uma garotinha má e com dinheiro no bolso. Não só as palavras da mais velha eram escorregadias, frequentemente alternando entre uma gentileza invejável para um tom inquisitório que parecia testar até o último fio de cabelo de Jazzy, mas o sorriso presidenciável e o olhar rápido pareciam alterar com a mesma rapidez e agilidade. Quando ela disse seu nome, porém, Jasmyne não pode conter o sorriso entusiasmado que se desenhou nos lábios, como se tivesse acabado de receber um prêmio, mas ao mesmo tempo enchendo-se de preocupação, pensando em todas as interpretações que poderiam acompanhar a frase dita pela outra e nas conclusões que a mesma parecia tirar de si, como fotografias inesperadas. Sorriu, entortando a cabeça para o lado, buscando manter algum mistério – nem mesmo ela sabia quais cartas possuía nas próprias mangas.
– É claro que existem tantas outras coisas mais importantes que o menu culinário da casa, duh. Mas eu confesso que não me importaria nenhum pouco em fazer refeições estreladas. – o comentário foi seguido de uma curta risada, dado o vislumbre da possibilidade. A animação efervescente da garota fora tamanha que mal pode se dar conta da dualidade quase escancarada que a frase da outra trazia consigo, “se entrar”. Fosse em razão do entusiasmo exacerbado que sentia dentro de si ao sentir-se tão próxima de um de seus maiores objetivos dos últimos anos ou apenas um desejo secreto e silencioso que habitava da garota há muito mais tempo: o de ser aceita. A Campbell sempre fora solitária demais, nem sempre por escolha, já que a personalidade geniosa e o temperamento moroso pouco eram capazes de atrair a companhia das meninas de sua idade, e ainda assim quando o faziam, a própria dava um jeito de afastá-los, julgando não precisar de mais ninguém. Assim, a possibilidade de enfim poder participar de uma verdadeira sororidade – mesmo com todas as particularidades um tanto questionáveis da ZPB – mexiam com a garota muito mais do que ela estava disposta a admitir.
Com a ponta dos dedos, a garota imprimia sua digital nas fotos e demais lembranças pregadas à parede, buscando gravá-las à memória fotográfica o máximo que pudesse. – Callisto. – os lábios reproduziram o nome dito por James, mas em volume muito mais baixo, apenas memorizando o nome da menina das fotos. – Vocês tem mesmo muito bom gosto, não se parece em nada com aquelas transformações cafonas que os programas de baixo orçamento da televisão fazem nos dormitórios dos alunos. – constatou, apreciando a bela decoração que transformava o quarto em um cenário de conto-de-fadas, com as cortinas de linho quase invisíveis tremulando com o vento. – Muito bonita. – o elogio escapou de seus lábios mais rápido do que previa, concordando com o tom curioso da veterana. – Não vejo a hora de conhecer todas as irmãs. – talvez o uso do termo soasse muito ingênuo para a outra, mas Jazzy não se importava, afinal de contas ainda tinha que se mostrar interessada em tornar-se uma delas. – Se Callisto e as demais forem como você, então acho que vamos nos dar muito bem. – a morena piscou para a outra, cruzando a perna e agarrando-se à uma das almofadas peludinhas que ficavam sob a cama.
As próximas perguntas dirigidas à adolescente pareciam sugar todo o ar que existia no cômodo e sem ao menos se dar conta, as duas mãos agarraram a almofada com tanta força que as unhas perfuraram o tecido. – Estou, por que não estaria? – o tom quase ameaçador exigiu toda a coragem da menina, que suspendeu o queixo buscando manter-se firme em sua resposta, temendo mostrar suas próprias inseguranças. – Eu tenho as notas, o currículo, a aparência e o dinheiro. Não é isso que vocês olham? – o pensamento da mais nova geralmente se estruturava daquela maneira, sempre orientando-se para conquistas, resultados e potencial. – Além disso eu estou aqui, não? Se a competição é tão boa assim, então onde está o restante? – as pontas dos dedos já podiam sentir o recheio da almofada, tamanha a força com que segurava o mesmo. Todos os músculos do corpo de Jasmyne mantinham-se tensos como se estivesse realmente em um serpentário, não no quarto pintado em tons pastéis. – É o que… – a frase, entretanto, fora interrompida pela súbita interrupção junto à porta. Em um movimento brusco motivado pela surpresa, Jasmyne voltou sua atenção para a figura feminina que agora a encarava com um olhar tão penetrante quanto o da James, largando a almofada que caiu ao chão, sob os pés da desconhecida. Imediatamente levantou-se e tomou fôlego – a porta aberta fora um alento, o que permitiu a caloura de preencher os pulmões com o ar fresco e acalmar os nervos. – Sou Jasmyne, caloura. – anunciou, estendendo a mão, embora a cama da outra impusesse uma distância maior do que havia antecipado. – Callisto? – repetiu o nome por uma segunda vez, mas agora com alguma finalidade.
Anuindo com a cabeça, April James encostou-se em um dos armários brancos que compunham a decoração e a disposição perfeita dos móveis do quarto. Encarando a caloura e possivelmente nova membro da sororidade, Jasmyne passaria facilmente pela peneira se tudo com o que contassem fosse aparência, boa dicção e respostas rápidas. Sentada despojadamente mas ainda assim cheia de classe sobre a cama da Callaway, a futura advogada não tinha objeções à primeira vista. Mas as garotas daquela casa eram muito mais do que apenas rostos bonitos, posturas clássicas, contas bancárias avantajadas e educação exemplar, e April não pensava em honra, inteligência ou condutas perfeitas quando referia-se mentalmente ao ingresso naquele lugar. Melhor do que ninguém, sabia que ser flexível, ardilosa e principalmente astuta eram características essenciais para sobreviver lá dentro. Infelizmente para muitos, Zetas podiam ser cruéis, e se Jasmyne não tinha o mínimo desses três pilares, talvez não fosse capaz de aguentar a pressão. Por mais que não muitos anos dividissem ambas da mesma faixa etária, a James conseguia perceber de forma quase palpável que a Campbell nunca tivera experiências como conviver com garotas mais velhas que possivelmente poderiam passar por cima das próprias colegas leais para conseguir algo supérfluo como uma edição limitada de algum batom da MAC – claro, estereotipando o máximo possível, mas sabia que podia acontecer qualquer dia desses.
Não que se preocupasse com isso. Não, April James tinha mais o que fazer do que tentar aconselhar ou cuidar de garotas mais novas do que ela. Mesmo acolher já parecia um grande feito, tendo em vista o que todas se tornavam ao entrarem naquela casa. Jasmyne deveria aprender a cuidar de si mesma com o passar do tempo. A forma como ela falava – como se já fosse parte, como se estivesse prestes a trazer suas coisas para um dos quartos da Zeta – era até mesmo inocente. Por um momento, viu-se na obrigação de lhe dar um sorriso. Não irônico, não sarcástico, não falso. Apenas um pequeno sorriso. “Callisto e eu somos bem diferentes.” Limitou-se a dizer mais uma vez. Apesar de semelhantes em alguns aspectos, April não gostava de sujar as mãos pra muita coisa. A insegurança notável disfarçada de impetuosidade pra parecer decidida fez com que a James aquiescesse mais um vez. “Você está adiantada, e sabe disso. De fato, é um ponto a se considerar, mas-...”
A entrada de Callisto surpreendera até mesmo April. Conhecia muito bem aquela expressão, fora a da primeira vez que se viram e travaram uma briga naquele mesmo quarto, um ano atrás. “Não vai se ver livre de mim por algum tempo, Callie. Seja bem vinda de volta também.” Um sorriso de canto acentuou os lábios ao que a estudante pronunciou-se com cautela, aproximando-se um pouco mais da amiga e de Jasmyne, já de pé como um pequeno soldado. Era como se a Campbell houvesse feito algo imperdoável. Só esperava que a Callaway não levasse essa interpretação como a única. “Ela é uma candidata à permanência na Zeta, Callaway. Teve o decoro e a decisão de vir sozinha até aqui pra conhecer a casa, ter certeza de que é um bom lugar. Me ofereci para mostrar as dependências e dar um exemplo de como o quarto é.” Explicou, surpreendentemente sentindo a necessidade de fazê-lo. “Um ponto positivo, não?” Tentou, cruzando os braços novamente. Deus, quem devia estar se explicando era a própria Campbell, por que estava se metendo? Olhou para Callisto, parecendo indecifrável nos primeiros segundos. Comportamento, Callisto, por favor, pensava.
Apesar de desnecessário prender-se ao passado, alguns poderiam se questionar o que seria Callisto Callaway se os pontos mais importantes de sua vida tivessem sido diferentes. Por exemplo: seria ela tão insensível de fato a outras pessoas se criada junto da irmã mais nova (que devidamente ignorava a existência)? Ou seria ela, se é que possível, pior? E se a mãe tivesse feito parte de seus dias fisicamente, e não apenas através de palavras grosseiras ditas de forma insensível à sua versão mais jovem e inocente? Difícil apostar em um cenário menos grotesco considerando que a jovem era afinal fruto de dois indivíduos igualmente egocêntricos e inteiramente despreparados para criar um outro ser humano. Verdade fosse dita, Callie pegava-se - ainda que muito raramente - pensando sobre como poderia ter se tornado a irmã caçula. Será que a garota era também tão implacável quanto a Zeta? Estivesse onde for, poderia ela ter herdado a mesma raiva, sofrido dos mesmos traumas? Preferia pensar que sim. Seria de uma extrema injustiça do universo que ela fosse a única deixada nas mãos de alguém como Osman. Fato era que não importava de verdade aquele monte de ‘e se’ que por vezes acometia seus pensamentos na calada da noite, quando tornava-se impossível esconder os sentimentos e pensamentos naturais a qualquer ser humano, mesmo um tão ruim; as coisas eram como eram, os resultados foram o que foram. E ela seguia sendo ela, sendo forte, sendo má. É, era uma forma de se colocar. A expressão impaciente portanto não era mesmo incomum, a capacidade de demonstrar tão bem tudo que lhe passava pela mente sem permitir uma mísera ruga na testa. Seria bom que Jasmyne tivesse o vislumbre desde bem cedo do que era a garota; tornaria a convivência muito mais fácil se como April, elas aprendesse a conviver. Ainda parada na frente da novata que, para bem ou para mal, era pelo menos tão bonita ou mais que boa parte das participantes da casa, não precisou esperar muito para que a figura diante de si se erguesse em um pulo nervoso. Não teria qualquer problema em forçar a miniatura de gente pelos cabelos, mas tinha prometido a si mesma que esperaria pelo menos dois meses até arrancar os fios das novatas - precisava aparentar mais controlada naquele ano, afinal, a presidência se aproximava e não podia perder. Os olhos escuros e brilhantes da Callaway foram imediatamente à almofada outrora nas mãos de Jazzy, mas que então caíam no chão pelo movimento brusco. Se não tivesse apreciado tanto a demonstração tão clara de obediência e medo - que ela podia até sentir o cheiro -, teria se importado mais com o fato da peça estar no chão. Não deixou de perceber, no entanto, a maneira que a novata pareceu recompor a postura, claramente tentando demonstrar seu preparo. Pendeu a cabeça lateralmente, analisando a moça com calma, ignorando o cumprimento logo de início, tomando os segundos que achasse necessário para absorver toda a presença alheia. Virou então a atenção à April, que tinha a irritante mania de ser prestativa e educada com as pessoas. Resistindo à vontade de revirar os olhos, finalmente retornou as íris até a morena à sua frente e enfim esticou o braço, na intenção de se apresentar. Ou, bem, confirmar o que a outra aparentemente já sabia. Não se impressionou com o detalhe de que a mais nova já conhecia seu nome; aquilo já era suficientemente comum em seus dias. Fosse pela ligeira fama por ser filha de quem era, ou simplesmente por ser mesmo uma presença tão marcante nos locais que frequentava. “É, um ponto positivo.” Concordou, conforme a mão de unhas meticulosamente pintadas em um rosa pink de incomodar as córneas alcançava as palmas macias de Jasmyne, devolvendo a cordialidade. “Eu perguntaria o que te faz querer participar, se não fosse tão óbvio.” Comentou, retirando o casaco e o jogando por cima da bolsa na cama - a organizada ali era AJ. “Claramente eu cheguei atrasada, mas imagino que no mínimo você tenha listado um currículo tão bom que não resta dúvidas sobre sua aceitação. Afinal, AJ, prefiro acreditar que você não sai por aí oferecendo tours aos nossos espaços pessoais e privados a qualquer um.” E ainda que a provocação tenha sido direcionada à colega de quarto, os olhos seguiam presos à mais nova como quem observava uma presa. “Mas, sabe, toda essa esperança é... uma graça.”