Começos. Sete letras que formam uma palavra usada nos mais diferentes contextos e inúmeros conceitos. São portas que se abrem e você opta entre ser o recepcionista e controlar o que é permitido adentrar ou simplesmente deixá-las livres para o que der e vier. Uma definição um tanto figurativa, mas concreta o bastante para amedrontar Yena com os começos dos quais precisava encarar.
A partir dele, as exigências vão além do que parecem. Qualquer escolha, por menor que seja, deve ser feita com muita cautela e de acordo com suas concepções. E escolhas geram oportunidades, que exigem sabedoria para enfrentar os desafios a frente. Por isso, inícios demandavam de Gae mais do que ela mesma reconhecia. Uma fase longa da qual não havia o estágio de acomodação até sentir-se satisfeita com os resultados e chegar até o fim, inibindo qualquer pausas em seus esforços. Era difícil imaginar que todo o trabalho árduo poderia ser jogado no lixo caso cometesse algum deslize em alguma dessas etapas e com isso, a segunda opção encontrava-se definitivamente fora de cogitação. Protegeria suas portas, as controlaria para que nada entrasse de repente e saísse de seu controle, desestruturando os trilhos dos quais havia montado. Mas assim como toda ação tem consequências, ser tão restritiva não apenas a blindava contra os males, mas inconscientemente a selava do resto do mundo. Limitações nem sempre fizeram parte de sua vida, mas tornaram-se fundamentais à partir do momento que as habilidades estavam a prova. A carcaça podia fraquejar com o peso do dever, mas coragem é o que não falta. A maior motivação que se poder ter é pensar naquilo que mais amamos.
Era exatamente dessa forma que enxergava mais um bimestre novinho em folha dando as caras após a festa de abertura para os novos alunos. E com isso, o inicio de mais um ciclo desde que ingressara-se no curso de direito. Contudo, pensar em faculdade era de longe a última preocupação da galera naquele lugar. Os copos preenchidos com misturas alcoólicas e quantidade de gente utilizando os cantos como suporte para amassos formava os principais elementos da seguinte dúvida: Por que Deus foi tão generoso ao deixar que o ser humano vivesse? Uma raça tão repugnante, francamente. Segundo: Por que ela estava ali mesmo? Ah é, por ter perdido o senso do ridículo e ceder as súplicas da melhor amiga que por sinal sumira de vista e de bônus não atendia o celular. Ela que preparasse os ouvidos para as poucas e boas que diria quando a encontrasse mais tarde. Isso se encontrasse. Por enquanto, não podia fazer nada a não ser dar um jeito de escapar daquela gente e ir ao terraço esperar um milagre.
Não tinha nada a ver com a vida alheia, muito menos com as escolhas de sua melhor amiga, mas sofrer um bolo daqueles já era sacanagem. Jamais teria a capacidade de fazer o mesmo e esperava que no mínimo, a amiga tivesse um pingo de empatia. Estava tão indignada que estava prestes a considerar essa relação como uma amizade tóxica! Ficou presa ao celular enviando quantas mensagens seus dedos fossem capazes de digitar por minuto, parando apenas para apoiar-se no muro que involutivamente seus passos guiaram. Encostou a cabeça contra o cimento gelado, fechando os olhos ao respirar fundo. A noite era fria, mas de certa forma, a brisa lhe trazia um certo aconchego e outras coisas da quais Yena estava um passo de descobrir. O leve devaneio chegara ao fim no momento que ouviu uma voz masculina da figura que por conta da baixa luminosidade -ou por sua falta de observação ficara camuflada até agora. Inclinou a cabeça de modo que desse abertura para suas iris captarem nitidamente a bela imagem ao seu lado. Não sabia que tipo de abordagem era aquela, mas um sorriso estampou-se em seus lábios em retribuição -sem sua permissão, a propósito. Pelo menos ele não parecia embriado e até onde conseguia enxergar, inseto de olhos vermelhos.
‘‘Um namorado é meu último desejo no momento, acredite.’’ Balançou a cabeça em negação e ergueu os ombros como se sentisse um arrepio estremecer o corpo todo. Geralmente aquelas reações corporais manifestavam-se quando tentava impor uma verdade a si mesmo que no fundo nem ela acreditava. Não falava sério, mas também não estava brincando. ‘’Com a melhor amiga, na verdade.’’ Ergueu as sobrancelhas, uma linha ténue formando na boca. ‘’Ou ex-melhor amiga, eu não sei.’’ Jogou a cabeça para o lado, como se aquilo solucionasse a própria dúvida e em seguida, colocou as mãos no bolso da jaqueta. Dez segundos de conversa e Yena já sentia uma certa afinidade com o rapaz, que de quebra fora muito simpático, diferente da maioria dos rapazes que se encontrava numa festa daquele porte. ‘’Mas e você? Decidiu subir para tomar um ar antes que acabasse vomitando no colo de alguém?’’
Um sorriso amarelo estampou seu rosto assim que percebeu que ufa! não tinha dado uma bola fora. E principalmente porque ela parecia ter um certo bom humor que era muito mais do que bem-vindo. Ah, coração, seu danado! Você não erra mesmo, né? “Wah, você me parece jovem demais pra já estar tão desiludida com o amor.” A cabeça balançou como se seu peito estivesse inundado de pesar. Se bem que se a primeira coisa que você ouve de uma garota que se sentiu conectado é “eu não quero um namorado”, não dá pra negar aquela dorzinha no fundo do coração, né? Se bem que se ela disse isso, é porque ela está solteira, logo... Ei, ei! Planeta terra chamando Lee Yedam, você conheceu a garota há dois minutos, cara! Acorda pra vida!
Fingindo que sua cabeça estava seguindo uma linha de raciocínio muito plena o estável, o olhar de curiosidade não pôde ser contido quando a ouviu. “Com a melhor amiga? Que barra. Deve ter sido sério pra você acabar aqui. E chamá-la de ex-melhor amiga também, claro.” Emendou rapidamente como quem acabara de se lembrar de algo importante, mas a verdade é que só queria soar cômico para aliviar a possível tensão que a incomodava. Aish, desentendimentos sempre eram ruins, não importa o motivo! Ainda entre pessoas tão próximas como melhores amigos. E se fosse de alguma ajuda, acalmá-la era uma boa opção antes de tentar resolver o problema.
Soltou uma risada e voltou a apoiar-se no murinho pelo cotovelo. “Eu? Só pra constar, sou um cara muito controlado e conheço muito bem os meus limites, ok?” Tentou falar sério, mas não demorou para um sorriso divertido voltar a brincar em seus lábios. Naquele instante, olhando-a com mais calma, pode se dar conta de que estava diante de uma moça muito bonita e que nem sabia dizer como, mas sentia que ela tinha algo escondido ali. Algo precioso ou sei lá, talvez só a pecinha de um quebra-cabeça que se encaixava perfeitamente com a que ele trazia no bolso. “Mas não, a probabilidade de alguém vomitar em mim é bem maior do que a de eu dar esse vexame. Talvez no fundo eu tenha fugido para que não fizessem isso comigo.” Deu de ombros, olhando para os nós dos próprios dedos que evidenciavam sua agitação ao mexerem-se sem parar.
Aquilo era nervosismo? Podia até ser, só que o pensamento de dois jovens que subiram pra um telhado sem o intuito de se pegarem enquanto uma festa gigante acontecia abaixo de seus pés era meio melancólico. Mas gostava da melancolia, daquele eco distante de música e gritos enquanto olhava para um céu estrelado na medida que uma paisagem urbana permitia. E de quebra, uma pessoa nova para conhecer. “É nova por aqui, srta-eu-briguei-com-minha-melhor-amiga?”