Começos quase sempre indicavam coisas novas. Começo da escola, do ensino médio, faculdade, namoro, em uma casa ou lugar novo. E quase sempre indicavam coisas boas, como uma brisa de ar fresco em um dia quente em que você não faz ideia do quanto esse simples fenômeno pode ser exatamente tudo o que precisa. Para Yedam não foi diferente, mas em seu caso, estava mais para um recomeço.
Talvez por isso admirasse tanto as fênix: eram mitológicas, mas não deixavam de ser criaturas deslumbrantes pelo fato de literalmente renascerem das cinzas. E de novo, esse maldito prefixo re. Recomeçar, renascer, recarregar, reler, rever, repensar, reformar. O processo de repetição parece ser algo inerente à natureza humana onde as pessoas ficam presas nesse ciclo e nem se dão conta, este quase sempre funcionando como uma variante negativa. Não para Yedam. A renovação era a tal da brisa de ar fresco acompanhada de um conforto causado pelo cheiro de flores ou de terra molhada e quando tinha sorte, o vento também lhe trazia a risada inocente de uma criança. Mas e se as tragédias o obrigassem a fechar as janelas do quarto, o privando de conhecer perfumes de outras flores e novas vozes? É aí que voltamos à fênix. Antes de deixar tudo virar cinzas, aguentaria firme e manteria aquela última centelha viva pelo tempo que fosse até que ela pudesse causar um novo incêndio grande o suficiente pra arrebentar o vidro, a janela e o restante da parede só para poder sentir o vento batendo contra seu corpo todo. Assim o ouviria, veria, sentiria em sua pele, em sua boca, em seu nariz. O cheiro de queimado passaria logo: os perfumes retornariam uma hora ou outra.
Era com essa mentalidade que tinha deixado a antiga casa dos avós, se mudado para um apartamento perto do campus onde trabalharia e acabara em uma festa de boas-vindas para os calouros. Se bem que dizer na festa era meio errado, estava mais para no lugar da festa. Telhados. Sempre tivera uma certa afeição por essa parte da casa ou por varandas em que podia escorar os cotovelos na grade ou pequeno muro e ficar olhando para o céu, exatamente como fazia agora. O som estava muito alto, as pessoas estavam muito altas, as conversas estavam muito altas. Tudo ali existia em exagero. Lee também era filho de Deus, merecia respirar um pouco de ar puro antes de ter que encarar outra rodada de gente dançando e se esfregando no mais novo bibliotecário que teria que encarar toda aquela galera durante um bom tempo. Só que nesse caso, sóbrios. Pelo menos era o que esperava.
Arrumou a camisa, colocou as mãos nos bolsos da calça e encostou-se no muro, ficando de frente para a pouca movimentação e alguns casais que se pegavam loucamente por ali. Até que identificou uma garota vindo em sua direção e parando por perto, exatamente como ele tinha feito há alguns minutos atrás. Tentou fingir que não havia ninguém para não incomodá-la, afinal, não sabia quais motivos tinham levado-a até aquele lugar. O problema é que Lee era um cara muito intuitivo e foi só seus olhos pousarem na figura feminina que ele sentiu um bam! dentro de si. E quando seu coração mandava, ele obedecia. “Está perdida ou o pessoal conseguiu te expulsar também?” O sorriso brincalhão em seus lábios denunciava grande parte de sua personalidade enquanto a olhava da maneira mais discreta que conseguia. Não queria parecer um pervertido - que sabia que tinha aos montes na faculdade - e muito menos assustá-la por isso. “Ou brigou com o namorado?” A expressão anterior cedeu lugar a uma mais íntegra com direito a um leve inclinar da cabeça. Não falava sério, mas todo cuidado era pouco porque nunca se sabe quando pode ganhar um belo tapa na cara. O que importa é que não perderia aquela oportunidade, então só pedia ajuda ao universo mentalmente.
Começos. Sete letras que formam uma palavra usada nos mais diferentes contextos e inúmeros conceitos. São portas que se abrem e você opta entre ser o recepcionista e controlar o que é permitido adentrar ou simplesmente deixá-las livres para o que der e vier. Uma definição um tanto figurativa, mas concreta o bastante para amedrontar Yeha com os começos dos quais precisava encarar.
A partir dele, as exigências vão além do que parecem. Qualquer escolha, por menor que seja, deve ser feita com muita cautela e de acordo com suas concepções. E escolhas geram oportunidades, que exigem sabedoria para enfrentar os desafios a frente. Por isso, inícios demandavam de Gae mais do que ela mesma reconhecia. Uma fase longa da qual não havia o estágio de acomodação até sentir-se satisfeita com os resultados e chegar até o fim, inibindo qualquer pausas em seus esforços. Era difícil imaginar que todo o trabalho árduo poderia ser jogado no lixo caso cometesse algum deslize em alguma dessas etapas e com isso, a segunda opção encontrava-se definitivamente fora de cogitação. Protegeria suas portas, as controlaria para que nada entrasse de repente e saísse de seu controle, desestruturando os trilhos dos quais havia montado. Mas assim como toda ação tem consequências, ser tão restritiva não apenas a blindava contra os males, mas inconscientemente a selava do resto do mundo. Limitações nem sempre fizeram parte de sua vida, mas tornaram-se fundamentais à partir do momento que as habilidades estavam a prova. A carcaça podia fraquejar com o peso do dever, mas coragem é o que não falta. A maior motivação que se poder ter é pensar naquilo que mais amamos.
Era exatamente dessa forma que enxergava mais um bimestre novinho em folha dando as caras após a festa de abertura para os novos alunos. E com isso, o inicio de mais um ciclo desde que ingressara-se no curso de direito. Contudo, pensar em faculdade era de longe a última preocupação da galera naquele lugar. Os copos preenchidos com misturas alcoólicas e quantidade de gente utilizando os cantos como suporte para amassos formava os principais elementos da seguinte dúvida: Por que Deus foi tão generoso ao deixar que o ser humano vivesse? Uma raça tão repugnante, francamente. Segundo: Por que ela estava ali mesmo? Ah é, por ter perdido o senso do ridículo e ceder as súplicas da melhor amiga que por sinal sumira de vista e de bônus não atendia o celular. Ela que preparasse os ouvidos para as poucas e boas que diria quando a encontrasse mais tarde. Isso se encontrasse. Por enquanto, não podia fazer nada a não ser dar um jeito de escapar daquela gente e ir ao terraço esperar um milagre.
Não tinha nada a ver com a vida alheia, muito menos com as escolhas de sua melhor amiga, mas sofrer um bolo daqueles já era sacanagem. Jamais teria a capacidade de fazer o mesmo e esperava que no mínimo, a amiga tivesse um pingo de empatia. Estava tão indignada que estava prestes a considerar essa relação como uma amizade tóxica! Ficou presa ao celular enviando quantas mensagens seus dedos fossem capazes de digitar por minuto, parando apenas para apoiar-se no muro que involutivamente seus passos guiaram. Encostou a cabeça contra o cimento gelado, fechando os olhos ao respirar fundo. A noite era fria, mas de certa forma, a brisa lhe trazia um certo aconchego e outras coisas da quais Yeha estava um passo de descobrir. O leve devaneio chegara ao fim no momento que ouviu uma voz masculina da figura que por conta da baixa luminosidade -ou por sua falta de observação ficara camuflada até agora. Inclinou a cabeça de modo que desse abertura para suas iris captarem nitidamente a bela imagem ao seu lado. Não sabia que tipo de abordagem era aquela, mas um sorriso estampou-se em seus lábios em retribuição -sem sua permissão, a propósito. Pelo menos ele não parecia embriado e até onde conseguia enxergar, inseto de olhos vermelhos.
‘‘Um namorado é meu último desejo no momento, acredite.’’ Balançou a cabeça em negação e ergueu os ombros como se sentisse um arrepio estremecer o corpo todo. Geralmente aquelas reações corporais manifestavam-se quando tentava impor uma verdade a si mesmo que no fundo nem ela acreditava. Não falava sério, mas também não estava brincando. ‘’Com a melhor amiga, na verdade.’’ Ergueu as sobrancelhas, uma linha ténue formando na boca. ‘’Ou ex-melhor amiga, eu não sei.’’ Jogou a cabeça para o lado, como se aquilo solucionasse a própria dúvida e em seguida, colocou as mãos no bolso da jaqueta. Dez segundos de conversa e Yena já sentia uma certa afinidade com o rapaz, que de quebra fora muito simpático, diferente da maioria dos rapazes que se encontrava numa festa daquele porte. ‘’Mas e você? Decidiu subir para tomar um ar antes que acabasse vomitando no colo de alguém?’’