Hoje eu mudei a minha tradição de Dia das Bruxas. Eu sempre gostei de filmes de fantasia, eu sempre fantasiei muito. Bem mais do que as pessoas podem imaginar, inclusive. Eu estou o tempo todo conversando em meus pensamentos, inventando situações, solucionando conflitos que não ocorreram, ou imaginando como eu me sentiria com algum desses meus devaneios sendo realizados. As histórias de bruxas e feiticeiras sempre me prenderam mais a atenção, eu me vejo fascinada com esse universo de poderes mágicos e o desbravar das possibilidades que o Universo nos traz. Com isso, todo ano, no dia 31 de outubro, eu sentava no sofá com as minhas irmãs para assistirmos a filmes sobre o Halloween que alugávamos na locadora mais próxima. Nós assistíamos e revíamos aquelas histórias com os olhos brilhando, nos emocionando a cada vez – mesmo quando já sabíamos o desfecho.
Depois que as locadoras fecharam e dos anos terem passado, cada uma está no seu canto de conforto. Eu não sei o que elas fazem nessas noites, mas eu ainda preparo a minha pipoca e escolho um filme que eu já vi para assistir de novo debaixo do cobertor. Esse ano, eu não poderia me sentir mais sozinha. Durante o dia eu recebi uma amiga, que após o almoço foi socializar com sua outra amiga; eu sabia que tinha trabalhos e aulas da faculdade para por em dia, mas quis manter a minha tradição. Nem que eu tenha que pausar para ler mais algumas páginas, pensei. Contudo, procurando o termo Halloween no Google, eu escolhi, de todos os filmes que me apareceram, assistir a uma animação na Netflix que eu não conhecia. Não era sobre bruxas e nem, necessariamente, sobre poderes mágicos, era sobre uma garota que acreditava que a Deusa da Lua ainda esperava, sozinha, o amor de sua vida voltar dos mortos para, assim, viverem a eternidade juntos. Não rolou. Fei fei, a protagonista, que estava lidando com a entrada de uma madrasta em sua vida, também se viu sem saída quando se deparou com a continuidade da vida amorosa do seu pai, após a morte de sua mãe. Indignada, como a autora Chimamanda, ao ver o mundo funcionando normalmente depois que seu pai já não vivia mais nele. Para onde vão os mortos?
Eu não consigo sentir a presença do meu pai, como uma amiga me contara que ocorreu com ela. Às vezes não me parece real que ele tenha morrido, porque eu não o vi. É como se essa fosse uma informação da qual eu tenho que me relembrar de tempos em tempos (ou da qual eu sou relembrada). Eu não vi os seus olhos fechados, eu não pude velar o seu corpo. Eu não me despedi. E ainda não sei como fazê-lo. Esse filme, hoje, me mostrou o que a cada sessão na terapia, desde que ele se foi, eu enfrento: foi ele quem morreu e não eu; logo, como eu escolho viver depois disso?
Eu posso chorar a sua partida quantos dias eu precisar. Eu posso resgatar cada detalhe que ainda me resta em memória ou delas me afastar, mas, independentemente do que eu escolha fazer, eu preciso seguir em frente. Ele não vai voltar. Nenhum dos dias que vivemos juntos vão mudar. Eu só tenho em mãos o que já passou, sem nem o mínimo que seja poder alterar, mas a vida é para frente e não parada aqui nessas lembranças.
Eu ainda não sei como me despedir desses finais para poder recomeçar.