Eu queria conseguir fazer um texto sobre você. Sua vida, minhas lembranças, suas histórias, nossos momentos juntos. Queria poder te eternizar. Mas quando se trata do senhor, as coisas ficam mais complicadas.
Basta só dizer seu nome que já me dá vontade de chorar. Basta só eu olhar para aquela cadeira que o senhor sentava todos os dias que já me dá vontade de gritar.
Basta eu lembrar que eu não lembro de quase nada sobre você, que me dá vontade de parar.
Eu não sei se tenho o direito de ter raiva por você ter partido, eu só sei que tenho. Tenho raiva de mim mesmo por não ter percebido as coisas que estavam acontecendo.
Mas, se eu soubesse que o senhor iria morrer, eu teria aproveitado mais cada momento nosso juntos.
Se eu soubesse que não iria mais te ver, não teria saído do seu lado.
Se eu soubesse que as coisas iriam tomar esse rumo, não teria reclamado de tantas coisas.
Se eu soubesse… SE… só se eu soubesse, o problema é esse, eu não sabia. O tempo passou, já foi. Faz três anos, e aqui estou eu, tentando fazer um texto pra você.
Só quando a gente perde percebemos o real valor das coisas.
O valor das primeiras e últimas palavras, o valor da primeira e última bença, o valor das boas atitudes, o valor do “Eu Te Amo”, o valor do amor, o valor de amar, o valor dos últimos olhares, o valor dos últimos segundos. O valor de ter o senhor aqui.
Infelizmente, só percebi o valor dessas coisas depois da sua morte.
Eu gostaria de mostrar ao senhor as minhas medalhas, mostrar ao senhor aquele gol que fiz naquele jogo, mostar meu corte de cabelo novo.
Gostaria de ter tido a sua presença na minha comunhão, nos meus últimos aniversários, nos últimos dias dos pais, nos últimos natais.
Gostaria de ter a sua presença no meu próximo aniversário, no próximo natal, no próximo dia dos pais, gostaria de ter você aqui, agora.
O que eu vou escrever agora é errado, eu sei, mas eu não me importo.
É que, ainda não me acostumei, nem aceitei que o senhor se foi “para sempre”, aliás, acho que nunca me acostumarei.
Ouvi de algumas pessoas que é errado desejar que o senhor estivesse aqui, mas eu desejo isso todos os dias. Desejo todos os dias te ver sentando lá na rua, desejo todos os dias ver você pedindo a minha ajuda para subir a escada. Desejo todos os dias ter o senhor ao meu lado. Desejo todos os dias a última bença, a última conversa, os últimos minutos. E principalmente, ouvir do senhor aquela última frase: “Esse é meu cabra homem”.
Sabe vô, eu acredito que algumas coisas não devem ser ditas, só guardadas na memória. Então, não falarei sobre aquela última troca de olhares, que foram na verdade como um Adeus. Isso ficará guardado só nas nossas memórias.
Acho que tenho sido um pouco egoísta, desde o começo do texto, só tenho pensado em mim, não tenho pensado em como o senhor devia sentir a dor do câncer.
Do mesmo jeito que sinto raiva por você ter partido, agradeço por não estar sentindo dor. Agora o senhor pode descansar, não precisa mais ficar em um lugar tão ruim. Agora está em um lugar bom, igual o seu coração.
Eu espero que o senhor esteja bem. Também espero que eu esteja te dando orgulho, sempre te amarei, sempre sentirei saudades, mas continuarei por aqui, te eternizando em forma de texto.
- João Kruger