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@lisbethmulcibers
[December, 1977] Have yourself a Merry little Christmas — Lisbeth & Frederich
Faltavam poucos minutos para que o dia de natal tivesse fim. A neve das vésperas daquele feriado havia cessado logo cedo naquela fatídica manhã e as ruelas de Londres, vazias e solitárias por conta das reuniões familiares que não tinham fim, apenas não pareciam infelizes e melancólicas por conta das luzes e decorações festivas que enfeitavam cada esquina e casa com o mínimo de apreço pela data em questão. O clima continuava frio como deveria e não havia sinal nem da lua nem de nenhuma constelação no céu londrino. Era como se os brilhos e sorrisos dentro das casas e apartamentos fossem as únicas e verdadeiras estrelas daquele feriado, as únicas coisas que realmente importavam para os moradores da capital inglesa.
Frederich olhou para uma guirlanda mal colocada na parede à sua frente e depois virou a caneca de cerveja até o fim. Seus amigos balbuciavam palavras de comemoração e outros cantavam para ele a típica música que é usada em festas de aniversário, de forma que as poucas pessoas do pub olhavam para eles e apenas não participavam por certamente estarem muito intrigadas em seus sonetos solitários e seus copos de whisky meio vazios. Talvez o destino tivesse sido ingrato ao fazer com que o rapaz nascesse logo no feriado mais importante do ano, mas Freddie parecia satisfeito demais naquela noite para que alguém dissesse que nascer naquele dia era algo minimamente infeliz.
Não bastasse a ceia e os presentes da noite anterior, havia sido acordado por seus pais com seu café da manhã favorito na cama e precisando repetir mais algumas vezes que já estava grandinho para que continuassem a lhe servir café em uma caneca velho e com a insígnia do Tutshill Tornados. Sua irmã e irmão mais novo deram-lhe livros trouxas e sua pequena sobrinha um desenho dele voando de vassoura. Sebastian não havia conseguido passar o natal e aniversário de Frederich em casa, mas enviou para todos seus respectivos presentes, sendo que deu para cada um algo que havia comprado no Japão, país que estava havia alguns dias para uma partida importante de quadribol. Freddie ficou com uma garrafa de saquê durante a distribuição dos presentes, mas sua mãe ficou sem graça de ter que confiscar a bebida, mesmo que não gostasse de ver o filho ou qualquer outro McLaggen consumindo álcool.
Fora apenas mais tarde naquela noite que Frederich pôde colocar os lábios em algo mais “adulto” e “eletrizante”, segundo o rapaz de bigodes que servia a ele e os amigos naquele pub indubitavelmente desanimado. As cervejas e chopps não conseguiam ficar mais de alguns minutos na mesa que dividia com os amigos aquela noite. Contando com Freddie, eram sete que ocupavam a mesa, alguns primos mais velhos e outros apenas amigos que também moravam na capital inglesa. Estavam todos animados e risonhos, sendo que o ravino seria melhor definido como o mais tímido daquela mesa redonda. Estavam no fundo do pub e tinham, porém, uma visão privilegiada de todos que entravam e saíam e dos que sentavam nas mesas e perto do bar.
A cantoria estava no fim quando Freddie terminou sua caneca e pôs os dedos sobre a face imaculada, agora tão envergonhado que ficava difícil imaginar que realmente tivesse bebido tantas cervejas quanto havia de fato. Alguns batiam nas suas costas e outros lhe davam apertos no ombro, tão felizes que possivelmente deixavam ainda mais deprimidos aqueles que não estavam a ter seu melhor natal e haviam preferido passar o resto do feriado tomando alguma bebida quente dentro do único pub aberto por aquelas bandas.
Frederich estava tranquilo e feliz como deveria, até que um de seus amigos apontou-lhe uma garota sentada na bancada e ele virou a cabeça para ver do que se tratava, apenas voltando depressa com os olhos para a direção dos amigos e balançando a cabeça negativamente. – Freddie, apenas vá lá e nos mostre um pouco da sua magia! – Disse o que apontava, agora gritando tão alto que todos do pub poderiam ouvi-lo, nada menos espalhafatoso que outras coisas ditas anteriormente. – É, Freds, se dê esse presente! – Falou outro, jogando um pedaço de batata frita em sua direção, sendo que não fora acertado por pouco. – Eu vi ela entrando, Sir McLaggen. Uma das coisas mais lindas dessa espelunca, pode ter certeza. – Completou um primo de segundo grau que era o mais bêbado de todos, mas que conseguiu formular a frase anterior em um sussurro que todos conseguiram entender. - Vai lá, cara! Te pago uma cerveja se for! – Continuou mais um, agora Frederich apertando os olhos com os dedos, mas sem deixar que o sorriso alegre sumisse do rosto. – Acho que encontramos uma candidata à princesa, amigo. – Prosseguiu o último, sendo que todos riram e continuaram a dar força para Frederich que apenas pediu para que se acalmassem e fizessem menos barulho.
– E o que eu ganho com isso? – Perguntou erguendo as sobrancelhas, todos dizendo palavras negativas em um coro irregular e alto seguido de ideias e ideias, cada uma mais insana que a outra. – Nós pagamos a cerveja pelo próximo mês se for até lá e conseguir se dar bem. – Falou o mais novo de todos, sendo que outro bateu em uma de suas orelhas logo em seguida, recriminando-o com um xingamento qualquer. – Ok, ok! – Disse ele, pedindo para que parasse e erguendo as mãos para tranquilizar os amigos. – Um beijo e consegue um mês sem pagar uma cerveja. – Ele concluiu agora recebendo o apoio de todos com exceção do aniversariante em si. Frederich olhou para trás outra vez e, mesmo sendo um pouco míope, conseguiu ver que a moça talvez fosse bonita demais para que conseguisse um beijo tão depressa. – Vocês são loucos. – Comentou aproximando-se do centro da mesa, o sorriso sempre a pairar em seus lábios, alegres e animados. – Mas… – Continuou. – Por dois meses o negócio está fechado! – Ofertou com um sussurro, os amigos agora batendo as canecas de vidro que tinham uma na outra e celebrando como podiam.
Frederich se levantou ainda sem graça, a caminhada até a moça sendo tão longa que ele pensou várias vezes em desistir e voltar para a sua mesa de origem. Ele chegou tímido, um sorriso fraco em seus lábios e as sobrancelhas erguidas como que denunciando o medo de levar um fora em pleno aniversário e natal. – Boa noite. – Disse aparecendo ao lado dela como que de surpresa, um dos braços deslizando pela bancada e os dedos da mão livre massageando a nuca. Frederich estava desconfortável, mas o êxtase das cervejas o faziam ficar mais presente e entusiasmado que os vestígios de uma indevida timidez diziam. Ele sorriu com mais naturalidade e não se deu conta de que, talvez, estivesse a invadir o espaço da moça daquele cumprimento.
Duas batidas na porta e um suspiro impaciente.
“Entra,” disse ela. Se tivesse escolha, certamente diria algo muito parecido com “dê o fora daqui e não volte nunca mais”. Poderia até imaginar o desfecho daquela noite desastrosa se atirasse tamanha afronta no colo da progenitora. Sorte a sua que ainda não exibisse no rosto pálido algumas manchas arroxeadas, tendo em vista o histórico violento dos homens da família Mulciber. Seu pai, assim como seu irmão, precisava do mínimo estímulo para permitir que a personalidade explosiva viesse à tona, e quando vinha, não existia conceito de moral ou ética no mundo que o impedisse de machucar uma mulher.
Marion Mulciber avançou alguns passos em direção à filha, um pouco hesitante. Por trás da máscara de frieza e autoridade, poder-se-ia dizer que havia mais humanidade naquela bruxa do que em todos os outros habitantes da mansão. Juntos. Tomou liberdade para se sentar na beirada da cama, onde Lisbeth repousava tão estática que parecia estar sem vida.
“Creio que agora possamos ter uma conversa séria e civilizada, não concorda?” Marion falou, a voz feminina era baixa, porém firme. “Lisbeth, a discussão que houve lá embaixo, em hipótese alguma, deve se repetir. Amanhã você se torna maior de idade e esse tipo de comportamento não será mais tolerado pelo seu pai. Você está cansada de ouvir que, como mulheres, temos certos deveres a cumprir.”
“Certo. E desde quando oferecer um banquete em ‘comemoração à maioridade’ consta na minha lista de deveres?” As íris da mais nova encontraram as da figura materna como se as desafiassem, mas esbarraram na imponência destas e foram cegadas pelas pálpebras exaustas.
“Desde que nós decidimos que sim, não há o que questionar. Eu inventei desculpas para você a vida inteira e não é assim que espero ser retribuída. O mínimo que você pode fazer pela honra desta família é se comportar adequadamente e assumir de uma vez por todas o seu papel como uma Mulciber respeitável.” Empertigou-se no colchão macio e, com um movimentar dos dedos longilíneos, ordenou que a filha ficasse sentada, assim como ela. “E isso significa acatar a decisão dos seus pais sem pestanejar, exibir o melhor sorriso que puder e cumprimentar cada um dos convidados como se fosse um enorme prazer recebê-los em seu aniversário. Estamos entendidas?”
“Entendidas? Acho que não,” disse apenas, dando de ombros. A apatia lhe era tão natural que Marion sequer cogitou alterar-se com a resposta.
“Mas é desse jeito que as coisas serão, quer você goste ou não. É inadmissível que tenhamos outro escândalo num intervalo tão curto de tempo, por Salazar. Não queira que seu pai comece a tratá-la como uma traidora do sangue, Lisbeth, e depois não venha me culpar por permiti-lo.”
“Sabe o que eu simplesmente não compreendo, mãe? A senhora acha que me protege e, no entanto, até semana retrasada eu ainda tinha as marcas da última surra. Só o que meu pai e Mikael fazem é me tratar como uma traidora.”
“Quer que eu diga a solução para isso, então? Parar de agir como uma. Você já está grande o suficiente para conhecer o seu lugar e saber se manter nele. Se o seu pai quiser oferecer dez festas amanhã, você vai comparecer às dez e ponto. Agora sim estamos entendidas.” Marion levantou-se de súbito, passou os dedos lentamente pelos fios negros e caminhou até a saída com uma segurança que, minutos atrás, não a acompanhava. “Eu realmente tento protegê-la, Lisbeth, mas é você quem está escolhendo o caminho mais difícil.”
Primeiro veio o baque da porta se fechando; a vontade de gritar veio logo depois. Precisava fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, algo que pudesse salvá-la daquele tenebroso aniversário – o qual nada mais era do que um pretexto estúpido para encontrar um rapaz interessado em entregar seu sobrenome à caçula dos Mulciber. Com a fama que ela tinha, acordos discretos dificilmente aconteceriam. Mikael Mulciber I precisava mostrar a todos que a única filha não se comportava tão mal quanto diziam por aí.
Junto com a vontade de gritar, uma ideia surgiu: poderia sumir durante todo o dia seguinte. Desaparecer, simples assim. Quando voltasse, certamente apanharia do pai e ouviria um monte da mãe, mas, no momento, isso soava bem melhor do que enfrentar consideráveis horas num evento cujo propósito beirava o desprezível. Não gostava de ser cúmplice, não gostava de baixar a cabeça e tampouco se arrependia das vezes em que saíra da linha. Fugir de casa, no entanto, era bastante diferente de tudo que já havia feito para desafiar os pais e Lisbeth começava a desconfiar de que as consequências não se limitariam a uma simples sessão de violência doméstica.
Quis sair mesmo assim. Calça jeans, botas, moletons e sobretudo ajudá-la-iam a se proteger da noite gelada. Trouxe nos bolsos alguns galeões e a varinha, pois qualquer coisa da qual viesse a precisar mais tarde poderia ser arranjada com auxílio mágico.
Lisbeth sentira dificuldades ao aparatar devido à falta de prática, mas conseguiu abandonar o enorme aposento e reaparecer a três quarteirões de distância sem sofrer estrunchamento. Andou por ruas escuras e becos mal cheirosos; desviou de homens com aparência suspeita e de adolescentes notavelmente bêbados. Deu-se conta de que a pior parte de fugir de casa era justamente a sensação do vazio, a sensação de não ter o que fazer ou para onde ir. Poderia até ser atraente para alguns, mas não parecia nada divertido na visão da jovem de olhos muitíssimo azuis.
Em decorrência do feriado de Natal e do horário tardio, pouquíssimos estabelecimentos comerciais estavam abertos; se encontrava bem no centro da cidade, como pôde reparar pela sinalização e pela grande quantidade de decoração luminosa. E agora?, era o que ecoava na cabeça da slytherin. É claro que poderia sempre se refugiar na mansão dos Greengrass, no entanto, este seria o primeiro lugar onde Mikael e Marion pensariam em procurá-la, o que iria totalmente contra o conceito de desaparecer do mapa. No mais, o desejo por alguma bebida quente acabou por levá-la até um pub medíocre logo no fim da avenida, onde aproveitou-se da baixa frequência de clientes para ocupar um assento solitário no balcão. Tentou ignorar o fato de que o balconista – gordo e velho, por sinal – a direcionara um olhar de cobiça e, timidamente, ordenou um chocolate quente.
“Bloody hell. Quem diabos vem a um bar para beber achocolatado?” Perguntou o homem, incrédulo, e Lisbeth viu-se na obrigação de compreender o porquê do espanto. Parecia, de fato, um tanto surreal.
Aproximadamente cinco minutos se passaram desde que a Mulciber fizera o pedido até o instante em que o recebeu. Enquanto bebericava de sua caneca – tomando cuidado para não se queimar – e pensava no que faria assim que saísse dali, uma voz masculina e jovial interrompeu sua linha de raciocínio. Ao contrário de Lisbeth, o rapaz que lhe desejara boa noite sorria e aparentava estar de muito bom humor. Ele era, talvez, o primeiro indivíduo com semblante apresentável a preencher o campo de visão da morena num intervalo de uma hora, porém, nem assim ela sentiu-se inclinada a dar abertura para aquele tipo de abordagem.
“Está boa pra você? Congratulations, then,” falou apenas, sem a preocupação de soar gentil. Em contrapartida, Lisbeth era raramente grosseira, mas as pessoas tendiam a confundir sua apatia com menosprezo, o que, às vezes, poderia gerar alguns problemas. De qualquer forma, a impassividade da menina não durou muito. Bastou que olhasse com curiosidade para o rapaz ao lado que logo experimentou uma sensação bastante parecida com a epifania. Um súbito entendimento: conhecia aquele rosto de algum lugar. “... Hogwarts?” arriscou, então, temendo estar errada e acabar sendo tachada de louca.
She was desperate and she was choosy at the same time and, in a way, beautiful, but she didn’t have quite enough going for her to become what she imagined herself to be.
Charles Bukowski, Factotum (via larmoyante)