Eu sempre achei que a minha vida mudaria quando chegasse a maioridade. Achei que seria uma viagem incrĂvel em todas Ă s fĂ©rias,e que aos vinte e poucos eu faria tudo que eu sempre quis. Mas aos vinte e poucos a gente soma mais decepçÔes e machucados que desejos realizados, aos vinte e poucos a gente aprende a gastar menos pra poder aproveitar mais um final de semana com os amigos, aos vinte e poucos a gente aprende a poupar tudo, dinheiro, paciĂȘncia, tempo com gente que nĂŁo soma e atĂ© mesmo pessoas que nĂŁo nos leva a lugar algum. Aos vinte e poucos a gente aprende a gastar sĂł o necessĂĄrio, gastar tempo com quem realmente valha a pena, gastar sorrisos com quem realmente nos faz bem, gastar abraços com quem Ă© importante pra gente, gastar beijos com quem faz o nosso mundo melhor.
Aos vinte e poucos vocĂȘ começa a ver o tempo passando mais rĂĄpido do que nunca e isso bate um medo danado. A gente vĂȘ, os anos passando e a nossa capacidade de sonhar diminuindo, a realidade tomando conta de tudo e como a realidade Ă© cruel. Aos vinte e poucos vocĂȘ começa a ver os seus amigos se casando, vocĂȘ se pergunta porque diabos resolveu entrar naquele curso que nĂŁo tinha nada a ver com vocĂȘ enquanto poderia estar fazendo algo mais Ăștil.
Aos vinte e poucos anos vocĂȘ leva no bolso uma nostalgia sem tamanho de quando era bem mais jovem e isso te faz parar no tempo e perceber ainda mais o quanto o quanto o tempo voa. Aos vinte e poucos vocĂȘ se livra daquela ideia de procurar o amor da sua vida e passa entender que as coisas vĂŁo acontecer na hora em que tiverem que acontecer e que pode ser que aconteçam de uma forma melhor que imaginamos ou planejamos.
Antes dos vinte temos uma mania de achar que jĂĄ somos donos do mundo, que jĂĄ amaduremos o bastante ao ponto de sabermos o suficiente, mas Ă© aos vinte e poucos que a ficha finalmente cai, a gente começa a entender que amadurecimento Ă© adquirido ao longo do caminho e que a bagagem que a gente carrega Ă© constantemente trocada por novas experiĂȘncias, a gente nunca Ă© tĂŁo maduro que nĂŁo possa amadurecer ainda mais. Aos vinte e poucos a criança de dentro da gente grita, esperneia, nos tira o sono. Ăs vezes bate aquela vontade de deitar em posição fetal e chorar um bocado, de fingir que ainda somos crianças, largar a academia e queimar as calorias brincando pique-esconde. De jogar todas as contas pro alto, de entrar numa mĂĄquina no tempo e voltar.
Aos vinte e poucos os laços se soltam pra sempre ou viram nĂłs apertados. NĂŁo tem meio termo, nĂŁo tem como afrouxar. Quanto mais o tempo passa mais existe uma necessidade impaciente de ser Ăąncora, certeza, e Ă s vezes tudo que vocĂȘ consegue Ă© encalhar, ter dĂșvidas, receios. Aos vinte e poucos sarar uma ferida talvez seja amanhĂŁ, talvez demore tanto. A queda Ă© bem mais alta aos vinte e poucos, o risco Ă© maior, principalmente quando nĂŁo dĂĄ pra confiar em ninguĂ©m pra te livrar da queda, pra te dar colo, pra evitar o tombo.
Aos vinte e poucos vocĂȘ consegue ser mais dĂșvida que certeza, e a Ășnica certeza que vocĂȘ tem Ă© que vocĂȘ nĂŁo Ă© exatamente quem queria ser antes dos 20. Mas quando a coragem e a autoconfiança vem pra desancorar o barco, vinte e poucos Ă© leveza, se torna a idade que vocĂȘ pode ser vocĂȘ mesmo sem se importar com o que os outros acham, existe uma vontade de viver intensamente, viajar, ganhar o seu prĂłprio dinheiro. Talvez os vinte e poucos seja a idade ideal da vida real, sem maquiagem, com cara cansada, contas pra pagar, muita coisa pra fazer. Talvez aos vinte e poucos seja o momento do teu primeiro encontro contigo mesmo.
Para vocĂȘ que jĂĄ chegou aos vinte: vocĂȘ vai encontrar alguĂ©m,alguĂ©m que vai olhar pra vocĂȘ com a mesma intensidade,que vai te ajudar a carregar sua bagagem,e vai admirar suas cicatrizes. AlguĂ©m madura o suficiente,pra entender que aos vinte e pouco, Ă© um trem desgovernado.