“Você é tão cabeça dura…” murmurou, tentando não continuar aquela discussão, mas ao mesmo tempo não querendo deixar o momento passar. Virgil gostava da forma com que Eugenie o olhava. Por mais que tivesse recebido outros olhares ao longo do dia, o dela lhe parecia familiar, como se a jovem fosse capaz de vê-lo mesmo que ele fosse completamente invisível. “Nunca, Wallie.” deu um risinho convencido, transformando o sobrenome em um apelido característico de jogadores de hóquei. “É assim que eu consigo a maioria das coisas.” deu uma piscadela, abrindo o sorriso mais um pouco antes de obedecer a sugestão da jovem. Uma vez dentro do carro ele deixou o silêncio reinar, ocupado apenas em estudar o rosto feminino até que a canção preencheu o ambiente. Conseguia imaginar de forma tão clara Eugenie sozinha em seu quarto ouvindo aquela canção e parte de si quis que ela o fizesse pensando nele. Era enlouquecedor. Haviam tantas garotas na escola, tantas coisas acontecendo, mas só conseguia pensar nela. “Também gosto.” disse, por um momento desviando o olhar para o teto “We’ll write a song that turns out the lights, when both boy and girl start suddenly shaking inside…” cantarolou, sentindo o toque da mão pequena e quente na sua, que tremia levemente e voltando a olhá-la.
“Sim.” concordou, a expressão subitamente transformando-se numa careta contrariada. Muitas coisas naquele dia pareciam simplesmente out of character, porém mesmo assim seguiam acontecendo. Ele sentia, por exemplo, a timidez e insegurança latentes dentro de si, mas agia como se elas não existissem. “De outro jeito?” arqueou as sobrancelhas. Já ia perguntar mais sobre isso quando a próxima fala lhe trouxe uma risada gostosa aos lábios. “Obrigado. Vou lembrar de agradecer o senhor Danes pela nossa genética abençoada.” brincou “É o único jeito que sei olhar pra você, Wellie. Talvez eu não seja assim tão gentil com os outros o tempo todo.” admitiu. Não gostava de certos aspectos de si que tinha descoberto naquele dia e temia que ela também não gostaria; coisas que aparentemente vinham com a popularidade. Mas não queria falar sobre, ao menos não agora que estavam tendo um momento tão tranquilo. Ele sorriu convencido com o comentário, aproximando-se um tanto mais, mesmo sabendo que talvez não devesse. “Ciúmes, Wellie? Posso colocar meu capacete de hóquei em você pra te proteger. Ou te dar meu jersey pra você andar por aí com meu nome nas costas…” a segunda ideia lhe trouxe uma estranha sensação de agrado, a imagem mental da jovem, tão rebelde e diferente, cruzando os corredores da escola com seu casaco do time lhe preenchendo a cabeça. Era curioso como seus pensamentos sobre ela estavam confusos: em parte se pareciam com devaneios, como o que estava tendo agora, mas em parte se pareciam com memórias. Se lembrava de tê-la beijado num lugar que não reconhecia e o pensamento o fazia querer faze-lo de novo. Involuntariamente ele umedeceu os lábios, a respiração ficando mais pesada. Ele mesmo tinha traçado um limite para os dois naquela noite, porém agora queria jogar tudo pelos ares. Não se importava que outras pessoas o olhassem, não se importava que namorasse, tudo isso parecia uma realidade distante perto do devaneio de um beijo que nunca tinha acontecido. “Sabe o engraçado? Te olhando agora eu até lembro de já ter te beijado.” sussurrou, fechando os olhos lentamente ao mesmo tempo em que seu rosto se abrigava na curva do pescoço feminino “Lembro do seu cheiro, do seu gosto, de como você correspondeu…” listou, um arrepio lhe percorrendo a nuca. Ele então se afastou por alguns centímetros apenas para olhá-la nos olhos de novo, suas íris viajando das dela para os lábios rosados e voltando quase no mesmo segundo. “Mas nunca aconteceu, aconteceu?” soltou um riso soprado, tão baixo que quase não poderia ser ouvido. “Acho que você me enlouqueceu.” completou com um meio sorriso.
Assim que sentiu o leve tremor da mãos de Virgil, Eugenie apertou um pouco mais de forma suave. Uma forma de dizer que estava tudo bem e ela estava ali para ele, seja o que fosse que estivesse passando no coração e cabeça dele. Sorriu com o rapaz cantarolando a música, a dor de cabeça devido a bebida esquecida por um instante. Era fácil esquecer-se das coisas quando estava com ele. “Sim, de outro jeito.” Poderia dizer mais coisas se não soubesse que ele tinha uma namorada e mais metade da escola. Droga, porque tinha que gostar justo dele? O cara popular e a garota desajustada nunca ficavam juntos! “Você me daria? Duvido que sua namorada iria gostar.” Por um momento sentiu-se mal de estar segurando as mãos de um homem comprometido, de estar criando fantasias com ele, mas não conseguia evitar. Sempre que pensava em soltar, os dedos entrelaçavam-se um pouco mais aos dele. “Ciúmes?” Repetiu a palavra, odiando-a naquele momento porque sim, sabia reconhecer o sentimento amargo que dominava seu coração naquele momento ao pensar em todas as garotas que Virgil poderia ter. Eugenie respirou fundo, os olhos voltando-se rapidamente para fora do carro, o mundo do outro lado da pequena bolha de tensão e cumplicidade de do carro. Estava com ciúmes, mas jamais poderia admitir. “Não”, mentiu ela, sem coragem de olhar para Danes. Esperava que a pouca luz no ambiente fosse capaz de esconder seu rosto.
As palavras dele, unidas a proximidade, fez com que um arrepio corresse todo o corpo da garota. Se sentia quente pelo álcool e pela presença de Virgil, mesmo que a mão fosse gelada. Era um contraste gostoso. Eugenie também tinha essas lembranças, os lábios macios, os olhares, flertes… Era quase tudo o que costumava acontecer com ele, exceto que possuía a vivida lembrança de beijá-lo em algum lugar que não conhecia e a dolorosa vontade de fazer novamente. “Não aconteceu.” Disse de forma baixa, desejando que suas palavras não fossem verdadeiras porque tudo o que mais queria era beijá-lo. As mãos, de forma tímida, afastaram um pouco do cabelo da testa dele, percorrendo os fios com afeto. “Acho que você está mesmo louco.” Ela riu baixo antes de se afastar, ato que exigiu uma força maior do que Genie achava que tinha. Virgil exercia um poder de atração tão grande que a Waller precisava usar de sua concentração para simplesmente não pular em cima dele. Contentava-se com os toques singelos e sorrisos trocados. Não era o suficiente para ela, mas era o que poderia ter dele e estava ciente. Aumentou um pouco a música e tomou a mão dele novamente na sua, prosseguindo com o carinho de outrora. “Você é louco, Virgil Danes. E incrível também.” E eu adoro isso, completou o que não sentia que poderia falar em voz alta, focando em aproveitar cada segundo daquele momento com ele.