Em qualquer outra situação a irritação de Virgil já teria se dispersado. Era naturalmente calmo, ponderado, mesmo quando se irritava sempre conseguia respirar fundo e voltar aos eixos. Mas naquele dia incomum suas emoções estavam bagunçadas e era difícil controlá-las. De início ficou aborrecido com Eugenie, aquele tipo de aborrecimento carregado de preocupação e cuidado. Depois, se irritou com as pessoas ao redor, por puro e simples ciúme que nem sabia se tinha direito de sentir. Agora, era essa dúvida que o deixava tão sério: não saber se tinha permissão para ser tomado por aqueles sentimentos era enlouquecedor e quase tão confuso quanto suas memórias misturadas que lhe diziam que ele tinha uma vida totalmente diferente da que sua personalidade pedia, que tinha outras garotas, outros amigos. No meio de tudo aquilo, a única coisa que fazia sentido era a jovem Waller sorrindo daquele jeito travesso.
“Genie…” começou, suspirando cansado. Ser firme com ela exigia um esforço praticamente descomunal. “Estou.” respondeu, automaticamente inclinando-se um pouco mais para perto, mesmo que não muito “E você está bêbada.” concluiu, não em tom de bronca, apenas constatando o fato. “Não estou bravo com você… Só não quero que faça nada que vá se arrepender.” Sua expressão continuava séria e impassível. “Quero muitas coisas com você, Waller. Mas não aqui e não assim.” continuou, cada palavra lhe doendo feito uma facada. Lógico que queria beijá-la, tocá-la, largar todo resquício de responsabilidade; no entanto, mesmo que estivessem em um sonho e que talvez não existissem consequências depois, seu eu rebelde e popular se preocupava com ela tanto quanto seu eu tímido e quieto. Era questão de honra que Eugenie se lembrasse com clareza de qualquer toque que trocassem. “Bom… Não achei que você fosse do tipo que dançava em cima de mesas, mas não vou reclamar. Foi uma visão e tanto.” limitou-se a dizer, guardando seus elogios menos respeitosos para uma ocasião futura, abrindo um sorriso sugestivo e mordendo o lábio inferior enquanto pensava. “Um dia você vai até me dizer Danes, pode se divertir um pouco menos?” riu, inclinando-se para beijar-lhe a testa, fechando os olhos demoradamente enquanto o fazia. O cheiro de álcool misturado ao aroma do shampoo que ele já conhecia fazia suas lembranças se misturarem. Todos os seus muros e medos estavam caindo por terra diante daquela garota, ali e em qualquer dimensão. Seu coração estava se tornando dela, para que ela o preenchesse, quebrasse ou usasse como pingente. O que quer que quisesse.
“Eu não estou bêbada!”, tentou argumentar, no entanto a forma como o mundo parecia sair lentamente dos eixos dizia o contrário. Genie fechou os olhos, esperando que a sensação passasse. Isso fez apenas com que focasse em Virgil, na presença do rapaz que sabia estar ao lado, na respiração dele que era capaz de ouvir e no cheiro que exalava. Ela adorava tudo, por isso sorriu devido as palavras tenras dele. “Você não se cansa de ser adorável?”, não era uma crítica, pelo contrário, Genie amava cada vez que ele dizia alguma coisa fofa. Parecia diretamente saído de um filme de romance teen, os quais ela secretamente assistia. Virgil parecia seu próprio clichê adolescente. Abriu os olhos novamente, sorrindo para ele. “Entre, senta aqui do meu lado.” pediu ela, observando o rapaz passar em frente ao carro e tomar o lugar do motorista. Virou o corpo em direção a ele, a cabeça encostada no banco ao observá-lo. Mesmo na pouca luz, ainda era possível perceber os traços e Eugenie quase suspirou. Feliz pelo momento a sós, ligou o rádio e por sorte conseguiu reconhecer os acordes de uma de suas músicas preferidas. “Eu adoro essa música.” Disse com um pequeno sorriso, uma das mãos encontrando a de Virgil, entrelaçando seus dedos aos dele. Não sabia o que estava vivendo, se era um sonho ou não, mas queria aquilo, sentir o toque do rapaz, a pele um pouco mais fria parecendo arder contra a sua própria, tão quente, cheia de vida e intensidade.
“O dia de hoje tem sido estranho, não?”, perguntou Eugenie, apertando a mão de Virgil de forma suave apenas para garantir que não cairia. O mundo ainda girava de uma forma estranha para a garota, possivelmente consequência da bebida. “Lembro de ter vivido uma vida diferente, mas ao mesmo tempo parece tudo confuso. Eu me lembro de você assim, mas de outro jeito também.” Eugenie fez utilizou um de seus dedos para iniciar um carinho na mão do rapaz. “O fato de você ser lindo não muda. Seus olhos também, sempre gentis demais…”, por um momento se questionou como soava, se parecia estar afim demais dele e se poderia demonstrar isso porque em suas recordações confusas, Virgil era muito popular, sempre rodeado de garotas. Uma sensação amarga tomou conta de seu ser e de repente sentiu-se enjoada. “Cadê o seu fã clube? Daqui a pouco elas atacam o carro, devo me proteger?” provocou, um sorriso travesso atravessando seu rosto. Tentava esconder que aquilo a incomodava um pouco, que não deveria sentir o que estava sentindo ao pensar em como as meninas encaravam Virgil.