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@lordemarcelo
Em nome do nada
Ei, você! Que pensa que tá indo tudo bem na sua vida, Que comprou um celular último modelo e pensa que realizou o último sonho, Que acha que só a sua religião levará para o céu, Que arranja algumas mulheres por causa de uma moto ou carro e se acha o gostoso, Que tenta casar com um homem rico pra resolver o futuro, Que trepa nas noites de quinta depois da novela das oito, sem nenhuma emoção, Que não se emociona com um filme ou uma música, Que nunca leu um livro sequer, Que não sabe nada de política e economia, Que vai trabalhar todos os dias tomando o mesmo caminho, Que tem uma profissão que odeia, só pelo dinheiro, Que não confia em ninguém nem é confiável, Que acha que ser nacionalista é ver o jogo da seleção de futebol, Que nunca reivindica seus direitos, Que tem raiva de quem se destaca, Que acha que o dinheiro é solução pra tudo e compra a todos, Que se conforma com a mediocridade, Que já não sonha na cama antes de dormir, Que não é o que pensa e sente por vergonha ou medo, Que não vive a própria vida pensando na dos outros, Que não conhece nada além de seu próprio mundinho, Que vive criticando por inveja o que adoraria fazer, Que não tem nem consciência de que está vivo, Ei, você! Ser patético e desprezível, Acorde! Sinta de verdade, Ame de verdade, Trepe de verdade, Saiba de verdade, Seja de verdade, Sinta de verdade!
Terceiro Olho do Poeta
A noite diz: Tudo que vocês quiserem O vermelho já há muito corre nas veias Não o sangue, mas o que inspira. Um deles diz: Vocês sabem o que nos diferencia dos animais? A História. Não entendemos nada, mas diz muito. Somos primitivos, instintivos, Somos puro ID e gritamos com The Doors: "Come on baby, light my fire try to set the night on fire (Venha, baby, acenda meu fogo tente por a noite em chamas)" Algo quer sair de dentro de nós, talvez os demônios de Platão? A mesa da comunhão vira instrumento musical. Falamos muito e fingimos entender. E nos desentendemos com nós mesmos, com o mundo, com os outros. Queremos desformar a forma. E choramos com a dialética da construção e da desconstrução. E somos a um só tempo únicos e perdidos em doces ilusões. Formulamos teorias que irão mudar o mundo. E pensamos em nós mesmos. Bêbados, cheirando à fumaça de nossos cigarros misturada aos sons do Pink Floyd: "At a higher altitude with flag unfurled We reached the dizzy heights of that dreamed of world (Em alta altitude com a bandeira desfraldada Alcançamos as alturas inebriantes daquele mundo de sonhos)" Verdadeira face para a família? Um deles pergunta. E quem somos nós? Seguimos perguntando. Muitos porta-retratos sem as fotos de sorrisos congelados. E seguimos entendendo o mundo, drogados e lúcidos. Vemos os átomos e os atos hipócritas. E achamos e pensamos tantas elucubrações alcoólicas. Desmentimos tudo em seguida. Mente em movimento, Língua solta, Palavras desconexas que explicam tudo. Nos sentimos casados com o mundo, Transamos com ele em mais de cinco sentidos conhecidos. O terceiro olho está aberto e vemos coisas que ninguém mais vê. E vemos fantasmas. Um poeta como nós. Há tempos desencarnado. Henry David Thoreau. E nos diz: "Hey, guys!, vejo que vocês estão vivendo minhas palavras: 'To put to rout all that was not life and not, when I had come to die, discover that I had not lived (Fazer apodrecer tudo que não era vida E não, quando eu morrer, descobrir que não vivi)'" Gritamos, dançamos, vivemos, Fomos ao bosque. E nos sentimos vivos.
Polímnia
Para ele tudo parecia novo. Não reconhecia seu rosto no espelho, seus amigos, sua família. Os dias se passavam num ritmo descompassado. Um sonho desconexo e sem linearidade, mas estranhamente real.
Em um de seus instantes de encarnação do que fora se viu lutando e dizendo palavras sem sentido para sua mãe e seus irmãos que tentavam dominá-lo. Lembrou-se apenas de sua profissão. Escritor. Mas isso não trazia luz à escuridão de seu hipocampo. Viu-se impelido a agarrar o pescoço de sua mãe. Noutro fragmento das imagens turvas que lhe chegavam à visão e à sua mente cambiante, era exatamente o que fazia. Se sentia beijado por Polímnia, musa das palavras. Os sons da luta pareciam distantes. Os irmãos batiam nele como se em lentos movimentos.
A voz do psiquiatra ainda era distante e sua imagem turva, mas entendia perfeitamente o que ele dizia. De um ímpeto levantou da cama. O psiquiatra segurava um calhamaço. Era o trabalho de anos de seu paciente. Assassinatos em troca de inspiração. O médico o ajudava nos crimes.
Sua mãe estava morta. Suas lembranças o confundiam. Seu corpo estava mutilado - o preço da inspiração quando não conseguia matar ninguém. Fugiu pra viver novas vidas.
Casa Comum
Polímnia é teu nome Musa da eloquência Me arrancastes as palavras Conexas, diversas Perdidas na descrença do livro dos destinos Criadas na inconsciente esperança Que lembra a anterioridade E anseia o porvir Profeta comum Parábolas diversas Reencontro atemporal Espaços quânticos Realidades furtivas Sentidos aguçados dos amantes iluminados Metafísica milenar Poções alquímicas Harmonia ancestral Os personagens da fotografia descongelam E caminham. E rumam para a via-láctea A estrela chama Voltarão para casa
Eros ring my bell (ou do devir)
Idéia, sede, visão Fonte, água, desejo, mergulho Pressão, voracidade, antropofagia, volúpia, luxúria Sagrado e profano Caos/cosmos Espasmo, relaxamento Saciados... Ávidos por mais.
Correspondência sobre nada
Ainda criança foi vítima de um acidente de carro que lhe deixou paraplégica. Pai dirigindo bêbado, festa de fim de ano, noite de alegrias. Ele e a mulher mortos. Filha gravemente ferida. Nada de novo, histórias que se repetem. Foi morar com os avós. Classe média alta. Não havia nada que o dinheiro não pudesse lhe comprar. Foi-lhe dado um mundo particular, onde todos os habitantes imaginários andavam de cadeira de rodas.
Não deixaram – e ela mesma não se sentia capaz – de enfrentar o mundo dito real. Nada de escolas, nada de faculdade, nada de carreira profissional, e nada, do melhor que permeia tudo isso, namorados, festas, porres, sexo, amizades falsas e verdadeiras, amantes. Tudo isso lhe parecia cenas de filmes que via e de livros que lia.
Sua maior diversão, na qual se sentia parte do sistema, era fazer cursos por correspondência. Na puberdade adorava ler os quadrinhos de anúncio do Instituto Universal Brasileiro nas revistas Disney que lia. Aquelas mensagens motivacionais em forma de arte seqüencial eram seu livro sagrado. Trazia-lhe um sentido – banal como todos – de viver.
Nunca sonhou seguir nenhuma profissão, mas se capacitou em muitas delas através dos cursos. Os responsáveis pelas correspondências do curso nunca perceberam um nome insistente nos registros de matrícula.
Interessante
olho pra você constantemente na inútil tentativa de decifrar a mágica coreografada em minha memória no primeiro momento que te percebi soube como sei ainda mais agora que faria parte de minha vida contribuiria com o que sou porque em si você contém quase transbordante o ato interessante da atriz que há um só tempo deseja e é vários papéis, aventuras diversas inconstantes personas eis-me como tua platéia na primeira fila mentes para mim? verdades absolutas? representações diversas? sou roteirista, sou diretor criador de mundos moldador de talentos ouça minha voz você tem o dom quer ser estrela? fazer de sua existência espetáculo? siga-me
Você
Hoje vi mais uma vez O vídeo que fiz de você Primeiríssimo plano de sua beleza Do seu sorriso que extrai o melhor de mim. Vejo o que guardarei de você Mesmo que o tempo faça novos desenhos Que meus olhos me enganem em novas percepções Que minha memória mude as cores e os gestos. Lembrarei com a alma A felicidade de ser amado por você Do quanto seu rosto continha luz ao estar comigo. Mesmo que eu tema o fim de minha existência Em você encontrei meu significado Ficarei em alguém Que dirá para muitos sobre mim E já não serei tão rapidamente esquecido. E mesmo quando pararem de falar A energia imortal do nosso amor Contaminará novos grandes encontros Pelas múltiplas eras que virão.
Apologia do Ócio
Entreguemo-nos relaxadamente à preguiça! Ao prazer de, vazios, absorvermos as cores alienantes da tela do vídeo. Um sem fim de páginas de tantos volumes para quê, se podemos gozar da sensualidade da improdutividade? Que se dane o mundo! Deixem-nos estéreis mesmo, em um canto qualquer de um quarto úmido, contentes com o pouco que temos e com o nada que construímos. Sejamos mudos! Só os loucos gritam, argumentam e reagem. Que se fabriquem sempre expressões de contentamento para ficarmos eternamente absortos e absorvidos com a usurpação do nosso direito de sermos humanos e humanizados. Vamos praticar desatinos com os que confeccionam sonhos e se cansam para democratizá-lo; são somente pândegos, não são sérios. Que mal há em não querer mudar o mundo? It’s a waste of time! Apaguemos as luzes e deitemo-nos impotentes diante da nudez.
Sons e Espelhos
You reached for the secret too soon Threatened by shadows at night (Shine On You Crazy Diamond-Pink Floyd)
Era uma pacata cidade do interior. Vidas simples que sublimavam temores pelas estranhas e misteriosas mortes que por lá haviam. Quem por ali passava não podia imaginar as orgias, rituais, profanações e pecados ocultos pela noite. Era melhor não saber de nada. A polícia se mantinha fora. Os casos eram resolvidos da maneira mais simplista. Talvez fossem somente desajustados sociais que queriam chamar atenção pra si. K. sabia que não. A maldição das estranhas mortes era uma realidade. Os caixões fechados nos velórios ocultavam as faces disformes das... ele relutava em chamar de vítimas. Eles quiseram isso, eles clamaram pelo que aconteceu. Adoradores da morte.
Não havia muito a se fazer naquela cidade. Os talentos eram consumidos pelo álcool e por outras drogas. Esquecidos lá, na periferia do mundo real. K. amaldiçoava todos os dias aquele lugar. Queria ser músico, era bom, sabia, mas nascera no sítio errado. Todas as noites tocava seu saxofone no porão que havia construído para esse fim. A população se acostumara, não sem irritação, com aquele som distante e surreal como num fim de sonho. A casa de K. distava da cidade, mas as notas musicais voavam na noite e caíam por sobre os telhados, entravam pelas janelas e já quase imperceptíveis morriam nos ouvidos adormecidos da maior parte da população. Eram as notas de sua maldição sobre a cidade que o impedia do sucesso. E K. continuava tocando, pedindo a qualquer entidade oculta que se manifestasse e acabasse com seu sofrimento.
E ela surgiu. Na madrugada quente da periferia do mundo. K. tinha o dom. E foi escolhido. Hoje, quando celebra o pão e o vinho e ouve as confissões dos culpados, sabe que seu chamado não foi pra isso, mas para o que realizou no passado, na longínqua cidade. Não foi difícil achar seguidores. E no meio dos seis ceifadores, de campos e de vidas, L., sua companheira até o dia em que [esta] também apeteceu.
A música era seu guia. Através dela eles sabiam aonde ir. E toda noite que alguém desejava a morte ao som de uma música profana, eles concediam. Os adultos não comentavam na frente das crianças nem quando a noite se aproximava, dos estranhos suicídios, nos rostos irreconhecíveis, nos símbolos marcados nos corpos. E K. continuava a tocar à noite, a gravar nos inconscientes que sonhavam fornicando com a morte o ritual hipnótico para conhecê-la. E como numa onírica luxúria ouviam as músicas não consagradas e as adoravam e cobiçavam a morte e ansiavam por seu encontro.
Seis ceifadores, sessenta e seis ceifas. K. não dorme mais. Nada lhe adiantou o caminho da fé. A culpa não foi embora. E mesmo depois de duas décadas, ao fechar os olhos ainda vê L. sem a pele da face, pendurada numa corda. Ela ansiou pela morte, ele desesperou-se e seus seguidores o traíram. A Morte o traiu. Não, L., não sua amada. Ela o fez esquecer o seu desprezo e maldição à cidade. Ele romperia o trato que fez na madrugada quente. Depois da missa ele subiu à torre da igreja e ouviu as musicas não consagradas. E desejou a morte e se imaginou fazendo amor com ela. Ela estava lá. E ele pulou ao seu encontro.
Sobrepostos
Sua espontaneidade captura meu sorriso E eu a invado de sonhos de menina Desconstruímos o que era posto Agora sobrepostos autenticamente Significando cada momento Paroxismo predestinado ao fim do dia Ou a noite dos espíritos livres
Diferenças subvertidas por desejos Verdades reveladas por olhares Confeccionamos planos loucos Sem nunca desenhar a normalidade Nossa condição para a existência
Narrativa natural e exclusiva Impensada pelos comuns Cenários e roteiros inusitados A duvidar que não há câmeras Ou personagens criados em alucinações
Pode-se falar de sentimentos? De pensamentos? Ou até de estímulo e resposta? Discutir Kant Crítica da Razão Pura Perguntas fundamentais A mim que sou tão racional E até se converter Ao material mágico da realidade A que for plausível à percepção A que for criatividade
O que for nosso O que for Porque já é