Sobre Backrooms:
As múltiplas interpretações desse universo me deixam extasiada. Para mim, backrooms, e falando especificamente desse filme de 2026, é uma metáfora do labirinto psíquico. Essa percepção se consolida em mim a partir do momento da escolha do diretor: um homem que foi expulso de casa pela esposa, enfrentando problemas existenciais e sua terapeuta.
No filme, a teoria dos "caminhos que trilhamos na infância nos persegue ainda adultos" presos num terreno seguro que criamos e vivemos em looping, na voz da terapeuta isso é quase o ponto central da ideia de backrooms como labirintos psicológicos.
Quando Clark descobre a falha física entre "realidades" ele consegue escapar, a meu ver, porque na primeira vez não foi tão longe naquele labirinto, ele não se atreveu a ir além e conseguiu voltar. Então, quando leva seus assistente da segunda vez e se aprofundam nos mistérios daquela realidade, se perdem para sempre.
Essa metáfora para mim funciona muito bem quando penso no próprio funcionamento da nossa mente, quanto mais revisitamos memórias e traumas, mais presos ficamos nisso, mais difícil é voltar ao lugar seguro que criamos para seguir na vida comum.
Desbloquear memórias pode ser um labirinto que leva a outro e outro até não nos reconhecermos mais. E aqui entra aquelas três figuras que o Clark apresenta para Mary em um espaço doméstico, uma cozinha, numa mesa de jantar - e aqui a referência ao chá do chapeleiro maluco é muito clara ou apenas uma viagem da minha cabeça? - são provas da confusão identitária quando começamos a vasculhar mais fundo nossas próprias memórias.
Outro detalhe que chama atenção são os espaços físicos por onde Clark, e depois Mary, entram e desbravam. Um amontoado de lugares vazios, com objetos aleatórios, que me fazem pensar num acúmulo de memórias de todas as pessoas que estiveram naquele nível da realidade.
O ponto alto para mim é quando Mary está fugindo da versão "descontrolada" do capitão Clark, vou falar dele mais adiante, e ela se vê perdida no bairro da sua infância onde também vivenciou e bloqueou traumas. Não são espaços aleatórios, para mim, cada porta que abrem é como desbloquear lembranças às vezes da própria pessoa, às vezes de quem passou por ali antes. Sobre o Capitão Clark, o que mais me impressiona é a expressão. Essa criatura não tem uma fisionomia cruel, monstruosa ou assassina, ele simplesmente está sofrendo. Cada vez que toca em uma vítima sua expressão se torna mais dolorosa e seus gemidos mais angustiantes, como se fosse a própria materialização do sofrimento de Clark. E a simbologia da Mary golpeando o capitão com o cimento onde guardou a pata grava de seu cachorro é algo que merece destaque. Uma lembrança golpeando a outra.
E o que dizer do final? A minha leitura é a de que Mary se tornou como as criaturas apresentadas na cozinha, vítima da própria mente ou, também, uma cobaia da equipe que está tentando desvendar aquele espaço. Estar preso dentro da própria memória pode ser perigoso, talvez, essa seja a mensagem mais profunda que Backrooms me deixou. Mas tenho outras formas de enxergar esse universo também: a realidade fragmentada, backrooms seriam como níveis de realidade que obedecem leis físicas diferentes, uma perspectiva que aproxima mais de uma teoria de ficção científica. E se nossa realidade fosse apenas uma cópia da cópia da cópia de múltiplas possibilidades de existência? É o que chamam de espaços liminares, é raro, mas pode acontecer, de alguém encontrar alguma falha na organização da nossa realidade e acessar níveis diferentes da constituição de nosso mundo. É mais ou menos o que vimos em Matrix. E se estivermos apenas vivendo um nível de realidade sem acesso as outras cópias?
(não sei apenas devaneios, acabei de assistir o filme 17:00 de 02 de julho de 2026) --


















