É como uma porta lixada, pintada e enfeitada que guarda atrás de si uma cidade inteira.
Cada pequena parte dessa cidade poderia ser representada por cada uma das madeiras, como uma cidade metropolitana que preservou os aspectos e espectros da sua cultura.
Não há um universo onde essa porta está sempre fechada, ela existe por curtos períodos de tempo aberta para receber a cultura. Logo em seguida se fecha por milhares e milhares de anos.
Como quem cozinha uma sopa milenar com ingredientes milenares
Ao fazer uma sopa, você não pode descascar as raízes como descasca para fazer outros pratos, é necessário tirar a camada mais densa de sabor dos ingredientes, como a capa dura que recobre a cenoura ou as sementes e líquidos do tomate. Se não, a sopa toma a forma e gosto desses vegetais deixando então de ser uma sopa e passando a ser apenas um caldo de legumes cozidos
Nesses períodos que essa cidade chamada caos se fecha, é como se colocasse tudo dentro de um liquidificador e batesse até todos os menores pedaços sumirem, tudo o que a cidade recebeu enquanto a porta ainda estava aberta agora transformará a cidade em algo novo, algo inovador e inesperado, como quando bate frutas com leite por tempo demais e a textura fica semelhante a de um iogurte, o sabor é parecido, a textura é parecida, a cor é parecida, mas é algo novo.
A cidade é uma boa negociadora, e sempre devolve tudo na mesma moeda e em mesmo valor, por isso está sempre evoluindo, encontra o tempo todo maneiras de deixar a porta por mais tempo sem estar trancada e, enquanto isso, também reforça a fechadura se precisar trancá-la.
Não, não se assuste, isso é normal, é como escolher se proteger (se necessário).
A porta, muitas vezes, foi destruída, levada à ruína, a cidade então foi atacada e uma grande chacina aconteceu, os poucos que sobraram estavam doentes mas com saúde o suficiente para criar uma próxima geração que, desta vez, lembra de sua história.
Mas nesse ponto você já deve estar se perguntando: como?
E aqui chegamos a estrutura principal desta história.
Como a cidade consegue se reerguer infinitamente?
A resposta mais curta é: não sabemos.
Parece que, de alguma forma, a cultura vinda desde o início da cidade Caos criou pequenas sementinhas de foco, audácia, integridade e natureza que hoje estão plantados pela cidade toda e compõem todo o ambiente.
Nessa composição, os diferentes bairros e comunidades cometem por conta própria suas chac(fax)inas, criando estruturas muito básicas mas necessárias de manutenção da cultura individual.
É como um organismo vivo que não repara as suas células, apenas às elimina para criar novas cada vez mais diluídas e desconstruídas garantindo assim a instabilidade e dominância das culturas.
Não sinta ódio de mim, eu não estava presente quando as regras foram escritas, muito menos quando o primeiro bairro terminou de ser fundado, quando cheguei aqui já tinha mãos, brigas, medo, horror, afeto, amor, carinho, esperança e aut(ru)ismo. Tudo o que pude fazer com isso tudo foi embarcar na complexidade do que é se manter vivo no meio disso tudo, sem receios ou apegos, vivendo O QUE DÁ para viver e estando sempre no limite da sanidade para minimamente estar presente no mundo.
A cidade agora, está com a porta encostada mas não trancada pois não há nada de complexo acontecendo dentro dela e aparentemente nada mais à ameaça.
Sejam bem vindos a nova era do Caos.
Com amor, caos e uma pitada cultura, Lumière.