@mumulupi
Não tinha muitos amigos na cidade.
A bem da verdade, tinha poucos amigos em geral. Vivia uma vida quieta, solitária sob alguns olhares, mas aceitável no próprio julgamento.
Caminhava em passos lentos, de pouco se reestabelecendo naquela vida que agora lhe parecia estranha demais, pacata demais. E não sabia quando era que aquilo havia se tornado algo ruim. Lhe causava sempre um misto de sensações dentro de si, sempre lhe perturbando o estômago quando agia daquela maneira tão... mundana. Não parecia pertencer, nem mesmo merecer.
Sahin levou a taça de água aos lábios. Lhe haviam oferecido champanhe não menos de cinco vezes, e as havia recusado todas, tentando ignorar a crescente vontade de apenas um gole para abrandar o tédio, a angústia que lhe repuxava os interiores, que vinha sem aviso, sem motivo. Resistiu, contudo, se resignando ao seu copo desinteressante, enquanto permanecia sozinho na mesa, seu chefe e único conhecido perdido em conversa numa roda de homens engravatados com seus sorrisos de porcelana.
O chefe havia sido atencioso o suficiente para lhe convidar para o evento. Estava abarrotado de pessoas ricas e, talvez por isso, Sahin se sentisse tão deslocado e incomodado; aquele cenário o lembrava de casa, uma memória um tanto amarga. Mas a engolia. Não queria fazer desfeita do convite bem intencionado que havia recebido, mas também não se sentia animado o suficiente para tentar se comunicar com quem quer que fosse; aquela era a intenção. Que fosse ali para ver alguns rostos novos, para conversar um pouco e respirar um pouco.
Era um tanto complicado, contudo.
Ele tomou outro gole da taça e os lábios se retesaram numa linha dura. Vendo-a pela metade, rodopiou o conteúdo lá dentro, vendo a água balançar em espiral; se ajeitou na cadeira e pousou a taça sobre a mesa, passando as mãos pelas coxas num gesto inquieto. Levantou os olhos outra vez para as pessoas e, num outro varrer do salão, avistou um rosto familiar a alguns passos da sua mesa, e por um segundo se questionou... Mas não havia como estar enganado. Não quando se tratava da primeira garota por quem havia se apaixonado; e reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.
Fitou Meryem, de repente alheio do resto, sem se preocupar com o fato de que a encarava sem discrição, o coração indo num ritmo distinto diante da visão dela, o adolescente em si renascido. E não sabia se o fazia numa pura e simples admiração, ou se o fazia torcendo para que olhasse para si, que o visse... Ainda, receava. Pois não sabia se ela o reconheceria, se sequer lembraria dele. Por que deveria?
Precisava apenas desviar os olhos, virar para o outro lado...
Mas parecia incapaz de não olhá-la.












