Havia sido um longo dia com emoções demais para um garoto como ele. Sim, garoto, porque no fim daquele dia, ele se sentia não mais como um homem de 21 anos que crescera rápido demais, que havia saído de casa cedo, abdicado de uma fortuna e de uma vida bastante confortável, aberto mão de tantas coisas para salvar o pouco de alma que ainda tinha. Ao invés disso, se sentia como um garoto, um garoto que havia perdido gente demais, que havia abandonado seus dois irmãos porque não tivera capacidade emocional de lidar com um pai perturbado, que tomava decisões erradas e impulsivas. A combinação de Natal, Sadie, Rhysand e a lembrança de Lucy não ajudou muito o coração fraco de Nathan. E antes do final do dia, já estava ele no Leaky Cauldron, enchendo a cara. Não queria ir para casa, lembraria de Marissa e pior que isso, lembraria do que havia feito no dia anterior. Não que ele se arrependesse das (várias) coisas que fizera com Gwenog Jones, mesmo assim, ele ainda sim era noivo. E mesmo que Marissa não fosse sua pessoa favorita no mundo, e ele definitivamente não fosse a pessoa favorita dela, sua mãe havia lhe ensinado lealdade antes de deixar aquele mundo.
Mas afinal, era Natal e até os garçons e garçonetes do Leaky Cauldron queriam comemorar. Nathan deixou uma gorjeta razoável e resignado, vagou tropeçado para casa. Não havia como descordar que ele e Marissa eram um casal miserável. Ela passaria seu Natal enfurnada no hospital, e ele passaria o seu bebendo mais um pouco no sofá de seu apartamento. Com dificuldade e errando várias vezes o buraco da fechadura, finalmente conseguiu destrancar a porta. Nem queria olhar a bagunça que estava aquele lugar. Desde que Marissa viera morar com ele, ele não conseguia andar um corredor sem tropeçar numa calcinha. Mas quando abriu a porta, deparou-se com um cenário bem diferente.
Já fazia quase seis anos que ele não comemorava o Natal. Eles tentaram depois da morte de Lucy, mas simplesmente não era a mesma coisa. Então normalmente a família se fechava, cada um em seu quarto e ele e Rhys faziam algo juntos, como a vez em que Nathan o levara para beber escondido com o time, pouco antes de ir embora. Portanto, Nathan mal se lembrava do que era uma árvore decorada, ou luzes de Natal. Mas lá estavam elas piscando, por todo o apartamento, e iluminando a mesa repleta de um jantar que parecia delicioso (principalmente para alguém que havia bebido sem comer o dia todo). Nathan ficara tão atordoado pela surpresa que só notara Marissa para ali no meio depois de algum tempo – O que é tudo isso? – Perguntou, com o tom de voz completamente confuso e com uma ponta de animação que tentava disfarçar – Eu achei que você ia estar de plantão hoje – Completou, voltando o olhar para ela.
Durante todo aquele dia enquanto ela arrumava as coisas, ou as preparava, Marissa imaginava qual seria a reação do Avery. Ela sabia que era uma das últimas pessoas que ele desejaria passar o Natal, mas ela sabia que eles não se livrariam tão cedo um do outro, a não ser que algo acontecesse com ela antes. A mulher não sabia quando seria seu último Natal, e por ter isso na cabeça, Marissa tendo toda aquela culpa por suas ações nos dias anteriores relacionados a sua língua afiada e péssimo senso, decidira transformar aquela noite em no mínimo agradável para eles. A reação que teve ao ver Nathan chegar, não era nada que ela tivesse esperado. Talvez tudo aquilo tivesse sido uma péssima ideia, e ela devesse simplesmente ter ignorado seus instintos, e os dois terem ido dormir. Ao olhar para tudo que havia feito decidiu seguir adiante mesmo com a expressão surpresa do noivo. Marissa respirou fundo, e então cruzou os braços em frente ao noivo. “Olha. Sei que sou a última pessoa que você quer ver. Realmente sinto muito pelo que eu disse, e por ter falado da sua mãe. Foi na hora da raiva, e eu me arrependo, pois eu também perdi a minha mãe. Não gostaria se a situação fosse o contrária.” Ela havia ensaiado tanto aquelas falas. Ela saberia falar até mesmo dormindo.
Conforme falava tentou soltar um pouco o corpo, então passava as mãos pelos cabelos curtos, e tentava respirar fundo. Procurando alguma maneira de transformar todo aquele relacionamento em algo não tão ruim. “Sei que isso não vai melhorar nossa relação, mas eu nunca tive um bom Natal depois da morte da minha mãe. Eu costumava ficar com a Feyre, mas depois de tudo que ela passou, eu não posso fazer isso com ela. Eu quase não consigo encará-la direito, minha mãe gostava tanto do Natal. Ela enchia a casa de coisas, e comida. Meu pai adorava e ficava rodando conosco por toda a sala.” Por poucos segundos, a mulher esquecera onde e com quem estava. Simplesmente rodopiou a sala, e deixou-se ser uma criança novamente. “Nunca sei como você passou seu Natal. Estamos morando juntos, eu pensei, eu não sei no que eu pensei. Só achei que poderíamos tentar nos suportar essa noite, e como sinal de trégua eu limpei, cozinhei e fiz tudo isso. Porém, se você quiser sair, ou ir dormir eu vou entender também. Eu só estou tentando. Não que isso vá mudar alguma coisa.” Foi como se ela voltasse para Hogwarts, uma jovem garota ansiosa. Era estranho, pois ela sempre foi muito confiante, mas poderia sentir suas pernas bambas naquele momento.
Foram poucas às vezes que ela permitiu olhar para seu noivo. Lembrava de suas amigas sempre falando o quanto ele era bonito, e que ela deveria aproveitar mais. Ela evitava olhá-lo por conta disso, mas naquele dia ela se permitiu. Suspirou. Não sabendo qual limites possuíam e onde ela atravessaria, de todo modo, ela focou para seus pés. “Quero dizer...eu tentei cozinhar.” E deu uma pequena risada para tentar melhorar o clima que poderia se instaurar ali.