as my lord commands | Marissa&Liam
m-swan:
Trabalhando em um hospital, e ainda mais servindo pessoas como Liam, Marissa já havia visto as maiores catástrofes feitas em nome de um bem maior. De ambos os lados tudo que a garota conseguia ver era destruição. Ela possuía uma repulsa maior por aqueles que desejavam a supremacia do mundo bruxo, afinal, seu pai era um trouxa, e sua mãe havia sido morta para isso, mas ela não poderia sequer pensar nisso. Se eles descobrissem isso, se eles soubessem o quanto ela estava enojada por todas as coisas que fazia, e o quanto não ligava em nada para aquela causa. Eles a mataria mais rápido que sua doença, e provavelmente ninguém se importaria. Seria fácil apaga-la da mente de sua prima assim como boa parte da vida da mulher. Seus amigos superariam, e seu noivo provavelmente daria uma festa. Porém, quando via casos como o do Knight onde as pessoas não se importavam se eram queimadas, torturadas, ou tivessem todos seus ossos quebrados ela sabia que havia algo muito errado. Para alguém não se importar com tamanha dor, elas já deveriam ter perdido a noção a muito tempo atrás. Aquilo fazia Marissa ficar em alerta. Até onde iriam? Se aguentavam tudo aquilo a morte não passaria de um mero hobby.
Não teve receio nenhum em ter pulso forte com o Knight, afinal, aquele era seu trabalho e se não o fizesse direito teria que responder não somente a esposa do homem, mas aos seus superiores, e a seu avô e toda aquela gente. Era mais fácil ela fazer tudo aquilo. Fizera como fora solicitado pelo homem, e escrevera um bilhete rápido a mulher dele. Conforme as poções foram fazendo efeito, Marissa afastou-se para pegar a papelada. Se fossem pacientes comuns ela daria tempo para recuperação, mas pessoas como ele se sujavam, e necessitavam ser limpos o mais rápido possível para ir embora na primeira oportunidade. Sempre sobrava para ela limpar a roupa suja e inventar coisas que poderiam complica-la depois. Respirou fundo, e tentou trabalhar em sua pior feição. “Eu farei perguntas, se não tiver respostas, fale mentiras, eu não me importo, mas soe verdadeiro. Nome Completo. Idade. Profissão lícita. Grau de dor. Residência. Como se machucou. Alguma doença familiar? Teve contato com Unicórnios na última semana ou algum animal exótico? A pena é mágica tudo que você falar ela vai registar, esteja ciente disso.” Depois ela ainda teria que protocolar tudo aquilo.
Deixou que o homem respondesse enquanto olhava os machucados e preparava ainda mais algumas ervas para colocar em cima dos machucados enquanto faria os curativos. “Vai querer algo para aliviar a dor? Posso preparar alguma poção, mas seja sincero comigo, pois se não for tomar vão ser ingredientes raros desperdiçados.” Ela realmente já estava acostumada a lidar com pessoas como o Knight. Então nem mesmo se importou em parecer mais amigável. Não era como se ela fosse vê-lo novamente. Por mais agradável que ele parecesse levando em conta todos aqueles machucados.
A dor era lancinante, mas nada que um Cruciatus também não poderia causar. Já recebera três vezes a maldição ao longo daqueles anos, de bruxos e situações diferentes, então não via nada de novo na dor. Apenas a suportava e, poucas vezes, mas certamente não aquela, sentia prazer. Daquele modo, fechou os punhos e esperou que aquilo passasse enquanto encarava um ponto branco do teto. Contava os segundos em sua cabeça e não ousava desviar o olhar para a healer novamente, tinha as cortinas fechadas para a privacidade daquela operação, então a única coisa que podia entrar em seu campo de visão era Marissa. Tomara consciência sobre aquele tipo de pessoa, que realmente não estava engajada em nenhuma das causas e só queria ver-se livre. Mas a liberdade era pesada em uma balança injusta naqueles tempos. Quando aos dezoito, depois de Hogwarts, morando em um apartamento e trabalhando na Borgin & Burkes, houve um pequeno momento em que Knight estava de fato livre. Livre para caminhar no Beco, tomar sorvete nos Fortescue e ler livros variados sobre feitiços para somente passar o tempo. Aquele foi um bom tempo, mesmo que não admitisse em voz alta. Quando não tinha obrigações com ninguém, virando a cara para seu próprio sangue e agindo exatamente como seu pai. A diferença é que não se prendera à nenhuma trouxa e lidando com a ideia de que, uma hora, o recrutariam.
A liberdade acabaria, acabou para ele e, de alguma forma, parecia ter acabado para Marissa também a julgar pelo modo que o tratava. As perguntas foram feitas e Liam aguardou alguns minutos, pensando nas respostas, para enfim formulá-las em voz alta. “Liam Knight, vinte e dois anos, sou funcionário do departamento de acidentes e catástrofes mágicas do ministério. Um Obliviador.” Optou por não mentir, era certo que sua profissão também era um pouco arriscada, então alguém como ele não podia levantar suspeitas sem nenhuma passagem pelo St. Mungus em anos. Até porque, mentiu nas outras três vezes. “De um à dez, meu grau de dor é... quatro. Estava sobrevoando montanhas rochosas pela costa inglesa afim de ir à Gales por uma amiga quando fui surpreendido em voo por um animal mágico, não tenho certeza de qual. Parecia um aquático com asas. Enfim, cai da vassoura. Nenhuma doença familiar relatada. Nenhum contato com unicórnio e, além desse animal exótico, nenhum outro contato.” Terminou a resposta sem hesitação, como se apresentasse mentiras novamente no gabinete do diretor quando estudava em Hogwarts.
Deixou com que a mulher voltasse a mexer em seus machucados expostos com ervas enquanto seu corpo parecia tremer por aquele contato angustiante. “Não, eu não vou querer nada. Pode deixar.” Preferia ter que lidar com a dor sozinho, sem ajuda de medicamentos. Já não bastava os outros que tomava para realizar funções básicas de seu dia. Se pudesse evitar estar ainda mais dopado, evitava. “Obrigada, Marissa. Acho que você pode me deixar aqui” voltou as íris azuis para a mulher parada a sua frente firmemente depois de longos minutos encarando somente o teto para manter a concentração de sua dor.












