Autores hypados chamam a atenção por que? Porque temos a sensação que não vamos estar perdendo tempo ao assistir as suas obras né?
O que é um engano. É algum viés da psicologia que eu não lembro (veja Jonah Berger). Assisti ao filme do diretor da excelente série "Homecoming", com a Winonna Ryder, e é ruim. E achei mais ruim ainda, por outro viés da psicologia, que é o de eu ter me decepcionado com o Diretor por ter criado muita expectativa com o filme, com base na minha opinião da série.
Se a expectativa é de caos, cenas sem explicação, takes maravilhosos de cinema, o filme "Não, Não Olhe" é um prato cheio. Isso que vi dublado e, neste caso a tradução de alguns nomes importantes faz diferença. Ainda assim, não é o áudio do filme que vai te fazer passar raiva, é o sentimento de não entender o que que tá acontecendo.
Mas isso acontece constantemente conosco, não é mesmo? Em quantas empreitadas nos metemos que não sabemos muito bem no que vai dar? Com sorte, não topamos com psicopatas ou serial killers, a ordem estabelecida não vira de ponta cabeça e o saldo de nossas aventuras são anedotas para contar aos amigos.
A diferença entre o caos de "Nope" e da vida real, é que ele é controlado: por mais abismados que fiquemos com o desconforto pelo que está acontecendo, é uma experiência com hora para acabar. Não estamos em Guantánamo ou em Laranja Mecânica, com um vídeo de não se sabe quantas horas apontado para nossa cara, enquanto somos induzidos a não dormir de jeito nenhum.
Por isso que é que gostamos de cinema: é um experimento de horror controlado. Ao contrário da vida. O Nassim Nicholas-Thaleb tem um termo para isso que não lembro agora, que chama-se de um "fortalecimento pelo envenenamento controlado". É o que fazemos com as experiências de cinema, de literatura: uma vivência diferente da nossa mas que, ao fim do prazo de exibição ou fruição, nos deixa no "conforto" de nossa própria vida.
Já a vida real, a essa é bem mais difícil de tragar, quando se torna caótica. E um dos nomes pelos quais o deus Caos atende é "Pessoas". Para que você banque o preço do caos alheio, um dos conselhos é decorar a saída da sala e escolher uma poltrona próxima a este escape.
Virei a menina fã de Industry. Cruzei com um episódio da segunda temporada por acaso, quando o chefe da protagonista chamava ela para trabalhar no escritório após o evento da Covid, e desde ali fiquei curiosa.
Peguei a primeira temporada e não me arrependi até agora (4ª eps da segunda temporada). A série acompanha 5 estagiários do mercado financeiro (sim, amiga: mesmo que a gente não entenda bulhufas de derivativos, ações, câmbio e etc, a série - que nem o Gambito da Rainha - possui um suspense eletrizante).
Para mim que gosto da fantasya and fics que rondam o estranho & cruel mundo corporativo e de dinheiro, Industry está sendo um prato cheio.
Comecei o post com uma arte do colombiano Sako Asko porque me peguei pensando em desafios que chegam até mim e com os quais não sei lidar. Bem óbvio, né? Pois nunca estivemos no ponto onde estamos hoje: o segundo seguinte é sempre um desconhecido.
Por que motivo eu gostei de Industry sem entender bulhufas de mercado financeiro? Porque a história está ancorada em uma jornada que qualquer um é submetido, esteja nele ou não: competição, resistência e cobiça (ou amor) ao poder, pessoas de classes econômicas diferentes trabalhando contigo (sim, tem bastante clichê nesse aspecto, é um dos ganchos que eles mais esticam na trama).
Acordei com uma crítica que saiu hoje no The Guardian sobre como a Nicole Kidman está tipo "fazendo vergonha de si mesma" ao expor seu corpo de 55 anos com músculos (sim, é debate do Guardian, rsrs).
Nem a Nicole, mesmo que tenha passado experiências bem diversas que a maioria dos outros humanos do planeta, sabe como "deve aparentar" com 55 anos: estou louca pensando assim?
Ontem eu notei que na minha fala eu incorporei gírias do ambiente de trabalho onde estou, e que destoam 100% da minha idade (kskas). Lembro que há uns 5 anos, quando comecei a conviver com os cristaizinhos universitários, um dos bullyings mais recorrentes era me chamar de a órfã (rsrs).
Eu credito este discurso desalinhado totalmente à minha idade com a inabilidade em identificar como deveria me portar para não causar desconforto na audiência.
Como será que eu deveria ser perfeita, previsível & cumpridora da expectativa alheia? Concurso aberto, enviem as respostas para o inbox até dia 01 de setembro de 2022, as mais criativas recebem uma lasquinha de cripto do Nubank.
Assistindo hoje de manhã o Pequenas Empresas Grandes Negócios, vi um caso de sucesso de um chaveiro: ele criou sua loja dentro do estacionamento de um shopping. O caso de sucesso relatava a adoção do regime "store inside store ": ou seja, o ponto que ele escolheu para prestar seu serviço foi dentro de uma outra loja.
A matéria que volta e meia reaparece nas revistas é a das profissões que irão desaparecer pois vão ser "comidas" pela tecnologia em breve. (Especialistas em tecnologia apontam 13 carreiras que nunca serão automatizadas).
O caso de sucesso do cara seguia, nos moldes das reportagens do PEGN, apontando o faturamento mensal com este modelo de negócio (R$ 40 mil mês).
NO INSTANTE eu, assistindo, pensei em algum altruísta da tecnologia que poderia pensar "mas por que fazer este sujeito 'passar trabalho'? Não é impossível criar uma máquina que copie chaves, que fale com o cliente e que sem nenhum passivo associado a nenhum humano (exceto o que vai dar eventualmente manutenção na máquina), faturar R$ 40 mil por mês no estacionamento de qqr shopping"?.
Leram a matéria recente do Engenheiro do Google que foi demitido porque afirmou que a inteligência artificial da empresa ganhou vida? Eu ouvi um "Eu, robô" por aí?
Os altruístas tech querem que todos os chaveiros do mundo se libertem das amarras do trabalho autônomo e virem livres-pensadores, que troquem o trabalho manual por algo que irá agregar mais à sociedade do que um trabalho repetitivo!!
Todos egressos das profissões repetitivas que serão substituídas por tecnologias, robôs e automações estarão LIVRES para se tornarem abraçadores!
Fudida estou. 🤡
A substituição do trabalho manual pelo da máquina é uma fantasia que ronda a ficção desde que o ser humano elabora um discurso ("vão criar um arco pra que nossa flecha chegue mais longe ao invés de me trazer a presa pra lutar à unha? que tipo de caçador serei?").
Mas eu tenho dúvidas bem sólidas sobre onde a tecnologia-por-tecnologia pode parar. Como diz o Malcolm Gladwell em "Falando com estranhos", uma crença existe quando não temos dúvidas suficientes para refutá-la. Ou o Scott Adams (do Dilbert), em "Como falhar em tudo e ainda assim ter sucesso", o capitalismo não é o sistema ideal de trabalho ou progresso, mas ele conseguiu fazer com que o "profit" (lucro) não fosse o core absoluto de todo rolê, e sim a troca que se faz para obtê-lo com a sociedade (produto ou serviço). Ao contrário da especulação, que não produz nada a não ser algoritmos que preveem o movimento deste mercado.
Então: menos trabalho repetitivo = mais eficácia, e portanto maior progresso para a humanidade como um todo.
Claro que este meu "awe" com tecnologia é um carimbo do ponto em que estou hoje, na vida, de entendimento sobre mercado (através da faculdade e leituras) e de em 2022 utilizar mil e uma automatizações no dia a dia.
O ser humano automatizou toda a lavoura, desafiando inclusive o clima, graças aos defensivos agrícolas. Então, por que não parar de produzir chaves manualmente ou pegar na enxada, se coisas químicas e tecnológicas fazem tudo por a gente né? Mas o saldo destes atalhos é bem perverso.
saldo do uso de agrotóxicos nos seus filhos
Mas! Este é um blogue de uma jovem senhora que bloga pois não precisa estar na lavoura nem fazendo chaves, desta forma, propensa somente a falar de amenidades pois não?
Então: joguei o Joaquin Phoenix lá em cima, para falar de automatizações. Lembram de Her? Então: até a profissão de "escort" está em baixa. Pelo menos as presenciais.
Outra profissão que não deve desaparecer em muito tempo é a de fofoqueiro. Na verdade, a tecnologia só ajudou ao engrandecimento da profissão. Pois as redes sociais trazem ao fofoqueiro muita matéria prima para suas fantasias & fics. Mas, atenção, temos um gargalo aí meu povo: para aquele subject da fofoca que não costuma produzir muito material online, o fofoqueiro fica com muitos gaps para montar o produto final da sua entrega.
Eu, por exemplo, estou aqui fornecendo insumo para estes profissionais, o que já trata-se de uma revolução tecnológica sem volta e talvez um sentido para minha vida, não é mesmo? Já me sinto mais confortável por não ter um pequeno negócio de fazer chaves e não tão inútil quanto nossos antepassados caçadores-coletores ali na fila interminável do Sine.
Acabei de postar esse recorte no stories, com uma trilha de Mulatu Astatke.
Cheguei em casa de uma semana bem puxada, e tava dando uma série (Bebê) e tocando essa trilha.
Ao vir para a casa eu estava pensando em fazer um post aqui com esta imagem acima. Este instagram só captura frases de pessoas ouvidas nas ruas do Chile, muito legal. E esta, estava arquivada nos meus "salvos" já faz um tempo, quase todo o Agosto eu reposto.
Coincidência da trilha do Mulatu? Não sei. Hoje me olhei no banheiro do trabalho, e percebi muitos mais cabelos brancos. Tenho envelhecido. Já não seguro o estresse como costumava antes. É fato que o corpo começa a se degradar sem pedir nenhuma licença, a partir de alguma idade.
Para mim esse processo demorou muitoooo, no entanto.
Antes de vir para a casa, passei no super. Um atacado que vende várias coisas próximas ao vencimento a preço de banana. Engraçado, né? Peguei uma linguiça calabresa que vence daqui a poucos dias, e também um molho para sanduíches na mesma situação.
Engraçado que para os produtos, a data de término se chama "vencimento". Para a gente se chamaria "derrotamento?"
Então há quase FINTCHY anos atrás, conheci Mulatu. Uma menina sensacional que me ensinou. Outra me ensinou Cortázar, outra Guimarães & Sushi. Foi uma época especial, uma troca de casca e uma grande ilusão de que eu conhecendo estas coisas maravilhosas todas (que ainda hoje me acompanham, mas não por serem maravilhosas, mas por me lembrarem do quanto eu era maravilhosa na época), uma ilusão de que eu me disfarçando sob estes signos, sepultaria a Denise humilhada que chegou até aquele ponto.
Depois, "trintona" li Ilusões Perdidas de Balzac e entendi o Lucien de Rubempré.
E aí hoje, todos estes anos depois, lá na fila do super, fiquei vidrada por um casal super novinho com o carrinho explodindo de compras. Ele, um cara bem constituído, cabelo rapadão, bochechas coradas de quem é muito saudável, roupa de serviço da Osirnet. Ela, uma menina bem nova, meio gordinha, com uma criança pequena no colo. Muito rosadinhas ambas: mãe e filha. Pensei na fragilidade. Na fragilidade da economia, que poderia destruir em um momento aquela família de jovens. Na coragem deles.
Sim: recebo o atestado final de matrícula no doutorado em ser tia - observar casais jovens e comparar a minha fragilidade à deles, na fila do supermercado que vende coisas "vencidas" e baratas.
Não acho que estou envelhecendo mal. Estou envelhecendo e, como tudo mais nesta vida, "olhe lá" (rsrsrsrs). Acho que é mais uma das muitas experiências pelas quais passei que tenho outra percepção que a das outras pessoas. Fico chateada quando vem as expressões etaristas de que vc não parece ter a idade que tem, ou que a gente é proibido de reclamar de uma coisa porque "está velho". Solidifica o tabu.
O mundo pós(?)-covid retornando ao normal, as aulas retornaram ao regime presencial também.
Segunda-feira pude entrar em uma sala de aula real de novo após dois anos e quase cinco meses. Pensando agora: em quase um ano e meio não me reúno com tantas pessoas fisicamente em um espaço. Foi emocionante, em parte.
A primeira emoção ocorreu quando descobri que uma disciplina não seria ministrada por um professor que conduziu as aulas, em regime remoto, com grande dificuldade (para ele e para nós). Foi um teste bem relevante de paciência, além de um exercício constante de respirar fundo que tive nestes 29 meses que passaram.
Mas a Profe era ótima. Devia ter uns 10 anos a mais que eu (tipo uns 54 anos), o que é bem raro em qualquer ambiente que transito: estava com saudades de ser tutelada por alguém mais velho que eu. Isso é bem raro, na medida em que os anos passam.
A segunda, quando entrei novamente na sala de aula.
O ensino presencial tem suas dores e delícias. Ainda lembro muito bem de uma vez em que havia me acidentado no trânsito. E cursava uma disciplina em que a professora, usando a lógica de echatas, não abonou uma falta (mesmo eu com o atestado), pois se eu estava presente na aula seguinte para apresentar o atestado >>>>> logo, eu estava viva não é mesmo?
No estudo remoto não tem esse rolê. Não tem enchente (o meu campus fica debaixo dágua quando chove), ônibus lotado, correria para não chegar atrasado, etc. E você pode assistir a aula mesmo que esteja em uma maca.
A gente tem a sensação de se tornar muito mais "produtivo" quando trabalhando ou estudando remotamente, porque economizamos esse tempo de deslocamento (adeus acidentes de trânsito, pelo menos). Mas essa "produtividade" trata-se de um "atalho", uma compensação que tentamos cometer para justificar a economia de tempo e energia gastos para o deslocamento e convivência ao vivo com outras pessoas.
Mas voltando à vaca fria: enquanto assistia a aula da coitada da Profe xxxx, que falava alto sufocando dentro da máscara (podíamos ter evoluído para dar MICROFONES aos Profes, para que não estourassem a garganta durante o ofício), minha tela de proteção mental voltava para dentro daquelas mesmas quatro paredes da sala de aula... Quando entrei na universidade em 2017.
A nostalgia: como tudo que ficou no passado parece mais simples né? Eu me vi jovem (dois anos e meio mais jovem, haha), e como as coisas pareciam mais simples naquela época. Sentar em uma cadeira de aula me ajudou a superar questões pessoais bem pesadas. Foi menos cansativo do que eu imaginava, e se tornou uma atividade muito prazerosa. Todos meus colegas e amigos de faculdade são muito mais novos que eu, estão em uma fase da vida diferente da minha, mas isso foi muito bom de observar. Em alguma medida, a realidade que eles vivem, naquela idade, me foi subtraída e estava sendo reposta. Uma segunda chance, de socializar, de ver que eu não estava completamente acabada pois já tinha "passado da idade". E convivendo com os jovens, percebo que as questões que eu tinha há 15 ou 20 anos atrás, não passam (spoiler rs).
Este blog ficou parado pois (ora, ora: quem diria não é mesmo?) eu já enjoei do siricotico de escrever para fugir da escrita obrigatória acadêmica ou profissional.
Mas achei o evento de retorno ao nosso lar da faculdade presencial merecia registro pela reflexão que proporcionou: a gente tende a querer voltar ao passado, porque "parece" que éramos mais fortes por lá. Afinal, de uma maneira ou de outra por lá sobrevivemos, e por cá, não sabemos se vamos chegar nem até ao próximo caractere não é?
Tem uma teoria do marketing que fala da pirataria, e que inclusive as marcas possuem métricas de pirataria para medir o seu alcance.
Lembro agora da "Casa Gucci", a cena em que o Jared Leto (irmão do protagonista) permite a venda de bolsas Gucci falsificadas pois isso seria bom para a marca.
Existem outros modos de disfarçar um produto para que ele "pareça" um produto de uma marca consolidada (como camuflagem, imitação, etc), mas não lembro todos agora.
Penso um pouco nas religiões em geral, quando se fala de disfarce: você pode ter uma vida mundana, mas assim que pisa no templo, o ritual exige que você vista o terno (pentecostais), vestes da cor da casa (de matriz africana), quipás, burcas, ou a virgindade e único matrimônio, no caso da católica.
Estou assistindo pingadamente a série "Physical". A protagonista é adoravelmente odiável (rs..). A série se passa nos anos 80, e a Rose Byrne, que intepreta uma mulher de meia-idade, semi-dona de casa, com uma filha pequena e um marido professor que é demitido, consegue manejar sua frustração através da bulimia.
Em um dos capítulos da primeira temporada, o marido chama um ex-colega de ambos para conduzir sua campanha eleitoral, e o cara é um remanescente da juventude deles, aqueles ativistas trintões que vive ainda na adolescência.
Em uma cena com Byrne, o cara fala alguma coisa bem sem-noção (para um adulto, afff) e cita Tolstói.
Eu fiquei bem irritada com ele. E, por tabela, comiguinha mesmo assistindo a série.
Erudição é diferente de sabedoria, BEEEEEEMMM diferente. Geralmente a figura "erudita" é alguém que tem bastante tempo disponível para consumir bulimicamente conteúdos diversos que, ao menor gatilho de perigo, acaba vomitando sobre os pobres que convivem com ela. Como todo vômito, fede. E geralmente não é o vomitante que limpa a sujeira.
Venho de uma família muito humilde em vários aspectos. E para organizamos nosso enfrentamento com a sociedade (para a qual a nossa casta é risível, quase a casta do Caleb de Westworld) muitos de nós nos disfarçamos. Ocorre para mim agora o disfarce de pessoa respeitável enquanto em trajes religiosos, de trabalhador que é produtivo na sociedade, de pilar de uma família de comercial de margarina, etc.
Eu me identifiquei bem negativamente com o personagem de Geofrey Arend em Physical. Vomitar erudição adolescente é uma tentativa de barreira, é um soquinho do luta ou fuga ou paralisia no momento da ameaça. Do desmascaramento. Pois ao fim e ao cabo, vomitar erudição na cara do outro não é maior que vomitar o seu carrão na garagem, a sua família perfeita no insta, o seu livro publicado, a sua barriga tanquinho.
Com estes movimentos, nós nos camuflamos, imitamos os ídolos, a competição que toma conta das interações sociais só queima as pontes (que talvez nem deveriam existir, mas aí já é outro papo).
Todo o disfarce, toda a máscara, só é buscado quando em interação com o outro, e como ferramenta para conquistar a DIGNIDADE. A dignidade de permanecer no ringue até a contagem final, de não ser expulso de um espaço ao qual a pessoa sente que não é "merecedora" de estar. É um imposto auto-imposto ao qual nos submetemos voluntariamente quando atacados (sempre). Mas não é luta, não é fuga, é paralisia controlada.
Sim, comecei este livro. Acho que é interessante para minhas crencinhas avaliar as coisas pelos 2 lados.
Lá pelo terceiro ou quarto artigo do autor já deu para sacar qual é o objetivo do livro: demonstrar a crendice que envolve a astrologia.
Mas nós conseguimos provar o que existe né? Como a ciência prova algo que não existe? Através da probabilidade? Aí caímos no anjo caído do mercado financeiro e da estatística, o Nassim Nicholas Thaleb (este que eu admito não ter conhecimento suficiente para entender quase nada). Mas ele fala que toda a análise de risco é inútil para prever a ocorrência de um "cisne negro". Cita Fukushima e outras coisinhas que servem para a gente arrotar erudição pop em hangouts aleatórios.
Volto a uns posts anteriores daqui, onde falei sobre a heurística e o algoritmo. O algoritmo é o pai do preconceito. Explico: grande parte do nosso dia é regido por regras, por coisas que são o que sempre foram. Já pensou se eu saio na rua sem saber se eu sou a Denise, a Margarida, o Douglas? Se a rua, na verdade não é rua mesmo, é um abismo, ou um rio? Se ao invés de pernas eu tenho guelras, e se ao invés de falar português eu tenho salsichas no lugar dos dedos? (já viram "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo"? Em um dos multiversos da protagonista originalmente homofóbica, ela é parceira de sua arqui-inimiga da realidade inicial, e ambas possuem dedos de salsicha).
Sempre fui mais afim de "projetos". Isso, quando consegui escapulir ligeiramente do mundo que estava desenhado para meu algoritmo de moça pobre do interior (ser dona-de-casa, ter um homem, filhos, etc) e em uma sala de aula empoeirada de uma cidade pequena de um país continental fui confrontada com as opções profissionais de: projeto ou execução (escola técnica de construção civil, chamava).
Mas esses dias refletindo percebi que meu pendor para o projeto, pra regra, não passa de um agarramento à uma ordem, qualquer que seja.
A "lei" ou o "regulamento" é uma camuflagem para muitas atrocidades. As coisas tem que ser assim porque sempre-foram-assim. Já foram testadas, ora! Já foram pesquisadas, observadas, diluídas em fórmulas e softwares fantásticos, que cagam a regra: se sempre foi assim, se forem seguidos os parâmetros originais, assim será sempre.
E ao erro, se escusa o projetista. Ele é o carinha ou a carinha que projeta tudo nos mínimos detalhes: se a galera que vai fazer a execução errar, é sinal que não observou o que estava previsto na alínea xy do capítulo Z do tomo 49 da tábua de leis escritas.
E a isto eu retorno para a Astrologia. A astrologia, tarot, artes divinatórias em geral eu me voltei depois de um trauma: não é possível que como o sonho premonitório de Calpúrnia, antes do assassinato de Júlio César não exista algo como intuição ou profecia. É o famoso "ai tem" (matéria-prima de fanfiqueiras, paranóicas e afins)...
Mas a ciência, como comprova o livro de Orsi, pode fazer um experimento onde várias Calpúrnias são induzidas, em laboratório, ao sono. Para aquelas que tiverem sonhos premonitórios, é destinada a população que presta da amostra. Destas, será realizada a observação sobre o tempo de realização das profecias (será uma pesquisa longa, imagina-se. Quem poderia patrocinar os nobres pesquisadores?) e, caso se realizem e, caso este percentual seja superior a 50% da população estudada, será possível concluir que a profecia existe sim, em um percentual maior que o do simples acaso (50% representa o sim e o não).
Assim como o Caleb de Westworld, me agarro em profecias que desmentem o algoritmo. Não muito: minhas crendices não são cegas ao determinismo da nossa sociedade. Mas E SE.. ser de sagitário me ajudaria a ser uma pessoa com bastante sorte? E SE.. a minha lua em virgem me ajuda a fazer alguma coisa de útil na sociedade, nem que seja pra ter o que comer e garantir o mínimo de abrigo ao clima externo?
A pesquisa vai ter que ser estendida por mais x meses, dotor Orsides.
Cada um tem um propósito. Às vezes é tri claro e evidente, pessoa nem pensa ou duvida do próprio propósito, às vezes fica a dúvida: tem gente que vive para descobrir.
Às vezes o propósito fica estampado em uma matriz, que deve ser copiada e imitada contando com a promessa de sucesso se todos os passos forem seguidos.
Às vezes a gente escreve com sorriso na ponta dos dedos. Às vezes os dedos pesam duzentas toneladas, cada. Porque eles são pequenos (em proporção ao resto do corpo) aí a transmissão do peso fica limitada.
No 5º episódio da 3ª temporada de Westworld, Delores encontra Caleb (Jesse Pinkman) e explica a dinâmica da empresa Incite, que controla o destino das pessoas através de um algoritmo: dados alguns parâmetros é possível prever o final de uma criatura e desta forma decidir se vale ou não a pena investir nela. Bem piegas, mas trata-se da dinâmica de nossa sociedade hierarquizada. Ela diz para Pinkman que devido ao histórico dele, o algoritmo definiu que ele é uma criatura que não vale a pena investir.
Eu li esse troço de algoritmo e heurística, tento lembrar, em algum livro estes dias. A Heurística é a tentativa, é o caminho que não é definido por um algoritmo (onde existe causalidade). A causalidade permite o "forecast" e isso vai determinar se algo vale a pena ser continuado ou deve ser deixado pra morrer na beira da estrada.
-----
Já o conceito de trabalho (remunerado ou não) é o de transformação; É a chamada "obra". Qual a transformação está sendo operada pela mão do trabalhador? Já transformação é o contrário de permanência. Mesmo Caleb, um perdedor e que não "merece" investimento da sociedade, segundo o resultado do algoritmo - em comparação a uma outra criatura que não conte com os mesmos impedimentos que ele, e que pode dar mais "retorno" ao investimento - opera alguma transformação. Mas é uma transformação de destruição pois, a existência dele só se evidencia através da degradação do corpo e da morte (ou desativação, no Westworld de plástico).
Resumo? A transformação possui graus. E degraus. Mesmo os algoritmos não são gravados em pedra, precisam da heurística para serem "validados" de tempos em tempos. Eu acho que heurística vem lá de Eureka (consulte Wikipédia, não tenho certeza).
Faça mágica. Mesmo que a mágica seja um tropeção lá do Aílton Graça de uns posts anteriores. É preciso serenidade pra ganhar seu pão e teto da risada dos outros.
Comecei o post anterior com uma figura do deus grego Apolo. Antagonista de Baco, Apolo personifica o divino e Baco, o mundano (vide "as bacantes", etc etc).
Há algum tempo li "Personas Sexuais" da Camille Paglia. Nele, a autora investiga a personificação do masculino em arte apolínea e do feminino na arte dionisíaca (baquiana).
25 anos depois do lançamento do livro, em 2015, seguia Camille loqueando nesta seara (que eu não entendo, e me furto, para minha tranquilidade, de debater - sobre feminismo, gênero, etc) na Folha, falando algumas baboseiras. Mas o livro é bem legal, ainda mais para quem é bem ignorante em mitologia, e em literatura crítica produzida por mulheres, então vale uma conferidinha.
Para quem estava com saudade de Buñuel, vale conferir o recém ganhador do Urso de Ouro em Berlim agora em março: Bad Luck Banging or Loony Porn. Trata-se de um filme romeno que foi aplaudido de pé por vários minutos ao final da exibição por lá E VOCÊ VAI ENTENDER O PORQUÊ. Que revigorada eu tive após assistir. Glorioso!
Então! O dionisíaco apela ao exagero (também, pois usa da tragédia), mas poderíamos dizer que a Marie Kondo é Apolínea, Rihanna e ASAP dionisíacos, nesta escala.
Ontem no Altas Horas o Serginho Groissmann, sempre muito investigativo (fofoqueiro) perguntou para cada um dos participantes o que os motivou a seguir a carreira no início. Quando chegou a vez do Aílton Graça, ele disse que era funcionário público, não trabalhava como ator. Mas em uma ocasião ia performar uma representação de improviso em um hospital que trabalhava, e que ao entrar no espaço do palco, caiu. E o público? Este caiu foi na gargalhada. E que aquele foi o momento em que ele descobriu o que queria fazer: impactar os outros através do riso.
Mais apolínea que o Aílton Graça, com a defesa do tombo do palhaço, é uma comédia da Netflix lançada recentemente: Feel Good, da humorista canadense Mae Martin. Mae é uma humorista que conta, em duas temporadas, os perrengues de uma menine de sua geração millenial (ela tem 30 anos, mas pela sua aparência de menino, representa quase um efebo adolescente) na questão de ter um relacionamento "lésbico" (acho que as novas gerações nem usam mais esse termo RSRSRSRS) com outra menina, o vai e vem em dependência química, seus pais ausentes (a mãe é a LISA KUDROW!!), a vida com roomates, enfim, dramas de uma pobre millenial não-binária rica. É quase a I May Destroy You da Micaela Coel, só que para as sapatones. E ao I May Destroy You JÁ É a Fleabag para a geração Millenial (Fleabag já é para a X). Obcecada com geraciones? Não sou eu, é o mundo my dears.
Todos os citados acima, nesta lauda, fazem rir. Causam a fricção necessária na audiência para nos tirar da cara de paisagem e arrotarmos uma risada (até, ou principalmente, a entrevista da Paglia hahaha).
Na série da Mae Martin o humor é bem diferente do representado no tombo do Ailton: a gente vê ela tropeçando indefinidamente entre uma situação de risco e outra devido à fragilidade psicológica (causada por abusos do passado e do presente, à falta de confiança de menine não-binárie, etc etc) mas com MUITA sutilidade. E é muito engraçado rs.
Mas de todos, o que mais me fez rir foi o BAD LUCK BANGING OR LOONY PORN. Este me deixou um arrepanho na fuça, de pavor. A história, dividida em 3 partes, é uma fábula contemporânea acidíssima sobre papel da mulher na sociedade (romena?), totalitarismo, pandemia, "sexo e pornografia", shameporn, poder & escola. Brilhante, tem que ver.
Falei esses dias aqui no blog sobre brincadeira, sobre brincar ser saudável e que brincadeira é coisa séria, etc e etc..
Mas o que é MESMO uma brincadeira? Crianças se reúnem, definem papéis, definem regras e naquele espaço fictício podem vivenciar fantasias até a hora do brinquedo acabar, certo? Algumas crianças se divertem, outras nem tanto (tem sempre as póbi que só pegam os papéis secundários na trama dos líderes do bando) mas vale tudo pela "folganza juvenil".
Brincar é saudável? Claro! Assim como o riso (que revela muito mais que o que o seu portador gostaria que fosse revelado), a brincadeira permite a vivência de dinâmicas de poder que seriam proibidas caso a criança se visse como estrangeira em um outro grupo.
A canção do título eu ouvi hoje à tarde cantada pela Patti Smith (Só Garotos está na minha fila, espero que saia LOGO). A canção fala, em tradução livre,
Bem-vindo à sua vida
Não há volta
Mesmo enquanto dormimos
Nós vamos te encontrar
Agindo da melhor maneira
Vire as costas para a Mãe Natureza
Todos querem governar o mundo
How creepy, isn't it? As brincadeiras da sua infância seguem vindo te assombrar, pessoa idosa, mesmo depois de estarem mortas lá na sua infância? Todos querem ser os donos da bola do campinho. Ou ganhar a estrelinha de mérito da sala de aula. Ter sido uma boa menine e ganhar o melhor pedaço de bolo da ceia, não?
Enfim..
Tem um ditado que diz :
Calma, que vai fazer sentido.
Voltando à brincadeira. A criança se permite exercer poder e submissão pois a realidade que cria, durante a brincadeira, está muito bem SEGURA naquele espaço. Ela pode exercitar o papel que for, que acima dela estão pais, tutores, leis, restrições etárias, etc, não é? As brincadeiras atingem a extensão de ficção na mesma proporção em que os atores delas são crianças indefesas. Crianças tem pureza, espírito ("wit"), brilho no olho, mas são relapsas: sempre tem alguém por trás para limpar suas cagadas. E por isso elas tem a alforria para a crueldade (até o momento da vida em que caem em si e dizem: opa! parece que peguei pesado). rs..
O saco de sal é uma imagem que ficou muito tempo na minha cabeça. Dada a efemeridade de TUDO (ok ok, talvez seja mal da idade, ando cada vez mais rabugenta), mas ante o pica-esconde (diálogos secretos, deboches invisíveis na comunicação virtual), o polícia-ladrão (a vigilância sobre a possibilidade de cada passo em falso dos outros, vergonha alheia, cringerismo, arrrghhh), a brincadeira de casamentinho (dos terríveis aplicativos de encontro), eu penso que antes de alguém se permitir entrar em uma ciranda (e MAIS IMPORTANTE antes de se ver na iminência de ela começar a rodar) é importante compartilhar um belo e satisfatório saco de sal, do seu início ao seu final, com os outros participantes da brincadeira.
E só então, vez ou outra, permitir ao outro o "rules the world" até que a mãe natureza chame porque está na hora do banho.
Nesta segunda-feira, próximo às 18h, houve AQUELE temporal em Pelotas/RS. Nisto, acabou a energia elétrica e a internet (óbvio) no início da noite.
Esperei um pouquinho, nada de luz, tive que me dobrar ao Kindle. Aquele companheiro do cérebro que não pára e que tem luzinha própria.
Voltei, então, ao livro do argentino Bruno Bimbi, O fim do armário.
Um tanto panfletário (pois ainda estamos em uma cultura que carece do panfletarismo em algumas questões), o autor tem uma escrita muito boa, cheguei nele através de um artigo, acho. Ou foi através do "Homossexualidade, do preconceito aos padrões de consumo", da Adriana Nunan. Não lembro, mas recomendo este também.
Então: quando "voltei" para o abandonado Bimbi dentro do Kindle, somente eu, ele e a escuridão lá fora de segunda, havia um trecho destacado do capítulo Gaykipédia:
"da mesma forma que quando um famoso aparece em público com a namorada, a notícia não é que ele é heterossexual, mas sim que está namorando, ou nem isso."
Tem um episódio do podcast "Mano a Mano", com a Djamila Ribeiro, em que ela diz ao Mano Brown que se sente exausta de muitas vezes ser a "Wikipreta" do rolê. A experiência de pesquisa dela, parece que a precede no convívio social, aonde as pessoas ficam chancelando exaustivamente com ela se tal expressão não é racista, não é machista, etc Saco, em? Da mesma forma, há muita curiosidade (google for what...?) em qualquer pessoa que performe um papel "diferente" e que deve estar sujeita a uma bateria de perguntas sobre assuntos relacionados a orientação sexual, gênero, etnia, atividade profissional, etc etc. Não é uma crítica: eu mesma sou bem perguntativa com alguém que genuinamente me interessa: sou fominha por motivações ("fulano, mas o que que te faz fazer isso ou aquilo?").
Não concluí o livro do Bimbi. Também está no kindle o mais recente do André Aciman (aliás, bem perturbada com as denúncias de canibalismo do astro de Me Chame pelo Seu Nome), mas já que a Sapapédia foi consultada, deixo alguma recomendações do final de semana, de filmes do Reino Unido:
The Pass
2. Orgulho e Esperança
É isso aí amiguinho! Mesmo que te perguntem muitas coisas over and over and over again, o mundo está diferente de quando eu era jovem e só havia agressões (externas e internas). Então se te perguntarem alguma coisa que você esteja a fim de responder, siga em frente ⇢⇢⇢⇢⇢⇢
Domingo lindo de sol, estou lendo um dos 3 livros mais recentes comprados na Amazon para inteirar o preço do frete. (Motivação para a compra: não pagar frete para o pig capitalista jef bezos mas acabar comprando mais só para evitar essa perda rs...). Sou fã do Daniel H. Pink, e nesta leva comprei 2 dele junto com o bem legal Vender é humano e 101 reflexões que vão mudar a sua vida (que era o único que eu iria comprar, na vdd).
Hoje estou mezzo vendedora. Pois como diz o lobão a cássia eller "ainda não inventaram dinheiro que eu não pudesse ganhar" (mentira: ainda bem que eu tenho SENSO e HUMILDADE para admitir que não entendo nada de investimentos e nunca apostei em bitcoin ou na MGLU3). Minha tarefa então? Sou recepcionista de uma empresa de serviços para e-commerce. Meu papel? Ligar para possíveis clientes e motivá-los a seguir em frente na compra do serviço. Para isso, aprendemos várias técnicas de venda, mas como diz aquele ditado: "domine todas técnicas, mas ao tocar em uma alma humana seja também humano".
Uma das "técnicas" mais utilizadas é demonstrar genuíno interesse. GENUÍNO. Amiga, você não consegue DEMONSTRAR nada que NÃO SEJA genuíno... só se você for totalmente incapaz de realmente sentir coisas (como a Vilanelle de Killing Eve, e tenha como motivação apenas tirar uma tarefa obrigatória do teu caminho para partir para o próximo "alvo"). Claro, estou falando do alto de muito tempo de treino nível hard, feedbacks sobre meu grau de genuinade, crises de serei fake demais ou de menos (rsrs). Mas o que quero que fique agarrado neste ponto é: o produto/serviço não é importante, e sim o que ele resolve (aula A1 sobre vendas, relacionamento, contato com humanos, etc).
Conto um caso: certa vez fui abordar por telefone um e-commerce que vendia orelhas de silicone. E, PUXA... em meio a uma pipeline de vários produtos meio commodity no e-commerce brasileiro (moda, eletrônicos, jóias, etc), me vi meio entrapped para criar o famoso "rapport" com um produto tão diferente. No entanto, "ao abordar um ser humano, seja humano". Minha motivação base sempre é a curiosidade. Mas não iria perguntar para o lead "o que te levou a vender esse produto?" (até poderia, mas na minha parte do processo de vendas este quebra-gelo poderia não ser efetivo). Fui na linha de que a orelha de silicone é um produto REVOLUCIONÁRIO (aliás, dica 2: esse é sempre o meu pensamento ao abordar uma pessoa que vende no e-commerce: o quão revolucionário é aquele produto/serviço e como o lojista foi pioneiro em ter aquela ideia). Por que revolucionário? Imagina a pessoa pegar um monte de silicone amorfo, um bolo de plástico qualquer, e moldá-lo a ponto de transformar em uma prótese que pode trazer a DIGNIDADE de volta a outra pessoa?? Porra, eu quase me emociono quando penso nisso. E aí vai a braba pessoal: se você não se emociona com o que tá rolando na vida e trajetória de uma pessoa que tá em contato 1 a 1 contigo naquele momento, você não deveria estar ali. Emoção e curiosidade são as matérias-primas para transformar uma ligação "fria", "do além" (quem atende telefone em 2022? para minha sorte, algumas pessoas ainda se permitem conversar pela linha telefônica) em uma oportunidade de conhecer algo para tua vida que tu desconhecia. E, por consequência, "cumprir uma meta" de vender o produto ou serviço que você tá incumbido.
Mas para o vendedor que enxerga sua atividade como trabalho e não como entrega a vida é cheia de grana e vazia de propósito.
E eu não sou boa, em? Na vdd eu sou bem péssima em vendas, sou uma diletante como em tudo mais na vida. Mas a entrega ela ajuda a gente a progredir em qualquer atividade.
Bem, no livro de Pink, ele cita um capítulo de Tom Sawyer, onde ele consegue que os amiguinhos pintem uma cerca para ele só pela graça e oportunidade de pintarem:
"Trabalho consiste em algo que um corpo é OBRIGADO a fazer, enquanto que Brincadeira consiste naquilo que o corpo não é obrigado a fazer". (p.43)
Isto me remete à necessidade do lúdico em nossa vida. "Brincar é coisa muito séria" (Piaget). Porque no limbo de atuação do vendedor, tudo ainda está no mundo das ideias (aliás, o RANÇO com a profissão vem de profissionais interessados apenas em despejar na gente produtos que não precisamos e não daqueles produtos ou serviços que possam trazer uma transformação genuína para nossa vida, não é?). Claro, podemos retomar aqui o paradoxo do budismo, de anularmos o desejo e nos contentarmos com o que há. No caso específico da minha função atual, a pessoa que procura o serviço que ofereço pode, sim, permanecer com seu status atual mas ela está perdendo grana, tempo e dias de vida enquanto poderia trocar tudo isso por um facilitador super simples e que lhe daria, inclusive, tempo para refletir sobre o budismo após a melhoria neste aspecto da sua vida.
Sagitário é uó. Perguntada estes dias sobre o que esperava de determinada reunião, respondi no meu quadrado 2x2 online que "comemorar, afinal sagitário comemora tanto as coisas boas quanto se as coisas não saíram tão bem quanto o esperado". Traduzindo em abordagem de vendas, se você fizer com que o seu contato transpareça ser uma tortura, será que a galera do outro lado da linha não vai espelhar seu comportamento? E a motivação do encontro não é apenas o meio para conduzir uma rotina: é em si o fim esperado para o seu tempo despendido, BRINCANDO.
Estava dia desses no trânsito, parada no sinal. Freei atrás de um caminhão de mudanças da empresa "Vapt Vupt" e enquanto o sinal não abria fiquei rindo um pouco da sacada de marketing deles.
A promessa da companhia é que a mudança (que em geral é bem estressora e demorada), se feita por eles, ocorreria muito rapidamente, em um piscar de olhos ou como na expressão que batiza a marca, em um "vapt vupt".
Nada contra a marca, muito pelo contrário: eles conseguiram prometer o que a gente que procura por mudança tanto anseia: uma transição física tranquilíssima, limpa, organizada, cheia de paishhh..
Mas não são assim que as mudanças ocorrem não é? O evento FINAL do processo é carregar o caminhão de caixas (ou contar com o staff da transportadora que, mediante pagamento, faça o carregamento das caixas do ponto de origem e o descarregamento delas, intactas, no ponto de destino) e a partir daí, a mudança precisa de uma aterrissagem no local aonde o sujeito escolheu e começa todo o rolê de adaptação a um novo lugar, again and again and again...
Aí eu fiquei pensando: será que a parte trabalhosa da mudança é realmente o momento do "vamos ver"? Aquele em que o caminhão da vapt vupt está no trânsito, e no qual já se torna impossível voltar atrás?
Acho que as mudanças vão cozinhando em banho-maria muito tempo antes de tomarmos a decisão de chamar a atendente virtual da vapt-vupt no zap. Posso falar de carteirinha, pois sou muito afeita a mudanças. Mas isso é sina, amiguinhos, não tentem em casa rs...
Dizem que a gente quando atacada tem 3 instintos: lutar, fugir ou paralisar (ou também, se disfarçar). Quando não temos orçamento para contratar uma mudança completa (porque a mudança a jato ela tem custo, cansaço de organizar tudo em caixa, perder coisas, ver coisas quebradas no meio do caminho, etc), a gente costuma fugir, né?
Quando eu sou atacada ou passo por algum bullying, alguma agressão incompreensível, desde pequena sempre tive a seguinte reação imediata: mudar algo na aparência, ou vestimenta, que pudesse me camuflar diante do agressor. Até jogar no LIXO alguma coisa que eu me identifique naquele espaço psicológico que me trouxe junto para o meu agressor. Minha lógica? "Amiga, você tomou na porrada aquela Denise, ok, agora essa aqui vc nem conhece mais, tente outras armas pq vc não me pega mais" (rs..). Claro que não funciona, é uma estratégia que uso para racionalizar que se eu sofri uma agressão é pq eu de alguma forma permiti que acontecesse, mas a "nova Denise" não permitirá que aquilo aconteça de novo. Mesmo que através de um artefato físico (e aí eu ouvi um "ah, uma mudança como da Vapt Vupt" na plateia?) Mas na quase totalidade dos casos você é só vítima casual mesmo do agressor, ele podia ter batido em você ou em qualquer outro bocó que estivesse no seu caminho. A sua atitude só demonstra a EXTENSÃO que uma violência pode tomar, e tentar fugir só intensifica ainda mais o ato de agressão.
E eis meu ponto: esta não é uma reação de fuga (que demanda mudança mesmo). Se disfarçar e permanecer é na verdade uma reação de PARALISIA.
Isso me lembrou de um professor padrão que tive, que costumava dizer que por mais que a gente pensasse que era diferente, nós éramos "mais parecidos do que gostaríamos de admitir". Um parêntese que este professor era crush (e porque não dizer tesão) de meninos e meninas do oiapoque ao chuí dentro da sala de aula. Meu, não: eu tinha bastante raiva dele. O que não deixa de ser um crush, óbvio: queria eu ter tantas prerrogativas na hierarquia social como ele, para falar exatamente o mesmo para a garotada (rs..).
Mas o que quero dizer é: talvez ser adepto do culto da mudança constante nos faça voltar exatamente ao ponto de partida, né? Entrar nas empreitadas fazendo moonwalk vira vício, vício de clínica. E, pior, n-ã-o-n-o-s-l-i-v-r-a-d-o-a-g-r-e-s-s-o-r. Pare, se for possível.
Tem um livrinho maravilhoso que li neste primeiro semestre, do Christpher Isherwood (Um Homem Só), no qual em um trecho ele fala que cuida muito para não cair em "pequenos delitos" (como estacionar só em locais permitidos, cumprir horários, pagar contas em dia) pois um cara como ele (homossexual na época em que ser homossexual dava cadeia) não podia se permitir "ser pego" por um delito tão menor que iria desencadear em uma bola de neve terrível de agressões de toda sorte. Assim como no episódio "Nosedive" de Black Mirror, a gente que é alvo de porrada desde muuuuuuuiiiiitooooooo cedo, que já nascemos com a pontuação negativa da personagem Susan do episódio, ou nos habituamos à mudança e ao disfarce para preservamos um fio de integridade, ou a gente morre, galera. Period.
Então é isso. Bem vinde a este mural virtual, onde você poderá acompanhar reflexões profundas e rasas desta que vos posta sobre o que? Sei lá.