Pobre pinhalense
É realmente triste nascer em um país de terceiro mundo, milhões de pessoas tem que lidar com isso, porém nasci literalmente no c* do mundo. Poucas oportunidades de emprego, sem espaço para novos empreendedores, a maioria dos lugares tem sempre as mesmas pessoas trabalhando. Os que aqui se formam trabalham em outra cidade, ou vão embora de uma vez, caso o contrario tem que se contentar com os trabalhos escravos, não muito diferente de outros lugares.
A grande questão é que estou tentando dizer que aqui é um lixo, mas pra evitar o "aqui também" já exclamo que todo lugar é uma porcaria. Lidar com pessoas que são meramente mais favorecidas que você é frustrante, vivemos em uma realidade que a maioria não tem dinheiro, porém alguns tem mais do que outros. Eu no auge dos meus 24 anos, não tenho nenhum bem sem ser uma casa velha.
A educação é um fracasso, as escolas te obrigam por lei a se formar, e quando você comparece nas aulas, é a plena Sodoma e Gomorra acontecendo. Onde deveria ser um lugar pra adquirir conhecimento, você adquire vícios, cicatrizes, traumas e histórias trágicas, e adivinha o que os responsáveis pela educação publica fazem a respeito disso?!
Se você precisar de atendimento médico você até consegue, mas se prepare pro desleixo e pouco caso, pra prescrições que não solucionam problemas, pra pessoas que se comprometeram a cuidar de pessoas, com empatia. Se os problemas forem psicológicos é bom você ter dinheiro para pagar consultas particulares, ou se prepare pra coquetéis enormes de remédios que vão te derrubar o dia todo e não vai solucionar seu problema.
Violência doméstica? Bom você não pode contar com outra pessoa além de você, a segurança não existe e a justiça é falha.
Foi nesse meio em que eu cresci, em meio a um monte de pessoas ignorantes, jovens seguindo o caminho dos pais, adultos agindo como adolescentes.
Tive que correr atrás de tudo, ninguém fez nada por mim, ganhando um pouco mais que R$ 900,00 por mês, passando 12 horas fora de casa trabalhando igual a um camelo, consegui bancar minha formação, por muita sorte consegui bolsa, tirei tempo do c* pra poder estudar coisas do ensino médio pra prestar o ENEM, já que eu nunca levei a escola a sério, dormia menos de quatro horas por dia, segui essa rotina por dois anos, ainda tentando investir nas artes marciais.
Demorei três anos pra tirar a CNH, mas até agora não tenho minha moto. Muito das decepções que eu carrego foi por escolhas minhas, tenho que conviver com isso, não da pra mudar o passado ou planejar o futuro.
Mas o que me deixa com vontade de vomitar são pessoas que tiveram mais vantagens que eu querendo pagar de sofredor, fazendo bate e volta pra praia todo fim de semana, bebendo coisa boa e comendo lanche quase sempre, podendo ter todos os serviços de streaming, tendo o carro da família ou ganhar veículo de presente, celular novo a cada ano, rolezinho depois do serviço ou faculdade.
Não sei se sou pobre de verdade ou pobre raiz, mas venho apanhando já faz muito tempo, claramente sou menos favorecido do que a maioria das pessoas que eu conheci durante minha vida. Alguns conseguem com a força do trabalho, investem o dinheiro, mas não conseguem as mesmas coisas no mesmo tempo que as pessoas favorecidas conseguem.
Podem rir e falar mal de mim agora, que me vem indo pra tudo quanto é canto a pé, que usa sempre a mesma roupa, que não tenho nenhuma elegância. Cara esse sou eu, fiel a crença de que não nasci e nem quero ser rico, quero ter minha vida minhas coisas, sem depender da vontade de ninguém. E lá na frente quando eu for velho caquético ter algum orgulho da vida que eu tive, engolindo o sofrimento e as dificuldades e seguindo em frente.
Por vezes suportei coisas que outras pessoas não suportariam, já fui trabalhar sabendo que ia ser humilhado, com o coração partido. Já cheguei sem forças e as pessoas tentavam me derrubar, chutando cachorro morto. Já quase fui dessa pra melhor, mas estou aqui, vivendo, e esperando que um dia a luz do sol vá clarear minhas ideias, e que todos aqueles que se foram percebam o que deixaram escapar.
Uma presença estranha, intensa e impulsiva, mas que faz o certo pelo certo sem ter que pisar em ninguém e nem ser puxa saco.








