Agosto, domingo, dia dos pais, 13h.
Eu sei que dia é hoje.
Mamãe me liga, eu busco rapidamente uma blusa preta, entro no carro. Vamos ao hospital. Sigo em silêncio. Começou.
Minha irmã mais velha chega com terno, meias, sapato e o lencinho que você sempre tinha no bolso, mesmo em casa.
Sapato não precisa, diz a enfermeira. É, talvez tenha algo de mundano. Sola suja não entra no céu, diz mamãe.
Silêncio no escritório. A vó atrás da escrivaninha, sua poltrona vazia.
Eu não acredito que é real.
Ele parecia indestrutível né? Diz o tio, seu filho mais velho. Indestrutível… Sim.
Agosto, segunda, dia do enterro, 9h.
O cemitério é muito verde, lindo, fresco, cheio de flores e pássaros. Um belo lugar pra descansar. Seguimos acompanhando o carro funerário. Não te vi usando terno, ninguém pôde ver. Me sinto leve, de um jeito incômodo, como se o menor sopro pudesse me levar embora. Tudo tinha uma aparência etérea, como se eu fosse acordar a qualquer instante. Ainda não chorei. Mas ando de um canto ao outro. Vejo parentes chegando. Alguns me abraçam. Alguém explode em lágrimas. Alguém diz palavras de conforto. Silêncio, às vezes.
O silêncio é a lei.
Então ando até a cova aberta e leio numa placa perto do caminho um nome esquisito. Não o reconheço. Meus olhos estão embaçados. Presto meu respeito ao sobrenome ali, que também carrego e por anos abreviei nas assinaturas. Não mais, depois de hoje. Eu vou carregar com orgulho, porque quero que você sinta orgulho de mim.
Rezam um pai nosso. Meu peito explode. Sinto as pernas fracas. Soluço incontrolável, baixinho. A coroa de flores apoia-se no caixão. Tento te ver através da madeira, arrumado, de barba feita, usando o terno cinza. Como se fosse ao culto, diz mamãe. E você vai, afinal… Ao endereço que recebe tantas orações.
Aplausos. Minhas mãos mal conseguem fazer som ao se tocarem. Mas eu tento. Não consigo olhar pra vó.
Ela se levanta do seu lugar no carro, chega perto para ver o caixão. Com seus 5 filhos ao seu redor. E o sexto a sete palmos dali.
Esse era o nome, entendo enfim.
Vô Di, enquanto podiam, seus 5 filhos cuidaram de ti. Agora o sexto te aguarda, pra te receber neste lugar misterioso, no reencontro após dez anos separados. Pra te coroar com louros de herói.
Eu sigo na batalha. Vou ser melhor, por você. Vou cuidar de tantos outros, como gostaria de ter cuidado de você. Vou mostrar ao mundo o que é ter a força de um Dias.
Em memória de Adrião e José Olympio.
Um ano. Meu coração ainda aperta de pensar nos seus últimos dias. Te amo pra sempre.
Dois anos. Desculpa. Eu não levei flores como disse que queria levar. Eu cuido de senhores que me lembram você. Queria ser melhor.
















