Eu tava com saudade de sair assim, só por sair, por estar com vontade de ver a vida além das quatro paredes do meu quarto, que me cercam todos os dias e, por pouco, não me cegam.
Andar a esmo, sem saber exatamente pra onde eu vou, aonde a próxima esquina vai me levar.
Hoje eu saí, como um espírito livre, andando por aí só pra ouvir o som dos passarinhos cantando, na mais perfeita paz, pra sentir o calor do sol por entre o frescor da sombra das árvores.
Gostei de sentir o suor escorrendo no meu rosto, me senti viva. Aquele cansaço ao subir uma rua íngreme, faz tempo que não sentia isso. Utimamente só tava sentindo cansaço por correr pra pegar a última barca e não me atrasar pro trabalho. Esse cansaço é chato, estressante.
Cheguei em casa sentindo calor, gostei de suar.
Quando me mudei pra Niterói (há, quem diria, incríveis dois anos), durante o segundo dia que tava aqui, não consegui ficar em casa. Alguma coisa tava me chamando pra explorar o mundo novo ao meu redor, que eu desconhecia por completo. Morar no litoral é uma coisa que me inspira, a energia do mar, das pessoas caminhando na orla, é contagiante, e no começo era algo completamente novo pra mim. Depois de um tempo eu me acostumei, e decorridos alguns meses, passei a ignorar. A gente esquece aquilo que faz bem pra gente, as vezes.
Pois coloquei uma roupa e saí andando, sem ter a mais vaga noção de pra onde eu estava indo. Só o que me orientava era o mar: eu andava em direção a ele. O que vinha depois, eu não sabia.
Olhava pra cima, pra enxergar o topo dos prédios se encontrando com a imensidão do céu azul, como se eu tivesse vindo de uma terra em miniatura e tudo aquilo que estava vendo era, simplesmente, grandioso demais. Ficava olhando para os lados - todos ao mesmo tempo -, tentando absorver toda a novidade de uma só vez.
Acabei em Icaraí, onde tinha muita vida, muita gente andando de um lado para o outro, lugar que me fez sentir muito bem. Estava ali a vida que eu ia começar a viver.
O novo período nas faculdades daqui estava começando, e como eu tinha feito horas antes, muitos calouros estavam pintados nas ruas pedindo moedinhas pra qualquer um que passava. Eu, da maneira mais espontânea, comecei a conversar com alguns deles, calouros de engenharia - não me lembro qual, especificamente. Disse que também era caloura, só que de Direito, mas que não fiquei muito tempo na rua pedindo dinheiro porque, bem da verdade, minhas duas companhias ficaram cansadas rápido demais. E que aí eu fui pra casa, tomei um banho, dormi por algum tempo, e me levantei, morrendo de fome, querendo comer em algum lugar novo.
Comi e depois voltei a encontrá-los. Eu tava gostando de ficar ali, conversando com aqueles pessoas que eu não conhecia - e que, por sua vez, tinham acabado de se conhecer. O novo tava me encantando. Eu precisei voltar pra casa só porque tava ficando muito tarde e logo ia começar a escurecer.
Esse dia me inspirou pro resto de todos os meus outros dias aqui, até hoje; ela já inspira o meu amanhã, e o meu depois de amanhã.
É engraçado como uma coisa boba - como sair andando por aí - pode causar uma reação tão grande dentro da gente. A poesia e a filosofia por trás desses pequenos atos é bonita demais, importante demais.
Hoje eu me senti assim de novo, e mal posso esperar pra ter mais dias de liberdade - sozinha ou acompanhada por alguém legal, que também queira sentir, como eu sinto, o prazer de simplesmente andar por aí.