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Irei, ma chérie!
Na espera de um livro seu
Um dia, um dia...
"Foi na manhã do dia 18, quando eu acordei e me dei conta de que tudo pertencia a mim. Logo, toda aquela angústia era minha e só eu poderia me salvar. Foi como uma pancada quebrando todos os meus ossos. Eu senti vergonha. Eu senti a libertação. Tudo isso, naquela manhã. Eu não me entreguei ao último choro, pois já havia o feito por muitas vezes. Eu não era mais a tua carga de sofrimento, Clementine."
- Marie Devalski
"Foi num desses bares que frequentamos às quatro da manhã, achando que a cidade toda está em casa. Mas algumas pessoas respiram a solidão que fica pelas ruas. Eu era um desses, procurando emoção nessa cidade de grandes coisas. Ela estava banhada pela única luz que restava naquele bar. O lugar mais próximo ficava justamente ao lado dela, e foi ali que ela sorriu pela primeira vez. Quando ela abriu aquele sorriso, abriu caminho por entre os meus lençóis e por entre as janelas da minha vida."
Marie Devalski
"Guarde, em teu silêncio mais profundo, aquele adeus que eu nunca consegui lhe dar. Até agora."
— Marie DevalskiÂ
A melancolia acorda antes do meio dia
Ma chérie, passei a noite em claro, fumando alguns cigarros e decorando algumas das tuas falas antigas. Prefiro fugir da tensão matinal e do vazio que me chama em meu despertar. Fiz um plano a ser seguido e jurei não passar pela dor de ver tua partida a cada manhã, quando abro os olhos e enxergo apenas um lençol velho e branco. Há pedaços do nosso passado em canto dessa maldita casa, que grita teu nome contra as minhas costas e permanece decorando os teus passos. Já não ouso pisar no jardim, onde as flores morrem tão depressa. Não pense que a morte é silenciosa, elas exalam lembranças que eu tento esquecer. O carteiro passou há duas horas e eu não tive coragem de ver, porque cada chegada desperta a urgência de uma carta tua, como um bilhete me dando direções para ir, quando eu já não sei mais como caminhar pelas ruas. Eu sinto dores que não consigo descrever. Começam pequenas, depois tomam todo o meu corpo. Metade perdida da minha alma está guardada na tua mala, my dear. E toda a sua ausência está guardada na minha. Eu não durmo mais, eu não como, eu não sinto o frio que entra pela janela. Por todo lado, eu sinto o cheiro da saudade que corrói não só as narinas, mas o peito. Sei que tu és suficientemente forte para viver sozinha, mas qual é o mal em largar a tua cama e dormir na minha? Tem um pedaço meu em cada esquina e eu não vou buscar. Tem um pedaço seu em cada móvel velho e em cada mancha na parede. Já passou do meio dia, mas o dia, para mim, ainda nem nasceu. Porque não há luz numa casa e numa cama vazia. Eu sinto morte em cada parte dos meus dias. E quando penso sobre a vida, lembro que a vi partir.
— Marie Devalski