É a noite que estou ocioso mais cedo nos últimos tempos. ocioso é uma palavra que vem me acompanhando nos tempos de quarentena, oscilo entre a felicidade e o ânimo, empolgado pros meus projetos futuros, e o crítico que habita em mim. que tanto me impede. oscilo entre o trabalhar árduo cujos resultado não vem me agradando e a possibilidade de liberar algo de minha veia artística, quase sempre interrompido antes do início, seja por uma incredulidade nas minhas próprias habilidades ou até outras distrações. A verdade é que eu gostaria de me dizer artista. Mas não me sinto capaz de carregar esse fardo.
Hoje é dia 14 de Julho de 2020. É exatamente 1:10 da madrugada e me encontro sentado em minha janela. Acho que é um dos meus momentos que poderiam ser configurados como ócio. Ouço morcegos à distancia e uns poucos veículos passando quase que cronometradamente a cada minuto, sinto o vento gelado batendo em minhas costas e aprecio. Há somente uma janela com luz acesa. Não dá pra distinguir se é a cortina que torna a luz amarela, ou se apenas é uma luz amarela. Penso no que acontece dentro daquele cômodo. Existem todas as possibilidades do mundo dentro daquele espaço.
Me pego pensando se a pessoa que lá está, também pensa sobre o que acontece do outro lado. Será que esse ser ao menos imagina que pode estar sendo fruto e razão de longos pensamentos e devaneios? Depois de alguns minutos, me dou conta que estive naquele lugar. É de um prédio que morei há pouco tempo e tive um amigo que morou nesse apartamento por algum tempo. Longe de ser um amigo inesquecível, muito pelo contrario, o tempo o levou. Mas me lembro de também já estar naquela janela, pensando em outras janelas. É uma dessas coincidências únicas da vida. Volto meu pensamento ao momento atual.
Acho que no fundo, não me interessa tanto o que se acontece naquele espaço, só gosto de criar histórias. Quero imaginar que naquele momento, tem alguém sentado numa poltrona confortável, tomando um bom conhaque e ouvindo uma musica bem atmosférica. Olhando pela cortina, que agora reparo estar entreaberta, e filosofando sobre a noite e seus acontecimentos. Ou quem sabe apenas dormiram e esqueceram a luz acesa. Será que há dentro do meu campo de visão, também com a luz apagada, escrevendo nesse momento? Espero não descobrir, a graça é imaginar.