Antes da leitura desta postagem, corre lá no Spotify e dá play na playlist especial preparada com a temática de ONE DAY AT TIME! Ela pode ser encontrada aqui.
SINOPSE
Remake de uma série homônima de 1975, One Day At Time apresenta a rotina de uma família de núcleo cubano-estadunidense. Cada episódio aborda temas delicados como consumo de drogas, gravidez na adolescência, homofobia, xenofobia, depressão, intolerância religiosa, entre outros, mas de forma bem-humorada e cativante. É importante ressaltar que a família, núcleo central da série, é composta por três gerações vivendo seu dia a dia a partir de suas experiências individuais, partilhando dos costumes cubanos enraizados e discutindo sobre seu pertencimento dentro de uma sociedade tão xenófoba quanto os Estados Unidos.
One Day At Time é uma comfort série com a pitada necessária de problematização e drama, sem deixar de lado a capacidade de conferir ao telespectador algumas boas risadas.
CONTEXTO HISTÓRICO
Com dois territórios espanhóis localizados na bacia caribenha, Cuba era o local que mais despertava interesse dos Estados Unidos no século XVIII e XIX devido a sua localização estratégica que permitia o controle daquela parte do Mar do Caribe e também por estar próximo do solo estadounidense de modo que poderia servir de base para a agressão armada europeia. Além do quê, a fragilidade de sua estrutura colonial foi evidenciada quando o Reino Unido se apossou de Havana, devolvendo-a a Espanha em troca do território da Flórida o que, por sua vez, explicava o interesse dos EUA em adquirir aquela ilha; assim, em 1809, Thomas Jefferson reforçou em uma carta a James Madison, seu sucessor, que Cuba era uma adição pertinente e muito relevante aos Estados norte-americanos.
Muitos anos depois, já em um outro cenário político, Fulgêncio Batista liderou um golpe militar que foi apoiado pelo governo dos EUA, que suspendia a constituição vigente e lhe conferiu o cargo da presidência. Seu regime foi marcado por quadros graves de corrupção e violência policial, além de um claro descaso para com as necessidades mais essenciais da população civil enquanto a elite, uma minoria, era privilegiada e valia-se dos capitais estadounidenses para nutrir seu elevado padrão de vida. Esta má administração de Batista fez com que inúmeros movimentos de oposição surgissem, sobretudo em relação ao imperialismo norte-americano em território cubano.
Deste modo, uma vez que a população aderiu às perspectivas revolucionárias, o chamado Exército Rebelde, foi incorporado à luta, sendo conduzido por Fidel Castro, seu irmão Raul e Che Guevara. Assim, em 1958, Batista abandonou o poder - após perder eleições convocadas - e fugiu com sua família para a República Dominicana, sem suporte dos Estados Unidos. O governo provisório instalou-se em janeiro de 1959 e Fidel Castro foi nomeado primeiro ministro, anunciando que “a última guerra pela independência e liberdade de Cuba tinha sido vencida”.
É a partir deste contexto que abordaremos as principais questões por trás do cubanismo/cubanidade presente em One Day At Time.
O NÚCLEO FAMILIAR
Foi necessário dar esse pequeno background a vocês porque ele é importante para entender o ponto de partida de onde se encontra a série. A narrativa se baseia no fato de que uma das partes do núcleo principal é a avó Lydia, fugida do governo de Fidel Castro. A mulher sempre fala do medo e do desespero que a tomou quando os comunistas chegaram ao poder e como ela escapou para os Estados Unidos em um ato de esperança, deixando muito de sua família para trás. É Lydia, também, a principal responsável por resgatar os maiores costumes cubanos/latinos da família, como ocorre quando faz questão da quinces (festa de 15 anos da neta) ou que a filha dê preferência a se envolver com outros homens latinos.
Por falar nela, Penélope, filha de Lydia, é uma enfermeira e ex-combatente nas ocupações norte-americanas no Afeganistão. Já nascida nos Estados Unidos, é uma peça fundamental do desenvolvimento da trama, uma vez que luta para criar os filhos com valores cubanos e também estadounidenses. Ela é a ponte que ajuda os filhos nas questões que envolvem o dia a dia no tocante à xenofobia que sofrem, uma vez que ela já passou por isso também.
Por último, mas não menos importante, Alex e Helena, filhos de Penélope e netos de Lydia. São irmãos com alguma diferença de idade; um dos aspectos mais abordados na relação entre eles, é o fato de um ser um menino e a outra, uma menina. Deste modo, os valores sociais latinos se reproduzem de formas variadas em cada um, a exemplo do tratamento superprotetor que Alex recebe para que se torne um homem valoroso e virtuoso, galanteador e cavalheiro, como Lydia sempre reforça, enquanto Helena é tratada com mais seriedade e forçada a se portar de uma maneira mais além do esperado pelo simples fato de dever se tornar uma “mulher forte e cubana”.
OS TEMAS ABORDADOS
Acredito que um dos principais tópicos abordados por One Day At Time seja a xenofobia/imigração. Lydia sempre aponta como chegou aos EUA sem saber falar inglês e como se apegava a qualquer coisa que pudesse preservar as lembranças de sua terra Natal, como revistas ou continuar falando espanhol mesmo quando a censuravam. Penélope comenta, mais de uma vez, como foi difícil para ela ser uma mulher nascida nos EUA, mas de família latina e como a sociedade lidava com ela, enquanto Alex e Helena testemunham espectros diferentes da xenofobia que sofrem, uma vez que Helena, como já foi comentado em alguns episódios, é vista como “branca”, por possuir uma aparência mais hispânica e menos latina – além do fato de Lydia reforçar um caráter mais racista da colonização europeia em Cuba, principalmente ao apontar que “cubanos são brancos”.
Um episódio sobre isso: Episódio 12 da Segunda Temporada. “Cidadã Lydia” retrata o processo de cidadania da personagem, que hesitava em se registrar oficialmente como cidadã dos Estados Unidos pois não queria perder sua “conexão cubana”. No fim das contas, ela consegue conciliar as duas cidadanias que tanto ama.
Depressão/veteranos de guerra. Esta temática é bastante interessante, na minha opinião, uma vez que não é muito comum que séries abordem questões envolvendo saúde mental, principalmente daquelas pessoas que serviram em algum tipo de guerra. No caso, Penélope reforça com veemência que a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático foi um dos responsáveis por seu divórcio com Victor, pai de Alex e Helena, uma vez que o homem não conseguiu superar os traumas dos episódios e se afundou em bebidas e remédios que prejudicaram sua relação com a família, colocando-se em risco. Outra forma de abordar essa questão, é no meio de uma discussão, em um episódio, onde todos descobrem que Lydia guarda uma arma em casa. Neste ponto, Penélope indaga à mãe se ela sabe o que poderia acontecer agora que sabem disso, uma vez que ali moram uma ex-veterana de guerra (que toma remédios controlados) e dois adolescentes em desenvolvimento, sendo um deles gay.
Um episódio sobre isso: Episódio 09 da Segunda Temporada. “Olá, Penélope”, que aborda as consequências da personagem ter abandonado seu tratamento com antidepressivos sem falar com ninguém, por julgar que sua vida estava “perfeita” e não precisava mais do auxílio de remédios. É um episódio tocante, comovente, que certamente arrancará lágrimas das pessoas mais sensíveis; e um episódio que fala sobre os veteranos de guerra e como eles são tratados após servirem, é o episódio 07 da Primeira Temporada, quando Penélope enfrenta uma burocracia enorme para agendar um atendimento simples para tratar de um ferimento de guerra (um deslocamento no ombro fruto de um bombardeio em um hospital onde ela servia no Afeganistão). Menção honrosa ao episódio em que Penélope se lembra de quando ela e Victor ganharam Helena, em 2001 e estavam montando sua família, quando o atentando às Torres Gêmeas mudou o rumo das coisas, uma vez que as relações dos Estados Unidos com a necessidade de levar “democracia ao Oriente Médio” com outras nações árabes foram bastante abaladas – sobretudo na questão do Afeganistão.
Vícios. Outra questão delicada trabalhada com louvor pelos roteiristas de One Day At Time, é a adicção. No caso, fala-se muito dos problemas de bebidas e drogas ilícitas que um outro personagem, chamado Schneider, tem consigo. Por outro lado, foca-se também na situação de Victor, ex-marido de Penélope, de quem ela realmente gosta muito, mas desenvolveu problemas com bebidas e remédios que, como já mencionado anteriormente, afetaram sua relação com toda a família – a ponto de Lydia, a que mais defendia o homem, expulsá-lo de sua casa em determinado episódio, quando ele dizia que havia mudado e que estava “limpo”, mas decepcionou a todos com a mentira.
Um episódio sobre isso: Episódio 12, Primeira Temporada, “Furacão Victor”. Neste episódio, Victor aparece de surpresa um pouco antes da festa de 15 anos de Helena. É a primeira vez que se reencontram depois do anúncio da separação; Penélope fica confusa com seus sentimentos e acredita que ele possa ter resolvido suas questões com vícios, mas quando se prova o contrário, a situação se torna caótica e bastante triste, principalmente porque ele apresenta resistência em relação à orientação sexual da filha, Helena.
É isto! Este foi o post sobre outros aspectos por trás da brilhante One Day At Time. No blog vocês encontrarão mais algumas citações sobre a série, memes, gifs… Divirtam-se!
Referências
FERNANDES, Florestan. Da Guerrilha ao Socialismo: A Revolução Cubana. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979. Acesso em: 21 jun. 2021. MEUCCI, Isabella Duarte Pinto. Estados Unidos e América Latina: o caso de Cuba no pós-guerra fria. Anais do V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina. Disponível em: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/v10_isabella_GIV.pdf. Acesso em: 21 mar. 2021. MORRONE, Priscila. Capítulo I: A Revolução Cubana e o processo migratório para os Estados Unidos. In: A Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA) na política externa dos Estados Unidos para Cuba. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) - Programa San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP). São Paulo, 2008, pp. 13-52. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/96285/morrone_p_me_mar.pdf?sequence= 1 & isAllowed=y. Acesso em: 22 mar. 2021. SCHILLING, Voltaire. Estados Unidos x América Latina: as etapas da dominação. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984. Acesso em: 22 jun. 2021.
RECOMENDAÇÕES: Para finalizar, queria deixar aqui um vídeo da minha queridissima amiga Iris, que aborda com mais profundidade outros aspectos dessa série incrível! O canal dela é sobre cultura pop num geral e é super divertido. https://youtu.be/a5-A0-Ux3jU


















