A GUINÉ EQUATORIAL SOB O OLHAR DA BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS
No ano de 2015 o G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis garantiu sua décima terceira vitória no Carnaval carioca com o desfile “Um Griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”. O Departamento de Carnaval e a Comissão de Carnaval da escola, compostos naquele momento por Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo, informaram que
Empenhados em promover o encontro das bandeiras de duas nações fraternas, num majestoso festejo popular, onde a língua portuguesa é apenas mais um elemento de afinidade, objetivamos consagrar o enlace cultural entre o Brasil e a Guiné Equatorial, brindando os ideais de unidade, paz e justiça (BEIJA-FLOR, 2015).
Este objetivo, de certa maneira, foi alcançado pela escola, haja vista o título de campeã que recebeu naquele ano. Narrando episódios da história da Guiné Equatorial, país localizado na África Central, e articulando-os a elementos afro-brasileiros, a Beija-Flor levou para a Marquês de Sapucaí um desfile luxuoso, o qual inclusive abriu margem para investigações do Ministério Público Federal sobre uma doação milionária (entre cinco e dez milhões) recebida pela escola. O benfeitor seria o ainda presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, que governa o país com mão de ferro impondo um regime ditatorial (PUFF, 2015).
Por outro lado, tal fato, apesar de bastante polêmico, não foi capaz de minar a importância alcançada pelo desfile do ano de 2015 da Beija-Flor de Nilópolis que, logo de início, levou para a avenida a figura do griô. De acordo com Ki-Zerbo (2010), os griôs são, grosso modo, os “velhos sábios”, receptáculos das histórias de grupos e tribos africanas que têm na tradição oral sua principal forma de preservação da cultura. Por isso, Ki-Zerbo (2010, p. XXXIX) ressalta que
Cada vez que um deles (griôs) desaparece, é uma fibra do fio de Ariadne que se rompe, é literalmente um fragmento da paisagem que se torna subterrâneo. Indubitavelmente, a tradição oral é a fonte histórica mais íntima, mais suculenta e melhor nutrida pela seiva da autenticidade.
(Reprodução: Carnavalesco)
Daí decorre a importância alcançada pelos griôs em meio a estes agrupamentos sociais da África que tanto sofreram com o início, por volta do século XV, do tráfico transatlântico de escravizados, o qual dilacerou culturas, histórias, grupos e tribos. A Guiné Equatorial, por meio de sua história, faz parte deste contexto.
Ao explorar o Golfo da Guiné, Portugal, na busca pelo caminho das Índias, coloca a Formosa Bioko nos mapas europeus. D. João II de Portugal (que reinou de 1481 a 1495), proclamado Senhor da Guiné, junto com os portugueses, inicia a colonização das ilhas de Bioko, Ano Bom e Corisco, convertendo-nas em postos destinados ao tráfico de escravos (BEIJA-FLOR, 2015).
O samba-enredo deste desfile da Beija-Flor (o qual pode ser ouvido clicando aqui) foi puxado por ninguém menos que Luiz Antônio Feliciano Marconde, o Neguinho da Beija-Flor. O início da canção trouxe justamente a figura central do griô, o qual foi, no âmbito da construção artística, o responsável por narrar a história apresentada na Marquês de Sapucaí:
Vem na batida do tambor / Voltar na memória de um griô / Fala cansada, mãos calejadas / Ouça o menino Beija Flor (BEIJA-FLOR, 2015).
O samba-enredo também, como é possível imaginar, trouxe consigo aspectos da história da Guiné Equatorial, em especial a exploração empreendida pelos portugueses na região:
O invasor singrou o mar / Partiu em busca de riquezas / E encontrou nesse lugar / Novas Índias, outras realezas / Destino trocado, tratado se faz / Marejam os olhos dos ancestrais (BEIJA-FLOR, 2015).
Não obstante, determinados elementos da intersecção cultural forçosamente construída a partir do tráfico transatlântico de escravizados, os quais eram capturados na Guiné e enviados pela Coroa portuguesa ao Brasil, também foram objeto do samba-enredo, além de terem sido tratados em alas e alegorias:
Olha a morena na roda e vem sambar / Na ginga do balélé, cores no ar / Dessa mistura vem meu axé / Canta Brasil! Dança Guiné! (BEIJA-FLOR, 2015).
Este desfile da Beija-Flor de Nilópolis teve sua relevância, porque trouxe para o debate a história de um país africano, a Guiné Equatorial, que, até então, era pouco tratado. No passado, como mencionado, este país sofreu com a ação de portugueses que buscavam abastecer o tráfico transatlântico de escravizados. No dias atuais a Guiné Equatorial é alvo de um regime ditatorial. Apesar deste último aspecto não ter sido abordado pela escola, ele foi repercutido, naquele momento, pela grande mídia.
É o Carnaval gerando debates, fomentando olhares mais atentos e reflexões para além da festa.
BEIJA-FLOR. Um Griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade. Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: <https://www.beija-flor.com.br/2015>. Acesso em: 15 de outubro de 2021.
KI-ZERBO, Joseph. Introdução Geral. In:___ (org.). História geral da África I: metodologia e pré-história da África. 2. ed. Brasília: Unesco, 2010.
PUFF, Jefferson. Anistia pede 'transparência' após enredo polêmico da Beija-Flor. BBC News Brasil, 2015. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150214_beija_flor_guine_polemica_jp>. Acesso em: 16 de outubro de 2021.