agora que você faz parte da estatística nós fazemos parte do que resta

Love Begins
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Discoholic 🪩

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hello vonnie

titsay
🩵 avery cochrane 🩵

if i look back, i am lost
Misplaced Lens Cap
I'd rather be in outer space 🛸
EXPECTATIONS
PUT YOUR BEARD IN MY MOUTH
macklin celebrini has autism
Three Goblin Art
cherry valley forever
𓃗
Lint Roller? I Barely Know Her
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@minha-estante
agora que você faz parte da estatística nós fazemos parte do que resta
Gone With the Wind, 1939
querida eu do passado, sinto muito que você sinta tão pouca satisfação com você mesma. ainda sei na pele da sensação de que é preciso perseguir o impossível, porque o atual nunca é suficiente. sinto muito que você se sinta tão desapontada quando se vê. não entendo as raízes disso e elas parecem ser profundas. saiba que há algum tempo estou cavando em busca de tirá-las da terra e colocá-las no sol, na luz. às vezes me sinto mais perto, às vezes longe demais, mas, de qualquer forma,
estou caminhando.
a ausência que recebe seu nome será sempre ausência não só à oeste mas também à leste norte sul e centro bem no meio à frente e atrás de tudo
mas também será lembrança e será aos poucos cercada preenchida e transbordada pelo que resta: nós mesmos e ainda você.
tenho medo dos seus últimos momentos da sua solidão e da minha
abro os olhos (penso que de verdade) identifico mesa, cadeira, quarto livro, cama, quadro na parede, um roupão ao lado, estante
abro os olhos de novo (tem que ser de verdade) identifico mesa, cadeira, quarto livro, cama, quadro o relógio é um borrão o sonho é um instante
abro os olhos de novo (o que faz ser verdade?)
planner
alô? bom dia estou ligando pra confirmar meu horário com a doutora na sexta-feira. sim, às quinze horas não, não pode ser mais tarde. porque eu tenho compromisso. às dezessete em ponto eu tenho que estar no escritório de volta. sem atraso nenhum. como assim? eu sei que se a consulta começar mais tarde provavelmente ainda dá pra chegar a tempo. mas tem que ter a margem de erro. tá no meu planner: sair da consulta às dezesseis pra ter tempo pra chegar tranquilamente no escritório às dezessete. em ponto. como? espera, eu preciso checar no meu planner. eu to no meio da rua falando no celular, fica difícil fazer isso agora. não, não consigo em outro dia da semana. hoje é impossível, estou com todos os minutos planejados. tá na minha agenda. amanhã também não dá. tenho que fazer uma hora de academia, depois cinquenta minutos de pilates e depois já entro no trabalho. tenho meia hora de almoço contadinha pra dar tempo de ensaiar a apresentação antes da reunião das catorze horas. e aí já acabou o horário comercial. parece até que o dia precisa de mais horas né? por favor, fala mais alto. assim tá difícil. eu to andando na rua a caminho do meu personal coaching. não to conseguindo ouvir direito, tá muito trânsito. quase me acertaram de bicicleta aqui. não, na quinta também não consigo, tenho muita coisa pra fazer. faz ela me atender na sexta. encaixar? como assim encaixar? não tenho tempo no meu planner pra encaixar nada não, tem que ser muito bem planejadinho. se a doutora não pode me atender na sexta é melhor deixar pra semana que vem. olha, se ela só tem outro horário daqui a dois meses então faz ela me atender no meu horário normal, cacete. eu já marquei faz um mês. tá marcado à caneta na minha agenda. não dá pra simplesmente apagar. to perdendo a paciência com essa história. não tenho tempo de sair do meu horário. tá parecendo que você aí precisa de uma ajuda pra ajeitar seu planner. tá tudo desorganizado. hoje em dia ninguém tem tempo pra ficar mudando de horário, porra. depois, nas minhas duas horas de tempo livre por dia, eu te mando um vídeo que mudou minha vida. vou pedir de novo pra você falar mais alto, meu deus. tem muito carro buzinando aqui. não to conseguindo prestar atenção no trânsito com você pedindo pra eu mudar meus planos desse jeito. parece até que eu to fazendo merda, atravessando no sinal verm...
25 de novembro
A morte de Edmea foi como ficção em vários sentidos. No primeiro e mais primordial, porque não parece verdade - nem mesmo hoje, exatamente um ano depois. No segundo e mais lírico, porque tudo pareceu uma narrativa lírica inventada por sabe-se lá quem - se fosse pra chutar, ela diria que por Deus. Eu, desconfiada e indecisa que sou, acreditando em tudo sem acreditar em nada, deixo às mãos do universo (embora admita que quem quer que tenha criado a história dela fez um trabalho sublime). No ano de sua morte, Edmea foi ficando fraquinha. Nos quarenta e cinco do segundo tempo, descobrimos que foi devido a um câncer que se espalhava dentro dela e ia consumindo o que achava pela frente. Já não tinha nada a ser feito (o que é irrelevante, de qualquer forma, já que ela provavelmente teria pedido que deixássemos as coisas seguirem seu rumo natural). Assistindo tudo sem saber de nada, no entanto, foi como ver as cenas de Cem Anos de Solidão tomando vida. Ela foi diminuindo aos pouquinhos, ficando pequenininha. Foi se deitando devagar, dando tempo pra todos se acostumarem à possibilidade de não tê-la por perto. Olhando pra trás e de longe como a espectadora que fui, não acho nada disso mórbido. Acho que foi um jeito de prolongar sua estada, ao invés de partir de repente e deixar a gente sem ar. Pra mim, foi um ano de lenta, mas bonita despedida. Sempre que nos encontramos em seu último anos tirei muitas fotos e gravei vários vídeos: em algum lugar nas entranhas, eu sentia que o tempo corria. Apesar de seus esforços para nos poupar de um golpe fatal, nós realmente ficamos sem ar com sua partida. Daquele 25 de novembro até esse, foi como se houvesse um pouquinho menos de oxigênio disponível pra inalar. Respiradas fundas e suspiros têm sido difíceis desde então, porque tenho um peso no peito do tamanho de sua presença - e ela era grande, enorme, Gigante como a fábrica de doces da cidade em que passou a maior parte da vida. Durante todo o tempo do velório, senti que essa falta de ar também se espalhou por Santa Rita. Foi um dia fúnebre pra maioria das pessoas daquela cidadezinha de infância que brota no meio das montanhas de Minas. Edmea era largamente conhecida por seu fortíssimo senso de bondade e de justiça. As caridades feitas diariamente por ela estão em todas as esquinas, na praça, na igreja principal da cidade. Acredito piamente que suas ações e sua existência serão lembradas com carinho e pesar por tempos a vir. No começo do ano, viajei pra Patagônia e ouvi a lenda de fundação de uma cidade nomeada ao calafate - uma frutinha roxa abundante na região. Segundo a lenda, um povo nômade teria se abrigado em um conjunto de cavernas à beira do imenso Lago Argentino, onde a cidade é hoje. Com a chegada do inverno, no entanto, eles tiveram que se locomover, seguindo o rastro dos animais migratórios. A anciã da vila, sentindo que era chegada a sua hora, estabeleceu que os esperaria voltarem ali com comida quando pudessem. Quando o povo regressou, encontrou uma árvore repleta de frutos onde haviam deixado a anciã. Ela teria, antes de ir, se transformado na árvore, para que sua família não tivesse mais que passar fome enquanto estivesse ali. A história me emociona, porque sinto que Edmea assim teria feito se pudesse. E talvez até tenha. Receosa de que passássemos saudade, virou uma abundância de lembranças. Por isso, nesses primeiros doze meses sem ela, deixo uma singela homenagem. Quando eu era pequena, vendo tudo o que minha avó era e toda a fé que tinha, achava que ela só podia ser eterna. Não era possível que Deus teria colocado uma pessoa como ela na Terra para privar-nos dela depois. Achava que tanta gentileza tinha que servir pra alguma coisa: pra ficar pra sempre aqui, ajudando e simplesmente sendo. Agora, depois de um ano sem ela, mantenho minha opinião, mas de um jeito diferente: biologicamente, entendo que não tem como sermos eternos. Um dia a vida se esgota, a gente se esgota. Espiritualmente, no entanto, a gente consegue ser - e ela é: enquanto nós, familiares e amigos, estivermos aqui existindo, ela também vai estar. Sua lembrança estará em todos, de forma mais ou menos forte, até que nós, como ela, formos diminuindo nossas presenças e passarmos para outro lugar.
Seresta
quando perguntarem
a causa de minha morte
diz que foi lá no meio de minas
nas pedras de Ouro Preto
vendo o povo sair na rua
como se fosse triste festa
pra cantar:
morri de seresta
e disso jamais vou me recuperar
às vezes fico tentando reproduzir cheiros únicos pra acender na memória certas lembranças. o da minha avó, por exemplo, eu acho que era uma mistura de leite de rosas com talco. tentei passar os dois e nada. adicionei um pouco de yamasterol, que ela usava desde quando não era moda, mas também não adiantou. o da minha tia eu acho que era um misto de cigarro com perfume e, talvez, um toque de creme para as mãos. não tenho pistas, no entanto, da marca do tabaco nem do tipo de perfume que ela mais usava. sei que o cheiro dela ficou numa camisa um tempo, mas acabou saindo. eventualmente lavaram a camisa sem querer, e agora é só um tecido comum que eu uso de vez em quando. o do meu avô eu já nem tentei reproduzir: sei lá como, era cheiro de roupa com cheiro de deitar na barriga dele pra ver tv. sinto que eu vou passar a vida tentando sentir esses odores no ar. ocasionalmente, alguns me são familiares, mas nunca é a versão completa. acho que tem a ver com como cada pele reage a cada fragrância. talvez os cheiros, como as pessoas, eventualmente evanesçam mesmo. e tudo bem: nós, que continuamos aqui, sabemos no fundo da memória exatamente a mistura que eles tinham.
sobre a insônia não tenho muito entendimento tenho a dizer apenas que não aguento mais estar na minha cabeça tanto tempo
365 dias ao ano
Alguns sons e cheiros ficam marcados na gente ao lado de certos momentos. O odor de leite de rosas (seja do pote azul, verde ou rosa), por exemplo, me lembra desde sempre da minha avó. E Into my arms, do Nick Cave, é uma música linda que me remete a contextos tristes: no caso, o do velório do protagonista do filme Questão de tempo. Gosto muito da mensagem desse filme. Com leveza e delicadeza, ele tenta incentivar as pessoas a viverem todos os dias em seus máximos potenciais. Situando melhor a divagação: no longa, o personagem principal descobre que herdou do pai o poder de voltar no tempo para qualquer dia que já tenha vivido. Ao final, no entanto, ele entende que não é preciso viajar pelas veredas cronológicas do universo se você encarar seus dias como se eles sempre fossem as melhores versões possíveis que você poderia viver. É claro que, pra chegar a essa conclusão, o protagonista precisa passar por algum tipo de situação reveladora. Para ele, isso equivaleu à resolução de um conflito difícil: ele deveria escolher entre poder voltar no tempo sempre que desejasse à época em que seu pai ainda era vivo ou deixar o passado em seu lugar e encarar o futuro e suas possibilidades imutáveis. Depois de uma despedida encantadora, ele resolve - como o bom herói romântico e esclarecido que esperaríamos de uma história assim - seguir em frente. Mesmo desapegando do passado, é preciso entender que algumas marcas ficam. Pra ele - e pra mim, admiradora do filme que sou -, possivelmente, algumas coisas estarão sempre relacionadas à lembrança de seu pai. Compartilho do sentimento: comprei recentemente um pote (rosa) de água de colônia pra, de vez em quando, limpando desapercebidamente o rosto, pudesse sentir o cheirinho da minha avó. Isso não o impede, no entanto, de fazer um esforço pra olhar a vida através das melhores lentes. Se você tiver ficado inspirado como eu a viver 365 dias ao ano com otimismo inabalável, mas tiver percebido que fora do cinema isso é na verdade bem difícil, fica uma dica: tentei me trancar em um lugar escuro que nem o protagonista faz antes de viajar no tempo pra ver se sortia algum efeito. Não deu em nada. Já te poupo, então, dessa tentativa. Prosseguimos tentando.
Às vezes eu me sinto sozinha
Com muita gente por perto:
Mesmo estando cercada
Não conheço ninguém ao certo
Uma comparação mórbida
Há alguns anos, uma pessoa especial para mim morreu. Quando, no velório, eu me recusei a ver seu corpo disposto em um caixão explodindo de flores, me falaram para não ter medo: aquilo era apenas uma casquinha. Tudo o que dava vida àquela casquinha não estava mais ali. E, embora até hoje eu não saiba para onde foi tudo aquilo - se para os reinos ultramundanos de algum deus; se para a infinitude do universo; se para o simples nada, pois quando morremos apenas cessamos de existir -, a metáfora ficou guardada em algum lugar aqui, dentro desse envoltório chamado (meu) corpo.
Hoje, assistindo a um filme, ela ressurgiu. Enquanto via (como sempre) um longa estadunidense sobre a famigerada high school, um personagem falou a outro um clichê - algo no campo semântico de “o que importa é o que tem dentro”. Ainda que, na maioria das vezes, essas mensagens passem despercebidas, sendo meras constituintes de um roteiro idealizado e utópico, hoje eu parei pra pensar.
No final das contas - no final mesmo; no momento derradeiro em que toda a nossa essência partiu sabe-se lá para onde -, somos mesmo casquinhas. Fisiologicamente, um punhado de coisas aqui dentro trabalha em conjunto e coloca a gente pra funcionar. Espiritual e filosoficamente, uma substância completamente abstrata e impalpável nos preenche e nos dá pensamentos, ânsias, sentimentos, vida. E, se do pó viemos e para o pó voltaremos, qual seria o real sentido de se preocupar com a tal conchinha que nos envolve (exceto por motivos óbvios de saúde; além da casquinha perfeita, o que mais costumamos querer é prolongar nossa estadia por aqui)?
Em condições que não são nem de longe majoritárias - estatisticamente, muita gente tem assuntos mais urgentes pra tratar do que com a aparência -, é difícil parar de se importar totalmente, no dia a dia, com o que seu exterior exibe. Mas, considerando (muito otimisticamente) que tudo isso é uma passagem ínfima por um mundo concreto e aparentemente sem sentido, pretendo cuidar melhor da mente por trás da casquinha do que dela em si. Nesse momento de profunda sobriedade e conexão com o cosmos, pelo menos. Sabe-se lá o que eu vou arrumar pra cabeça amanhã.
Um pequeno texto difícil de ser escrito
Em algumas palavras, o prefixo “-en” me passa a ideia de algo que envolve. Encobrir, por exemplo, significa ocultar; disfarçar. Enluvar pode ser tanto simplesmente vestir luvas quanto embrulhar. Com encapar, a mesma coisa - é literalmente colocar/criar uma capa, mas também é revestir. E a lista continua: enclausurar, encapuzar, encaixotar...
Descobri que enlutar se encaixa nesse padrão. Parece que a palavra não se refere apenas ao sentimento de luto; mais que isso, representa o cobrir-se de luto. E embora, gramaticalmente falando, ela esteja na categoria dos verbos transitivos, na vida real enlutar-se pode ser algo permanente.
Já perdi familiares antes. E, ainda que eu frequentemente fuja dessa realidade, sei que ainda vou perder mais. Mas a sua ida tem sido diferente. Vi bem de pertinho, com meus próprios olhos, que você não estava mais entre nós. Mas o sentimento de perda persiste, me cobre e me envolve.
Parando pra pensar, existem diversos tipo de água no mundo, movimentado-se ou ficando paradas de diferentes maneiras. Às águas imóveis que preenchem um buraco de dimensões variáveis dá-se o nome de lago. As finas veias que cortam superficialmente a terra são chamadas de córregos - ao passo que, em proporções muito maiores, os fluxos volumosos são rios. E, como a de qualquer transeunte em busca de um lugar no mundo, a vida das águas correntes também chega ao fim: o cemitério dos córregos, rios, riachos, canais e afins é denominado oceano.
Ainda à semelhança dos animais racionais terrestres, diferentes fluxos aquáticos possuem diferentes características e personalidades. Pode-se dizer que um pequeno riacho, por exemplo, costuma correr sereno em lugares pouco acidentados. Sua voz é suave e baixinha - é preciso chegar perto para ouvir o que tem a dizer. Em situações ideais, são cristalinos e rasos, mostrando com clareza o solo sobre o qual viaja.
Já um rio tem, por definição, maior volume de água - o que significa que, em equivalência, sua correnteza age com muito mais força. Embora seja mais perigoso, pode percorrer maiores distâncias com a mesma intensidade. Chega, por isso, com mais força ao fim.
A imensidão dos oceanos é inversamente proporcional ao que deles se conhece. São tão profundos, imprevisíveis e vastos que não se sabe sequer o que começar a desbravar. Fala mais alto que outras porções de água: é possível ouvi-los ou mesmo senti-los a muitos metros de distância. Nas praias, onde são mais frequentados, costuma-se achar que são calmos. No entanto, os que são dessa opinião se enganam: um oceano faz o que quer.
Dizem que o corpo de um ser humano é constituído de 80% de água. Ou seriam 70%? Talvez 90? Não me lembro ao certo. Só fico imaginando qual a porcentagem de cada tipo de fluxo dentro de cada pessoa. Uns devem ser bem mais oceano do que córrego. Outros, mais lago do que rio. Outros, uma misturinha de riacho, cachoeira e mar. E é bonito pensar que todos esses fluxos acabam, afinal, no mesmo lugar.