A sina da Rainha de Copas
Eu estou aqui, cara.
Pode vir que não tem jeito, né?
Me persegue há anos, me seguindo nos meus sonhos, nos meus pesadelos, nos meus mais terríveis erros.
Essa brincadeira que você adora fazer comigo, meu mais delicioso demônio. Não se equivoque, já estamos aqui, não se faça de bobo. Era isso que você queria, meu velho amigo.
“Nem sempre, minha cara. O demônio de cada humano habita o vale das sombras, mas estamos aqui para quebrar as máscaras. É da suas profundas vísceras que eu existo.
Afinal, somos um só”.
E ele estava certo. Meu demônio particular, criado da minha sombra, do meu vale dos pesadelos. Na minha escuridão mais profunda, você habita, e finca raízes nos meus defeitos, nas minhas angústias e nos meus medos. Sua face é irreconhecível, em uma saudosa legião, seu rosto se sobressairia. Seus dentes afiados, prontos para rasgar a minha carne e sorrir, o sorriso dos lábios finos e irônicos. A maior das ironias? Eu não vivo sem você.
O demônio de um olho só me fita, esperando para brincar.
“Quer brincar, quer brincar? Vem brincar, minha amada, vem aqui. Pique esconde? Pirulito que bate-bate? Amarelinha? Que tal amarelinha? Você me dá a mão e a gente caí no inferno”.
Estou presa naquele quarto escuro, e ele não para de correr dentro do meu âmago, berrando todas as minhas angústias.
“Aquela vez no posto, lembra? do moço que você quer fingir que ainda não te causa arrepios. Você não tem coragem de contar a ninguém, nem de admitir a si mesma o quanto foi tola.
Nem coragem de contar seus erros da penumbra, os momentos em que você poderia ter dito “não” mas disse “sim”, porque é incapaz de ser melhor.
E aquela vez que você brincou com os sentimentos daquela menina, por inveja, por rancor? E o seu rancor, que você é incapaz de esquecer que ele existe. Ele está ai, comendo sua alma pelas beiradas.
E as vezes que você desejou a morte dos seus inimigos? E as vezes que você destruiu a alma daqueles homens que tanto queriam o teu afeto, mas você é incapaz de amar”
Não me venha com essas ideias, seu filho da puta. Sou escritora, sou artista, porra. É do gozo da vida que eu escrevo, é das vísceras dos sentimentos que eu produzo. Até do gozo dos outros, eu vivo! Sou escritora para ter inveja dos meros mortais e seus gozos sinceros, para escrever na calada da noite e para externar a lascívia da alma. Que não reclame dos meus gozos, que deles você não é dono! Não há do que se chocar.
Vem com o nu que eu me deleito, não há castigo na luxúria bem feita. É dos meus erros que as palavras escorrem pelos meus dedos.
“Ah, mas temos algo pior! Essa angústia que te toma por inteira, que eu não deixo você esquecer. Todos os dias seus olhos flutuando nas suas lágrimas e não há como ser diferente, essa doença te acomete, uma dor eterna. Que tal um pouco mais dela?”
Uma dor que não cessa, mesmo implorando para que se embora, mesmo berrando pelo fim do sentimento, ele se acomete pelo corpo inteiro. Nada mais parece possível de mudar, é uma escuridão que não termina, sinto o peso de todas as dores do mundo em minhas costas, e não sou deusa, o deus Atlas não habita em mim, sou incapaz de carregar tudo isso em minhas costas.
Ao fundo, bem dentro do meu peito, uma voz fala comigo. É meu anjo, talvez? É você, vovô? Por favor, que não seja o vovô. Não aguento imaginar que ele saiba de tudo isso, só queria que seu descanso fosse eterno.
Um sussurro delicado, digno dos mais tenros sonhos,
“O sol nasce para os justos e injustos, basta saber que as flores, seres mais frágeis da criança, sobrevivem virando a face para o Sol, o Deus Sol. Pare de olhar a escuridão, finque raízes no chão e cresce em direção a luz”
É uma lástima admitir, mas tem vezes que você só pede perdão.
Peço desculpas, meu demônio, pelos equívocos da minha existência.
Sou dessas mulheres que plantam girassóis para colher raios de luz.
Pode me olhar enfurecido, finque seus dedos podres em minha carne. Será com o meu sangue que regarei o meu jardim. Tal qual as rosas da Rainha de Copas, essa puta rainha louca, mas nada mais coerente do que ela. Pinte minha alma de sangue que, com ela, eu mancho meu jardim de vermelho vivo.
Quem agora tem medo de brincar?