sing for me, angel of music
urvoicerik:
Aquela noite havia trazido para Erik o seu maior triunfo. Tendo visto sua Christine cantar tão lindamente naquele palco havia sido o maior presente de sua vida, uma alegria imensa. Sua pequena ninfa finalmente pode brilhar, mostrar seus ensinamentos. E ah, como ela cantou! Certamente, para ter sido tão magnifica, tinha ele em seus pensamentos. Havia seguido seus avisos e conselhos. No peito do Fantasma, o coração batia acelerado, pronto para dar os parabéns ao seu único amor. Estava eufórico, o desejo de te-la em seus braços mais ansioso do que nunca. Tinha a vontade de gritar ou cantar suas vontades não apenas carnais. Ansiava pelos olhos azuis, pela voz doce, pelo conforto de sua presença. Erik não conseguia esperar mais. Levantou-se do chão e olhou para os lados. Sabia que não tinha sido visto, jamais era, muito menos naquele porão imundo. Fazia parte das sombras e a Ópera era sua casa. Conhecia cada túnel daquele lugar. Infelizmente, queria ter estado em seu acento particular no Box 5 mas havia sido impedindo. O maldito Visconte de Changny. Ah, se ele pusesse as mãos naquele garoto escravo dos modos parisiences! Nada sobraria. Erik tinha uns truques em sua manga. Não bastava querer tirar Christine, sua Christine, mas também tomava o lugar que ela dele por direito.
Não deixaria barato. Os patrões da Ópera iriam pagar por tal insolência. Não acreditavam nele? Pois com seu pequeno passe de mágica, iriam acreditar. Sim, seria melhor escrever uma carta para Madame Giry. Mas antes disso, precisava ver sua pequena. Era uma questão de necessidade colocar os olhos em Christine mesmo que ainda tivesse aquela dor no peito por conta de sua traição. Os gritos da jovem o perfuraram como nunca antes, e ele havia sentido o mais puro dos arrependimentos. Era triste, assim como sua existência. Subiu os túneis, chegando de frente ao espelho. Ah, bem na hora de vê-la entrar! Como estava linda… Sempre estivera, sempre fora, e sempre seria, mesmo quando sua face estivesse com marcas de idade. Sabia que sempre a amaria. Viu as flores dos fãs da jovem cantora. Ótimo, Christine merecia todos os presentes daquele mundo, toda a devoção vinda dos mortais. Era o mínimo que uma deusa deveria receber, e Erik não aceitaria menos. Escutou sua doce voz o chamando. Sim, o Anjo dela estava ali, pronto para acolhe-la e protege-la. – Minha doce Christine, sim, estou aqui – respondeu. Será que ela conseguia notar como sua voz tinha falhado? Como ela o influenciava da maneira que uma mulher bela afetava um homem? Provavelmente não. Ela era inocente e ele, o próprio Erik, não tinha conhecimento dessas coisas banais. Era o mais monstruoso dos seres e ainda sim, virtuoso. -- Vi como cantaste, vi quão magnifica foi! Toda Paris presenciou nosso triunfo, pequena. E meu orgulho não poderia ter sido maior – disse. Como era bom saber que, confirmar na realidade, que ele era o motivo de tão lindo canto. Pensou novamente em seu Box 5 e como Raoul de Changny havia pego seu lugar. Monstruoso, aquele homem. A respiração do Visconde já era uma ofensa para o grandioso Erik. Era próximo de sua Christine, havia pego o que era seu… E Erik não poderia deixar isso acontecer de novo. Não poderia deixar que lhe tirassem sua única felicidade, a luz de sua vida mergulhada em escuridão.
Estava na hora de apresentar para seu amor o seu mundo. Era escuro, mas belo, repleto de música. Não… Não poderia deixar que seus afetos fossem em direção ao outro. Era dele somente. Ela aprenderia o amar, sim, aprenderia! Com a máscara em seu rosto não haverá de ter problema algum. Sua decisão era perigosa, mas estava feita. Precisava dela. – Christine, anjo. – disse – Tocou minha alma, pois é o que faz sempre em que nos encontramos em cada aula, criança. Você chega até mim, me modifica, e agora… e agora tenho que impedir que se vá… – estava praticamente murmurando nessa última parte, para si mesmo. Sim, ela pertencia a Erik. Era sua escolhida. Havia provado que era tal naquela noite, em sua linda voz, voz que ele modelou a seu gosto, ao gosto da pura perfeição – Faça-me um favor. Caminhe até sua penteadeira! Lá, minha ninfa, encontrará uma singela rosa vermelha – havia deixado a flor quando ela partiu para se apresentar. Sabia que seria vitoriosa e a rosa era o presente dele para ela, além de ser seu guia nas horas difíceis. Agora, a rosa tinha outro propósito. – Caminhe até ela, sinta seu cheiro. Depois, e só depois, vire-se para mim novamente, doce pequena – estava preparado para abrir o espelho. Correu até uma manivela disfarçada de candelabro. Fumaça começou a sair de buracos entre os tiljolos. O doía a enganar assim, mas ela jamais poderia saber o caminho de volta.
Christine nunca seria capaz de descrever o que sentia a cada vez que aquela voz que tanto importava para ela, ressoava em seu singelo quarto. Era o seu bálsamo nos momentos de necessidade, e a perspectiva de nunca mais ouvi-lo, deixava a cantora em aflição. Acreditava que via-se tão dependente do homem por causa de seu pai. Ele era o ponto de ligação entre Christine e seu pai, e não lhe agradaria perder aquilo. Porém, algo dentro de si dizia o contrário. Ela era ligada ao seu anjo. Era ligada aquele de voz tão bela que parecia um presente dos céus ao mundo, e que se escondia por detrás das paredes, do espelho. Christine não conhecia tais sentimentos, entretanto não fora uma nem duas vezes que sentiu o peito agitar-se na presença de seu anjo, ou o estômago revirar, como se estivesse a mercê de algum mal. Apesar de não reconhecer tais sensações, Christine tinha fortes dúvidas de que era uma doença. Era seu Anjo, e tudo que ele trazia consigo. Ele havia a enfeitiçado com seu cuidado e dedicação, e uma vida sem ele, seria dolorosa, vazia.
– Acreditei que havia desistido de mim, Anjo. – o tom da jovem era repleto de magoa e pesar. Arrependia-se tanto de ter causado a cólera de seu mentor. Faria qualquer coisa para apagar aquele momento. Logo a ele a quem Christine tanto devia. O sorriso que crescia na face da garota era de orgulho, estava encantada por saber que seu guardião havia a visto. Era tudo o que queria. Que ele a assistisse, e sentisse orgulho por causa daquilo. – Ah meu doce Anjo! A única coisa em minha mente era você. Eu somente quis lhe fazer orgulhoso. Meu coração se enche de alegria por saber que consegui. – os dedos delicados tocaram o próprio reflexo, e a necessidade de o seu doce guardião ser algo palpável apenas aumentou. Queria experimentar um abraço, um beijo na face, um toque por parte dele. Sentir a textura de sua tez, o calor que ela emanava. Se fosse tão divino como Christine imaginava, sabia que seria algo pleno quando o encontrasse, se viesse a encontrá-lo.
As palavras do outro lado do espelho eram novas, mas um toque delicioso ao ver de Christine. Sabia da devoção que seu Anjo tinha por ela. Mas ouvir de forma tão aberta... Mais uma vez o peito aquecia-se, e ela sorriu sozinha. – Eu não vou, meu amado. Para onde poderei ir? Que lugar poderia ir se não até você? És tudo que preciso, Anjo. És tudo o que quero. – sussurrou a última sentença, envergonhada por admitir aquilo. E se ele não passasse de uma ilusão? Era ela apenas que o via. E se Christine fosse na verdade louca e o seu amado Anjo apenas existisse em sua mente inocente? Aquilo quebraria o seu coração. Ela nunca seria a mesma se tivesse que passar por aquela desilusão. Saiu de seus devaneios melancólicos com o pedido do outro. A cabeça moveu-se em concordância, e ela sorriu de forma doce. – Farei isso, meu amor. – o carinho presente em suas palavras era sincero. Acenou em concordância, caminhando até a flor assinalada. Assim como ele falará, uma bela rosa repousava solitária sobre sua penteadeira. Tomou a mesma em suas mãos delicadas, tendo o cuidado devido com os espinhos, enterrando o rosto no interior da flor. O seu doce impregnou suas narinas, e a pequena morena fechou os olhos momentaneamente, apreciando o aroma forte que a rosa trazia.








