P.O.V Crown of the black dawn
Their tears are filling up their glasses No expression, no expression Hide my head, I wanna drown my sorrow No tomorrow, no tomorrow And I find it kinda funny, I find it kinda sad The dreams in which I'm dying are the best I've ever had
Era inevitável que estivesse tão animada, afinal era uma festa que ela havia preparado com o comitê de eventos e como presidente dele, boa parte do crédito iria pra ela, assim como responsabilidade e afins. Fora que sua mãe estava ali, isso a deixava imensamente feliz! Mesmo que tivesse de ver os detestáveis Solaris ali também, poderia os ignorar se tudo ficasse perfeito como ela havia planejado. Tirou o pequeno espelho que carregava consigo para todo lado desde que havia o encontrado enquanto mexia em coisas antigas da mãe, sabia que Gothel não tinha a melhor das relações ainda com as irmãs, contudo, elas foram tão gentis com Estella quando falaram com ela pelo espelho que a loira resolveu que não faria mal algum lhes dar uma chance e desde então, sempre que precisava de algum conselho e a mãe estava muito longe, ela recorria às tias. E nada de mal havia saído daquelas interações até o momento, logo, nada poderia dar errado, não é?
—Vocês tem certeza de que todos vão mesmo gostar? Espero que pelo menos mamãe e Circe gostem, ficaria chateadíssima se elas não gostassem! — Comentou a loira de maneira animada, a única que ela possuía por sua condição solar, enquanto arrumava sua roupa para o evento em cima da cama. —Eu preparei tudo com muito carinho e se nada saiu do lugar, deve ter ficado tão lindo! Vou dar um jeito de mostrar pra vocês depois!
—Oh, querida, claro que Circe vai adorar já que se dedicou tanto, já sua mãe…
—Calada, Ruby! Não dê ouvidos para ela, sua mãe vai adorar também. — Garantiu Lucinda após uma cotovelada na irmã, parecia se esforçar para dar um sorriso gentil. —Vamos adorar ver tudo depois!
Nas sombras e luas, teu nome ecoa… A coroa anseia por tua presença, pessoa…
—Estella? Está nos ouvindo? Aconteceu algo? — Perguntou a voz de Martha, mas a D’Lune se encontrava perdida olhando em torno de si, tentando identificar de onde vinha a voz que apenas ela parecia ouvir.
Desperte teus sentidos, aceite o chamado… Na penumbra, teu destino é revelado.
—Eu preciso ir, tias, falo com vocês mais tarde. — Disse a loira de maneira abrupta pegando o pequeno espelho e o guardando em uma gaveta do quarto, sem ouvir as reclamações das irmãs esquisitas. Algo dentro dela parecia crescer, uma mistura de angústia e euforia. Sabia que precisava seguir aquela voz misteriosa, mesmo que não soubesse o por quê.
Estella, sob o manto da noite a dançar,
A coroa da aurora negra deves se entregar.
Pelos caminhos sombrios, vem sem temor,
O destino aguarda, ó flor de luz e dor…
E talvez ela fosse mais inteligente do que apenas seguir uma voz estranha pelos corredores de Devir, especialmente quando vários pais e diversos deles mágicos estavam por ali, mas era indescritível o chamado, não conseguia evitar. Fora que o nome coroa da aurora negra era um que ela se recordava de ter lido antes em um dos antigos livros que achou nas ruínas da velha mansão da floresta dos mortos, um item muito antigo que foi perdido com o tempo, mas que era dito como um presente divino dado pela própria Perséfone. Claro, Oriana jamais pensaria em si mesma para encontrar a coroa ou a usar, afinal, ela sequer tinha a forte conexão necromante da família, mas o que a voz dizia era… Sedutor demais para que não a seguisse. Então, ela seguiu pelos corredores que pareciam se tornar cada vez mais escuros conforme ela descia a torre da Floricide, aos poucos passou a notar um rastro de anêmonas roxas pelo chão, quase como se a guiasse até onde deveria ir.
Vem, Estella, à coroa da aurora negra seguir,
O poder das sombras está a te acolher
O fato de que eram anêmonas apenas lhe deixava mais certa de que talvez fosse a coroa de verdade, afinal, as flores eram associadas à deusa muitas vezes, especialmente por ser uma flor que nascia na primavera, uma flor que representava transformação e resiliência à sua maneira. Agora para Estella era como se não houvessem mais outras pessoas a sua volta, apenas a voz que lhe chamava e a trilha de flores ao chão que ela seguia até o salão comunal da Floricide, a trilha parando na frente do símbolo da casa a deixou confusa por um momento, contudo, quando estendeu a mão para tocar a roseira esculpida entre as espadas, a retraiu de imediato ao sentir um dos espinhos perfurar seu dedo. O sangue pingou sob o lema escrito logo abaixo e então o chão se abriu diante de Estella, mas não foi algo como escadas para que ela pudesse descer calmamente, não. A bruxa apenas caiu e a escuridão lhe engoliu.
Deixe para trás a euforia do sol a brilhar,
Nas sombras, teu verdadeiro eu irá despertar.
Não havia mais luz, não havia mais sol, tudo era escuro e quando sentiu o chão contra suas costas doeu como nunca antes. Estava escuro e ela sabia que em meio a escuridão, usar seus poderes era um perigo, mas que outra alternativa ela tinha? Não poderia sair dali se não se curasse. A dor era tanta que ela sequer conseguia gritar, apenas lágrimas de dor lhe encheram os olhos e o corpo inteiro brilhou enquanto se curava, mas nem mesmo isso parecia ser luz o suficiente para iluminar o breu em que ela se encontrava. Foi inevitável a fraqueza se sentiu após se curar, era como se a escuridão sugasse tudo que ela tinha, afinal, quem era ela sem o sol? Apenas doente e fadada a morrer… Não que ela exatamente falasse dessa parte para ninguém, já era demais que soubessem que os poderes dela precisavam de energia solar. E já estava de bom tamanho que Nereus soubesse que ela ficava fraca e moribunda quando toda a energia solar que tinha era desgastada, ninguém mais precisava saber de sua fraqueza e tinha dias que ela torcia para que o cérebro de peixe dele não tivesse percebido nada ou sequer lembrasse. Afinal, ele poderia até ter princípios, mas o Mortimer nunca foi seu amigo ou sequer gostava dela, parecia a desprezar na maioria dos dias. Ao menos Nerissa era boa com ela, mesmo que suas intenções claramente não fossem as melhores.
Estella, na aurora negra, segredos tu hás de tocar,
Abraça a escuridão, teu caminho a desvendar.
Em sombras, tua força florescerá,
Aceite a vulnerabilidade, a verdade se revelará.
Se ergueu do chão ao ouvir aquelas palavras, mesmo que fossem difíceis de compreender de primeira, como ela abraçaria a escuridão? Se entregaria aquilo que a matava à sua maneira? E então, ela se lembrou de quem aquele divino presente remetia, tudo na vida tinha seu preço e algo como a coroa da aurora negra não se revelaria a ela sem que ela desse algo em retorno. Estella respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos, nada aconteceu, ela tinha ciência disso. Então, ela fez o que sentiu que era necessário, não tinha mais o que curar em si mesma, ainda assim, usou os poderes como se tentasse se curar ou absorver mais de sua própria energia e fez isso até que sentisse que estava tonta e as pernas cederem a fazendo cair de joelhos no chão. Sentia a força e a energia saindo de seu corpo a deixando frágil, sem luz solar ela era apenas doente e patética, mas optou por ouvir o chamado e buscar sua força em meio a sua vulnerabilidade.
No entanto, naquele momento ela apenas se sentia fraca e debilitada, mesmo assim continuou até que não houvesse mais qualquer energia solar em seu corpo a fazendo cair por completo no chão de novo. Foi então que quase sem forças ela abriu os olhos outra vez e em meio a toda escuridão ela viu uma coroa feita de rapunzeis arroxeadas, cheias de detalhes prateados de luas e estrelas cuidadosamente desenhados a ela. Era a única coisa iluminada do cômodo inteiro, Estella tentou se erguer do chão, mas sequer tinha forças pra isso. Mesmo assim ela não desistiu, se tinha chegado até aquele estado pela coroa, então, ela não pararia até que estivesse com ela. Por isso, com dificuldade a bruxa começou a se arrastar pelo chão sujo da sala obscura que estava, sentindo dor percorrer todos seus membros conforme se movia, se sentia tão doente que o mero ato de respirar doía e lhe fazia desejar a própria morte. E de certa forma, ela sabia que não estava longe daquilo, sem energias quaisquer, ela morreria se ninguém a salvasse ou se recuperasse a energia solar, mas já era tarde demais para o sol e assim como todas as mulheres de sua família, Estella se encontrava inevitavelmente sozinha. Não sabia dizer se foram minutos ou horas até que chegasse até o pedestal onde a coroa estava, mas sentia pouco a pouco o que lhe restava se esvaindo de seu corpo e mesmo assim lutava a cada segundo que podia até finalmente conseguir tocar na coroa. Foi naquele instante que ela poderia sentir tudo mudar, mas a D’Lune não sentiu nada, porque suas últimas forças haviam sido usadas para agarrar o belo presente de grego que haviam lhe dado. Sua vida se esvaiu e ela se rendeu a escuridão e a morte.
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Era como se aos poucos a consciência voltasse para si e pela primeira vez na vida, Estella se sentia calma e plena, não havia a necessidade para que se levantasse em pulo e fosse logo tratar de arrumar algo para gastar sua energia… Escutou um grito de dor advindo de seu amigo, Willhelm, foi com isso que os olhos da bruxa se abriram lentamente para encontrar o Schandenfreude gritando desesperado e Estella demorou alguns segundos para entender que a dor dele era culpa dela. Normalmente, ela teria saltado para metros de distância para não o machucar mais, contudo, se sentia tão fraca que ao segurar o braço dele para tentar se levantar tudo que ela conseguiu foi sugar mais da vida do príncipe para si. Era terrível e em seu interior ela sabia que deveria parar e se afastar, mas ela ainda se sentia tão fraca que apenas apertou o braço dele com maior força e fechou os olhos sentindo a energia calorosa como um abraço em meio ao inverno, a energia agitada que emanava dele sendo transferida para ela aos poucos. Contudo, isso foi abruptamente cortado quando ele a empurrou com certa força para trás, ela suspirou insatisfeita enquanto abria os olhos outra vez.
—Estella? O que você…? Como? — A voz do príncipe era confusa, aturdida e triste, ela conseguia perceber agora que ele chorava anteriormente.
A bruxa se pôs de pé ainda com alguma dificuldade, o mundo ainda parecia muito confuso para sua mente, ela não parecia estar sincronizada com seus arredores mais, tudo parecia tão menos colorido e alegre. Molhado. Ela sentiu que o rosto estava molhado e só quando levou uma das mãos até o próprio rosto que se deu conta que chorava, lágrimas salgadas escorriam pelo rosto dela e então foi como se uma pontada de dor lhe atingisse. Mas não era uma dor física, era mais profunda e emocional, de forma que ela nunca havia experienciado antes. Quando ergueu uma das mãos na direção de Willhelm e o viu dar dois passos para trás, a dor em seu peito pareceu se intensificar e foi só nesse momento que Estella se deu conta do que estava fazendo segundos antes, de que se ele não tivesse a empurrado, ela teria o matado.
—Will… Me desculpa, eu não… Eu não queria te machucar… Eu… — Até mesmo falar parecia estranho para ela naquele momento, não sabia se a dor para que as palavras saíssem era pelo choro ou não. Contudo, quando o loiro tentou lhe abraçar, ela fez um sinal de pare, não queria correr o risco de o machucar de novo. Estava fraca e tentou se atentar ao que lembrava sobre a coroa que agora tinha em cima de sua cabeça, ela precisava de vida ou do luar, o suficiente para que durasse até o dia seguinte. —É melhor que eu vá… Preciso descansar… Não fale nada pra minha mãe, eu ficarei bem… Desculpa.
Ainda com lágrimas nos olhos, ela deu a volta pelo Schandenfreude, a cada passo que dava às flores que decoravam o salão comunal com vivacidade morriam na volta dela, algo que ela consideraria muito triste no normal, mas naquele momento tudo que ela podia sentir além da esmagadora dor em seu peito era a sensação de poder ao sugar a energia vital de tudo a sua volta. Subiu o mais rápido que pode para o quarto e assim que chegou no mesmo se dirigiu até a janela que já estava aberta, se deixou encostar contra o batente da janela em um suspiro satisfeito ao sentir a energia da lua lhe preencher, uma pequena esperança de que talvez isso fosse ser o suficiente e que ela não teria mais problemas no resto daquela noite.









