espero que as coisas melhorem, ou pelo menos deem uma amenizada. — gus não era uma presença muito reconfortante e sabia que suas palavras também faltavam essa qualidade, ao menos sua sinceridade compensava pela sua falta de jeito e a leve curiosidade de questionar que crescia em si e ele dava o seu melhor para ignorar porque outras experiências já haviam mostrado que tentar bisbilhotar a vida da outra não era uma coisa vista com bons olhos por gain. — se quiser um dia falar com alguém, já disseram que sou um bom ouvinte. — foi o que se contentou em dizer com um sorriso leve, porque acima de tudo não gostava de ver os amigos para baixo de forma alguma. — quer aprender uma palavra para descrever pessoas assim? repete comigo: cuzão. — ditou a palavra pacientemente em sua língua materna, gus usava e abusava do fato do português ser bem menos noticiável do que o inglês na hora de externar alguns xingamentos necessários. — 10? por favor, ia merecer um 100, faria meu dia e ainda ia parar nos meus stories. tenta cair da próxima vez, vaaai, por favor. gosto de quando meu entretenimento vem de graça. — falava como se realmente implorasse, até segurando o pulso da garota depois do leve empurrão para poder chacoalhar o braço dela em uma perfeita imitação de uma criança mimada. — eu já disse que você é, tipo, a melhor pessoa do mundo? quer escolher mais uns salgadinhos também? minha compra está longe de chegar aos pés da sua. — disse ao levantar o braço que carregava a sua sacolinha para evidenciar que ela não estava tão cheia quanto poderia, só duas variações de chips de batata doce porque estavam em promoção e seu dinheiro, curto, mas ao menos ele ainda poderia se dar ao luxo de escolher mais algumas coisinhas agora que não iria se preocupar com a parte da sobremesa. — realmente, acho que vou desmaiar. — dramatizou, até enrolando um pouco para seguir a amiga pela loja. distraído por algumas das outras prateleiras, quando a questão de gain veio, ele coincidentemente segurava dois pacotes diferentes de marshmallow ao que os analisava. — a gente podia fazer uns s’mores no fogão, o que você acha? em casa tem a bolacha! — já que o objetivo era se encher de basteira mesmo, nada mais justo do que arriscarem um pouquinho de sujeira em nome do doce mais doce que ele conhecia e só de pensar naquilo ele já até ficava mais animado.
"Eu também espero, e acredito que vão, sim. E eu digo o mesmo: talvez não saiba dizer as palavras mais bonitas, mas se precisar dar uma rasteira em alguém, só chamar.” O sorriso doce contrastava propositalmente com as palavras anteriores em uma atitude malandra, carregada de uma pose que achava deveras divertida. As vagas ameaças faziam parte de seu cotidiano, mas caso algum amigo precisasse de verdade, ela estava pronta pra mostrar as presas. “E muito obrigada pelo apoio.” Levantou uma mão para que ele retribuísse com o famoso high five, mesmo que aquela fosse uma reação nada delicada para um momento como aquele. “Cu... Cudjão? É isso? Pera, acho que isso tá meio errado.” Riu em silêncio ao olhar para cima, pensativa, e levar uma das mãos para coçar a nuca. “Você não tá me sacaneando não, né?” Perguntou com certa desconfiança, pois, apesar de adorar aprender coisas em idiomas estrangeiros - principalmente xingamentos e palavrões -, nunca se sabe quando você está dizendo com grande entusiasmo: “eu sou uma anta”.
Gain revirou os olhos diante da atitude infantil dele, dando um peteleco em sua testa assim que a atuação acabou. “Me expõe na suas redes sociais pra você ver se eu nunca mais pago nada pra você.” Arqueou uma sobrancelha que serviu de acompanhamento para o tom confiante e severo, assim como os braços cruzados como os de uma mãe que repreende o filho. Era óbvio que não falava sério, mas a fachada caiu por terra assim que viu a sacola do amigo. Pra quem estava morrendo de fome, aquilo era muito pouco, não? A expressão suavizou e com ternura, disse: “Vai lá, pega mais salgadinhos. E se a gente pegar uns lámens? Acho que estou ficando com fome também.” Seu estômago estava cheio, assim como a carteira. Os trabalhos tinham lhe rendido uma graninha extra naquela última semana, e, com uma parte já guardada em suas economias, podia ser um pouco mais extravagante. Ainda mais quando a questão envolvia comida e um amigo incrível como Gus. “Qual você quer primeiro: que eu escolha o marshmallow ou ligue pra ambulância?” Olhou de soslaio para o drama em forma humana que era o brasileiro, enquanto parava ao lado dele e apontava para o pacote de marshmallow maior e branco para cessar sua indecisão. “Boa ideia! Faz tempo que não como s’mores. E a gente vai precisar de chocolate também." Os pés viraram-se na direção das diversas barras, escolhendo uma de um tamanho adequado para fazer o doce e ainda sobrar um pouco. Pegou pacotes de gummy bear, melancias azedinhas e tubes, indo ao encontro do mais velho em seguida. “Já escolheu tudo? Até os salgados? Porque agora eu tô com vontade de encher a cara de comida.”