Hakyla estava muito, muito irritada. Nos Ășltimos dias, a Ășnica coisa que escutara foram as ameaças de sua mĂŁe, que insistia em tentar deixar a filha mais velha amedrontada. NĂŁo conseguia esse feito, era Ăłbvio, mas conseguia com muita facilidade deixĂĄ-la ao ponto de explodir de irritação. Era por isso que estava sendo tĂŁo grossa com Darion, muito alĂ©m do habitual. Sua expressĂŁo mudou imediatamente quando ele começou a falar e ela conseguiu assimilar o que viria. Em sua mente, uma palavra se repetia sem parar: ânĂŁoâ. NĂŁo podia, nĂŁo devia, nĂŁo era possĂvel que ele estivesse dizendo aquilo. NĂŁo, ela nĂŁo queria. Ou queria? Ah, certamente havia uma parte de si que queria aquilo mais do que tudo no mundo, mas a maior parte de seu ser sabia que nĂŁo, nĂŁo podia. No momento, a parte que queria aquilo pareceu se incendiar. Sua mĂŁo começou a se mover para perto da dele, afim de segurĂĄ-la. Queria segurĂĄ-la e nunca mais soltar. Queria ser dele para sempre, mesmo que isso significasse ira vinda de sua famĂlia, mesmo que isso significasse que teria que ceder aos seus sentimentos, nĂŁo a sua razĂŁo. A mĂŁo continuou a se movimentar, mas, entĂŁo, parou. E ela a recolheu para perto do corpo. Seus olhos se encheram de lĂĄgrimas, que ela afastou, piscando com rapidez. âNĂŁo.â Começou, tentando puxar o mĂĄximo de ira que tinha dentro de si. NĂŁo era muito, mas teria que ser o suficiente. âVocĂȘ nĂŁo entendeu, nĂŁo Ă©, Sangenis?â Uma risada totalmente falsa, mas tĂŁo boa que pareceria verdadeira, saiu do mais profundo de sua garganta. Ela cruzou os braços, impedindo a mĂŁo de ousar tocar a dele. âVocĂȘ nĂŁo Ă© nada para mim. NĂŁo passou de poucas noites onde eu tentei ter prazer e, bem, nĂŁo consegui, mesmo com todo o esforço do mundo. VocĂȘ nĂŁo valeu de nada alĂ©m de fazer meu ego ainda maior. Foi bom ter em quem pisar, nada alĂ©m disso.â
Foi sĂł depois de verbalizar seus sentimentos que Darion percebeu que talvez aquele nĂŁo fosse o momento ideal para que Hakyla ouvisse todas as palavras que queria dizer. Ela parecia mais irritada do que o normal e o mau humor poderia influenciar uma reação nĂŁo muito boa, mas agora jĂĄ estava feito e mesmo assim, nĂŁo se arrependia. Guardara todas aquelas emoçÔes sĂł para si por muito tempo e jĂĄ carregava pesos demais para deixar que aquilo se tornasse um fardo tambĂ©m. Os olhos, como sempre, continuavam presos nela, observando-a com avidez, buscando capturar qualquer indĂcio que pudesse considerar como reação. Por alguns segundos, quando a mĂŁo de Hakyla se ergueu e, lentamente, foi na direção da sua prĂłpria, que ainda estava estendida para ela - num sentido mais implĂcito, sempre estaria - e esperava ansiosamente pelo entrelace de seus dedos, o que nĂŁo aconteceu. Rapidamente, a mulher afastou a mĂŁo e cruzou os braços, com um olhar frio no rosto, e a palavra que ela proferiu era a que Darion menos queria ouvir naquele momento: ânĂŁoâ. Apenas trĂȘs letras, mas jĂĄ era o suficiente para fazer com que seu mundo, sempre vĂvido e colorido quando estava ao lado dela, agora se tornasse cinza.  As coisas ao seu redor pareceram girar por alguns instantes, mas o Sangenis piscou rĂĄpido para clarear a visĂŁo e, respirando fundo com a esperança de que a crescente tristeza em seu cerne se aliviasse, se esforçou para nĂŁo demonstrar reação. Mesmo assim, a decepção estava em sua face. Cada centĂmetro de seu corpo poderia demonstrĂĄ-la dor, desde os punhos cerrados atĂ© os lĂĄbios comprimidos e a opacidade em seu olhar. Como se aquela simples recusa nĂŁo fosse o suficiente, Hakyla continuou, e Darion se sentiu dentro de um pesadelo - se realmente fosse, ele jĂĄ desejava acordar, mas aquilo nĂŁo era nenhuma fantasia. Aquela era a realidade, e no momento, a realidade era que Hakyla nĂŁo o queria como ele a queria, nĂŁo o amava como ele a amava. Por alguns momentos, o aperto em seu Ăąmago foi tanto que parecia fatal, e ele quase pĂŽde ouvir o som de seu prĂłprio coração se quebrando nas mĂŁos dela. Foi bom ter em quem pisar. EntĂŁo era isso. No final de tudo, Darion nĂŁo passara de um tapete para aquela mulher, de uma forma de aumentar seu ego. CĂ©us, a dor se tornava ainda maior quando pensava naquilo. â Eu nĂŁo entendo... â Murmurou, com as memĂłrias boas do que tinham passado juntos em sua mente. Havia a noite do baile, havia Tyene, havia a pousada e a invasĂŁo, as mĂŁos de Hakyla cuidando delicadamente dos ferimentos que ela mesma havia feito, a noite em que ela gritara em pavor dos seus prĂłprios pesadelos e confessara seu medo de perdĂȘ-lo. Tudo parecia tĂŁo real em sua mente que invalidava o que ela tinha acabado de dizer. â Eu fiz algo errado? â Perguntou, receoso, crente de que os acontecimentos entre os dois foram vivenciados pela Hakyla de verdade. O fato era que a situação atual era tortuosa demais para que atĂ© Darion pudesse aguentar, e por isso, procurava razĂ”es para acreditar que nĂŁo era verĂdica.