You better have a good explanation for this | Sumford
Desde o retorno a Gorlan, Cecile tentava todos os dias fugir dos afazeres de lady no castelo ou até mesmo em sua casa para ir encontrar Lewis. Se sentia incomodada desde o baile, quando ele simplesmente sumiu após ela lhe deixar sozinho por uns dez minutos. Era horrível ser uma lady e não conseguir se divertir normalmente em uma festa sem ter seu pai lhe chamando sempre para apresentar alguns possíveis pretendentes. Ela só queria ter aproveitado aquele baile com o amigo e não precisar sair de perto dele para fazer coisas que ela não queria nem pensar no momento.
A morena se sentia mal por ter abandonado o amigo, mas se sentia ainda pior por ele ter ido embora sem avisar. Parecia que ela tinha feito alguma coisa errada ou ter sido entediante demais ao ponto dele querer sair correndo na primeira oportunidade. E talvez aquele também seria o motivo pra ela não ter arrumado um noivo ainda. A pressão para Ceci arrumar um pretendente estava cada vez maior, a irmã queria se casar logo e a lady estava empacando o seus planos, o pior era que a mais nova não fazia nem questão de esconder o desgosto pela outra não ter se casado ainda.
Quando finalmente teve um tempo para poder sair do castelo, Cecile resolveu dar a desculpa de passeio pelo reino para ir até a ferralheria do amigo. Obviamente iria escondida, ninguém poderia saber que ela estava indo sozinha até lá. Caminhava calmamente por perto do local, enquanto observava se alguém prestava atenção em seus passos que cada vez mais se aproximava da entrada. Usava uma capa que cobria seu vestido e sua cabeça, mas da última vez que se vestirá assim foi descoberta rapidamente por Lewis. Entrou no local e só então tirou a capa da cabeça. Assim que viu o amigo parecia que toda a sua coragem de ter ido até ali para tirar satisfação tivesse sumido. — Nós precisamos conversar. — Foi a única coisa que ela conseguiu dizer de primeiro. Nenhum “olá” ou um “boa tarde”. Se fosse gentil acabaria esquecendo o motivo de ter ido ali.
Com o resto de coragem que lhe restava a morena respirou fundo fechando os olhos e só quando voltou a abri-los, disparou a falar. — Por que você foi embora do baile sem me avisar? Estava tão ruim assim? Você podia ter me falado isso antes que eu saísse de perto, assim eu não ficaria feito uma tonta te procurando. Eu não ia me importar se você não estivesse gostando e quisesse ir embora, eu particularmente nem gosto daquilo tudo, mas custava me avisar? Eu não ia te obrigar a ficar só pra me fazer companhia, eu já estou acostumada a ficar na companhia da minha irmã nesses bailes. Sei que não sou uma das melhores companhias, posso ser bem entendiante as vezes, como agora, mas é que eu me empolgo e falo demais e meio que sem parar. — A última frase saiu baixa e o tom beirava vergonha, ela realmente estava se achando uma tonta por estar ali pedindo satisfações, a ideia era melhor quando só estava em sua cabeça, assim como as falas.
Lewis achava estranho que não tivesse mais encontrado Cecile após o episódio do baile. Com a visita de ambos em Clonmel, na ocasião da festa, haviam decidido passar a noite do baile juntos onde a única coisa que importava para os dois amigos seria esquecer o mundo e as dificuldades de seu reino para dançarem por algumas horas. Claro que a presença em um castelo, com inúmeros nobres, era inquietante para Mumford, contudo, o rapaz escolhera ignorar aquilo completamente para divertir-se com Cecile e ajudá-la a esquecer a pressão de ser uma Lady.
Coisa que de fato haviam feito até se separarem.
Lewis tinha consciência que aquele talvez pudesse ser o motivo pelo qual não via a amiga desde que haviam voltado para Gorlan. Se bem lembrava-se (oras, como poderia esquecer?!), Cecile havia sido puxada pelo pai depois de alguns giros na dança deles e, o que deveria levar apenas alguns segundos, acabara tomando tempo demais. Ou pelo menos tempo o suficiente para o ferreiro começar a se sentir desconfortável naquele salão. O gorlense não culpava a melhor amiga por lhe deixar no baile, sabia que ela não desejara seguir seu pai pelo simples olhar de aflição que ela lhe lançara antes de ser puxada, entretanto, Mumford não podia esconder que desejara naquele instante que Cecile nunca tivesse saído. Ou que ele, ao menos, não tivesse deixado o salão pois, depois de sentir-se esmagado por tudo aquilo, o rapaz saída para os jardins e por lá ficara.
Talvez Sorensen lhe entendesse quando dissesse que apenas não voltara mais para a festa porque havia encontrado uma ruiva (Lizandra, se bem recordava-se do nome) com quem acabara se entretendo numa conversa até esta sair abruptamente pelos mesmos motivos que Cecile. Ao ver do ferreiro, já havia sido castigo por aquilo mesmo. Maldita noite onde nenhuma moça ficara tempo o bastante do seu lado!
Após o episódio, contanto, Mumford havia considerado voltar para o salão e procurar a amiga, porém, a festa já havia acabado e nenhum sinal de Cecile fora visto desde então. Claro que sabia que a garota seguia viva, mas talvez brava o suficiente para não lhe procurar ou mesmo caminhar pelo vilarejo, razão pela qual, após algum tempo sem enxergar os cabelos cacheados na vila, Lewis resolveu desistir da busca e voltar a focar-se somente em seu trabalho.
Repleto de afazeres e novos pedidos de espadas para fabricar, o gorlense havia se enfiado em seu barracão naquela tarde mais uma vez para cumprir suas pendências e seguia completamente focado, cantarolando uma música que aprendera cedo com a mãe, sem sequer ouvir qualquer som de fora além do bater do martelo no ferro que moldava. Qualquer coisa poderia passar despercebida pelo jovem. E fora exatamente isso que ocorrera.
Sem notar quando a garota entrou pela porta às suas costas, Lewis continuou focado no trabalho até que o silêncio razoável fosse, enfim, quebrado. E bastaram aquelas palavras, naquela voz, para lhe fazerem parar por completo. Sequer tendo tempo para se assustar antes que se virasse e, um segundo mais tarde ao que enxergou Cecile, uma dezena de frases fosse subitamente jogada em sua cara.
Droga. Então ela havia mesmo se chateado com sua fuga do baile.
Sem saber como responder enquanto Cecile falava sem parar e no tom mais chateado que jamais pensara ouvir dela (diabos, ela não parava para respirar?!), Lewis ficou debilmente intacto, segurando o martelo em sua mão enquanto os olhos fitavam perdidos os lábios da morena se abrirem sem pausas, sequer ouvindo perfeitamente o que ela dizia, porém, captando o tom de mágoa. E, droga, como queria evitar aquilo. Incerto de como agir, entreabriu os lábios, mas não conseguiu dizer nada até que todo o discurso rápido da gorlense acabasse; dando espaço a um silêncio desconfortável.
Calmamente, o moreno engoliu em seco, colocando o martelo de lado e limpando os palmos na camisa de trabalho que trajava enquanto desviava o olhar por um momento. Com mais um mísero segundo em que pensava no que falar, suspirou novamente e, enfim, desatou a falar. – Cecile, eu... Me desculpe. – Começou, pressionando a arcada no lábio inferior. Não sabia o quanto ela estaria disposta a lhe perdoar, mas precisava tentar. Ainda incerto, deu um passo em direção à mesma e continuou. – Eu não queria te deixar. Eu juro! Eu só... Fiquei perdido sem você. Eu não sabia o que fazer naquele lugar e tudo pareceu me sufocar, então eu saí para respirar e, bom. – Parou por um instante, considerando se deveria contá-la da ruiva. Mas, afinal, Cecile era sua melhor amiga e não queria esconder nada dela. Nem iria. – Eu encontrei uma garota. Uma Lady, também. – Apressou-se a complementar, dando mais um passo até a amiga. – E você sabe, nós acabamos conversando a noite toda. Quando voltei, não te encontrei mais e passei todos os dias no vilarejo te procurando para pedir desculpas e perguntar o que houve, mas acho que estava me evitando... – A última fala levou um timbre ligeiramente baixo de chateação do moreno, contudo, sabia que o peso da culpa era sua. E assim, com mais um último passo mais próximo da nobre, Lewis umideceu os lábios e respirou fundo, deixando que as íris negras encontrassem as semelhantes e por ali ficassem ao proferir as últimas frases de seu discurso arrependido. – Me perdoe, Cecile. Eu nunca mais te deixarei, certo? Em situação alguma. Eu só fiquei perdido. Não sobrevivo àquelas coisas sem você. Entendo que tenha ficado chateada, mas... Me perdoe. É tudo o que posso pedir.


















