Fito vibra e do céu lamenta Galeano
Se existe algo que os anarquistas, futuristas, democratas desejosos da alternância de poder, surrealistas, iconoclastas e todo e qualquer tipo de ser afim de romper com as tradições tinham em comum, é o desejo de ver o Nacional do Uruguai fora de uma Libertadores. É que o último ano em que os bolsilludos, como são chamados, estiveram fora da copa foi em 1996, tempo afu. Embora todos os emboras, o Nacional está no grupo 2 da edição 2016 junto com Palmeiras, os conterrâneos do River Plate e o Rosário Central, que não aparecia na copa desde 2006. Os jornalistas entendidos apelidaram de “o grupo da morte”.
Nesta última quinta do atual fevereiro, Nacional tinha fumaceira pela frente e não era o famoso porro uruguaio, era o Rosário Central no Gigante Arroyito pulsando. O Rosário vinha com moral, num constante crescimento após amargar 3 anos na série B. O Nacional, embora jogue a 20ª Libertadores seguida, tem na bagagem um retrospecto desconfortável pra quem já foi Rei: vem caindo ano após ano entre fase de grupos ou oitavas.
Em casa, a esquadra de Rosário tinha posse de bola Barcelônica: terminou o primeiro tempo com 70% de domínio. Só que de amarelo e azul não estavam Suárez, Messi e Neymar, estavam Cervi, Herrera (aquele mesmo) e Delgado. Logo, a posse de bola não era sinônimo de uma goleada à catalã. A emoção ficou mesmo pro segundo tempo. Aos 10 minutos, quando numa falta na intermediária Gonçalo, do Nacional, solta um canotaço em direção ao gol, Nicolas López intercepta com um domínio e completa pra dentro do retângulo. 1x0 Nacional, visitante ingrato que fazia os canallas roerem até o último centímetro de unha. Como coroação deste momento mágico, o jogador reserva Erick Cabaco comemora no banco fazendo gestos pra torcida do Rosário, e tá na rua o magrão (sendo escoltado pelo escudo policial até o chuveiro).
A missão do Nacional, acanhado e ensaiando se crescer pra cima dos home, era segurar a pressão argentina. Nacional do zagueiro POLENTA, vale lembrar (que nome, senhores). Da casa-mata, Larrondo entra predestinado a ser mais um em campo e não conseguir impedir a colossal vitória uruguaia que se desenhava. Aos 33 minutos, numa pressão descomunal, o arco dos bolsos de uma maneira inexplicável era defendido com unhas e dentes com bola sendo salva em cima da linha com bico de chuteira. Em meio ao rebuliço valeu até bloqueio com a mão pra se defender o patrimônio, mas o juiz nada assinalou. Transtornado pelo medo de não conseguir dormir à noite pensando no pênalti legítimo que não deu, o árbitro acha um pênalti que seria convertido aos 46 do segundo tempo. Na marca do cal, Rosário Central 1x1 Nacional.
Larrondo, que diz ser inspirado no Ibra (no penteado, obviamente), fez com que a previsibilidade dos astros fosse por água abaixo. Dizia Saint-Exupéry no Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Neste caso, pelo que cavas. Larrondo cavou e converteu. E foi ao findar a partida que se tornou eternamente responsável por um empate em casa, por um provável sorriso de Fito Páez e um gosto amargo no céu de Eduardo Galeano.
Por Matheus Donay










