Museu Nacional do Azulejo em Lisboa, PORTUGAL



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Museu Nacional do Azulejo em Lisboa, PORTUGAL
• Alanis Guillen
Cartas para Clarice.
Ipanema, o inverno que não esfria — 1986
Escrevo sem destinatário, como quem escreve para o mar e confia que alguma onda leve a carta para um lugar onde as mãos não tremam. Escrevo sentado no banco de cimento da General San Martin, de gravata frouxa e camisa colada ao corpo, suando frio num calor que parece moral, não meteorológico.
O ônibus tarda, como tardam os livros que ainda não escrevi, e o mundo passa diante de mim com a desenvoltura de quem não pede licença.
Tenho vinte e seis anos e um crachá de estagiário que insiste em bater no peito como se fosse um coração emprestado. Trabalho num jornal do Rio, corto notas, junto vírgulas, faço café sem açúcar, apago adjetivos que não são meus. Às vezes me deixam escrever uma linha inteira. Guardo-a como quem guarda um disco raro: escuto sozinho, em volume baixo, para não estragar.
Hoje, enquanto espero o ônibus, vi você, ou vi o que eu chamaria de você se houvesse coragem suficiente para dar nomes às aparições. A garota de Ipanema, dizem. Eu digo: um acontecimento. Cabelos longos e pretos, quase um parágrafo contínuo, pele clara, dessas que refletem o sol sem brigar com ele, um sorriso doce, discreto como um acorde de João Gilberto que entra atrasado e, por isso mesmo, muda tudo. Você, mulher sem nome, caminhava pela orla com a naturalidade de quem não sabe que está sendo lida.
Eu, engravatado, parecia uma nota de rodapé numa página ensolarada. O suor me descia pela espinha como uma confissão mal escrita. Pensei em Machado, sempre penso quando o coração quer ironizar para não cair, e me peguei analisando a mim mesmo como personagem pouco confiável: este rapaz que deseja ser um escritor gigante num mundo já cheio de nomes importantes. Machado, Drummond, Clarice — e eu aqui, esperando um ônibus, esperando um futuro, esperando uma frase que não me traia.
Você passou e o calçadão virou música. Não uma música alta, uma dessas de rádio AM no fim da tarde, com a voz cansada e sincera. Havia rimas no seu passo, rimas que não queriam virar poema. A areia parecia ler você também, e o mar, vaidoso, se endireitou para ser visto. Lembrei-me dos livros enfileirados na estante do meu quarto como quem lembra de antigos amores de infância: Capitu piscando em ressaca, Macabéa atravessando a rua com um sonho no bolso, Bentinho desconfiando do próprio desejo.
Lembrei-me de mim, e isso doeu mais.
No jornal, aprendi que cortar é uma forma de amar. Corto porque não cabe, porque pesa, porque atrapalha o fechamento da frase. Mas na vida não sei cortar. Não sei cortar o sonho de ser grande, não de fama, que isso é poeira, mas de palavra. Queria escrever um romance que fosse como a bossa nova: baixo, perto, de coração. Um livro que pedisse licença ao entrar na sala e, ainda assim, ficasse para sempre.
Você, sem saber, foi o refrão que faltava. Não um refrão repetido, mas um que aparece uma vez e basta. Enquanto caminhava, pensei em como o amor talvez seja isso: um encontro que não acontece e, por isso, acontece inteiro. Pensei que escrever é andar atrás de alguém que não olha para trás, mas deixa pistas: um sorriso, um cabelo ao vento, a promessa de que o mundo tem mais páginas do que a redação permite.
Meu relógio marcava pouco depois das 18 horas quando o ônibus chegou com o barulho de sempre, interrompendo minhas teorias. Subi com a gravata torta e a cabeça cheia. No vidro, meu reflexo parecia o de um ator de filme antigo, bonito de um jeito triste, como se soubesse que a beleza também passa. Pensei em você de novo, e pensei em mim daqui a vinte anos, relendo esta carta e rindo da minha melancolia organizada.
Se alguém um dia ler isto, que saiba: houve uma tarde em Ipanema em que um estagiário acreditou que podia ser escritor porque viu uma mulher caminhar. Houve uma tarde em que a literatura saiu da estante e pisou no calçadão. E houve, sobretudo, uma certeza breve e funda, dessas que não pedem prova, de que viver e escrever talvez sejam a mesma espera: pelo ônibus certo, pela palavra justa, pelo olhar que passa e fica.
Assino sem nome, como convém a quem ainda está se escrevendo.
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Part. 2?
* ★ Extra infos sobre mim 🌺 🍂
Oii, meus amores!
Primeiramente, gostaria de me apresentar. Para quem não me conhece, meu nome é Cat e escrevo, tanto aqui quanto no Wattpad (pelo @ x_cattzy), livros aconchegantes e reflexivos que acolhem a alma de quem pensa muito — assim como eu.
Decidi iniciar este esquema literário de cartas porque, nos últimos dias, ando com muitos pensamentos negativos e preciso de um tempo para descansar minha mente. Espero genuinamente que gostem desta primeira carta tanto quanto eu e, se quiserem, posso trazer mais nesse estilo.
( Siga para mais textinhos )
Sou feito de partes.
Não possuo um corpo físico:
Sou um mero remendado de arte.
Sou poeta.
Poucos sabem, mas o poeta é também costureiro.
O poeta costura no peito palavra por palavra,
Acento por acento,
Ponto por ponto.
Eu também costuro no peito o delírio.
A dor,
O pecado,
Tudo aquilo que por mim foi amado.
Não fui parido,
Tampouco visto.
Em noite de lua cheia fui feito — em janeiro
Num grito de demônio morto.
Você me lê e esquece que fui feito para morrer.
Que sou aberração com sede de morte.
Você esquece que talvez eu seja poesia demais
Para ser apenas homem.
E carne demais
Para ser realmente lido.
— Diego Bittencourt
"Momento" um dos projetos áudiovisual do ep "Só Uma Volta", assista e me diz o que achou do video!! 😁☝️
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