Não sou uma poetisa e tão pouco escritora, apenas gosto de retratar aquilo que vejo e sinto através das palavras! Escrever é uma forma de "escape", um alivio.
A rotina faz o tempo escorrer como areia por entre meus dedos. Muita coisa para fazer e, quando se vê, já é hora de dormir e recarregar as energias para um próximo dia, cheio das mesmas coisas. Nada diferente. Sempre as mesmas ações, mas nunca os mesmos pensamentos. Então, na verdade, não estou caindo na rotina, certo? Mais ou menos. Eu tinha os mesmos afazeres, os diferentes pensamentos sobre ele, as lembranças de cada momento bom, mas o que estava fazendo para mudar essa rotina de lembranças boas e afazeres cansativos? Nada. Exatamente. Já me cansava de tanto me cansar com a rotina de não mudar. É nessas horas de depressão sobre a vida que você decide as coisas mais loucas, que decide dar um passo que pode mudar a sua vida pra sempre. É nessas horas que você decide pegar um avião, rumo a um lugar incerto e perigoso. É nessas horas que você não se dá conta da besteira que está prestes a fazer.
Foi nessa hora que eu juntei todas minhas economias e comprei a passagem de avião, sem pensar em me arrepender. Arrumei uma mala pequena, com poucas roupas, a alegria do meu impulso e a câmera fotográfica pra registrar nossa felicidade. Tudo o que eu mais precisava estava lá, no lugar onde o pássaro que não bate as asas me levaria. Avisei as pessoas mais importantes e, com o apoio necessário, segui minha viagem morrendo de medo e com muita pressa.
Eu o encontraria no aeroporto. Ele não sabia, minha mente criativa gostou da ideia de fazer surpresa e esperá-lo chegar. Ele chegaria de uma viagem longa, há 6 meses eu não o via. Não sabia o que esperar. Será que o cabelo dele estaria mais comprido, será que ele poderia ficar ainda mais irresistível? A única certeza que tinha era que meu coração bateria mais rápido assim que eu o visse saindo da sala de desembarque.
Meu voo atrasou, saí correndo do avião para não perder a chance de esperá-lo. Nessa corrida de obstáculos, eu quase esqueci minha mala e perdi o salto da minha bota. Quando avistei sua família, eu sabia que não era tarde demais. Eles esperavam ansiosos por ele, não me viram. Essa era a ideia, ser vista apenas por ele e depois, bem, depois eu resolveria o depois.
Fiquei atrás deles só aguardando e torcendo para que ele me visse. Quando coloquei os olhos nele, quase desmaiei. Eu estava certa, ele estava ainda mais irresistível. E, meu coração bateu mais rápido, quando viu a loira linda ao lado dele, mais precisamente, sendo abraçada por ele. Ela VEIO com ele. No voo. Juntos. Ah... agora eu iria desmaiar de verdade. Embora eu quisesse mais do que tudo, sair de lá, voltar para casa, voltar para minha rotina, não conseguia mover um músculo frágil do meu corpo. Fiquei olhando ele apresentar a loira para sua família. A raiva começou a subir, enquanto o ciúme me cegava. Se eles se beijassem, eu estaria arruinada. De verdade.
Antes que isso pudesse acontecer, ele me avistou. Acho que não consigo descrever a expressão em seu rosto, foi mais ou menos uma mistura de perplexidade com um pouco de alegria e espanto. Minha única expressão era de desilusão. Como foi que eu não pensei nisso, uma loira gostosa ao lado dele? Claro, isso sempre pode acontecer. Por que eu não pensei? Por que eu havia gastado todas as minhas economias com uma passagem idiota? Eu deveria ter gastado em, hum... sapatos! Qualquer coisa teria sido melhor do que vê-lo ali, acompanhado.
Quando ele chegou ainda mais perto, sorriu com aquele sorriso que eu tanto aprendera a amar. Ele me abraçou e, com aquela voz sedutora, falou meu nome. Não consegui abraçá-lo, não consegui nem ao menos respirar. A essa hora, ele já tinha notado meu espanto, e eu precisava encontrar uma desculpa para a minha aparição, no dia da sua chegada, exatamente na mesma hora, no mesmo aeroporto, e tinha de ser rápido, muito rápido.
- Hey, não pensei que a encontraria aqui, que ótimo ver você! O que trouxe você aqui?
“Você”, tinha vontade de responder, mas não podia, não com a loira ali, conversando com os pais dele. Longos cinco segundos se passaram.
- Você está bem?
“Não, o que tu acha? Volta com uma loira gostosa e quer que eu me sinta como?”
- Hã, tudo bem, sim.
- Então, o que você faz por aqui? Não me diga que veio me ver? Também estava com saudades.
Ele falou e me abraçou outra vez. Concentrei-me naquele perfume maravilhoso e quase, por um segundo, esqueci que o aeroporto estava repleto de gente, inclusive de loiras bonitas. Então uma lágrima escapou dos meus olhos e, com toda a coragem que consegui juntar, tentei ser o mais convincente que pude.
- Não, vim avaliar alguns fornecedores para empresa na qual trabalho. Hã...estou esperando uma colega desembarcar, mas que bom encontrá-lo, que bom vê-lo feliz e...bem, bem acompanhado. Fico feliz.
Não sei explicar por que seu rosto se transformou de um sorriso alegre em descrença, desconfiança e tristeza. Incrível como ele conseguia transmitir tantas emoções em apenas uma expressão facial. E que motivo ele tinha para ficar triste? Não tinha sido ele que havia gastado as economias em uma passagem de avião só de ida pra encontrar uma pessoa que já estava muito bem sem ele. Que raiva eu sentia! E por que ele não ia embora logo?
- Bom, foi ótimo encontrar você novamente. Hã...você vai ficar na cidade por algum tempo? Podíamos marcar algo, meus pais adorariam rever...
- Não, vou hoje mesmo embora, a empresa agendou a passagem.
“Canalha”, eu pensei, aposto que a loira adoraria ir junto.
- Hum...tudo bem, eu acho, então, nos vemos por aí, não é?
- Sim, claro.
“Nunca mais, imbecil.”
Ele me abraçou mais uma vez. Era engraçado como os nossos corpos se encaixavam tão bem. Se ele me abraçasse mais uma vez, eu o beijaria, com ou sem loira.
Com os braços ainda em volta de mim, ele ficou me olhando, nossos rostos a centímetros um do outro.
- Você continua sempre cheirosa, mesmo perfume de morango. Eu gosto.
“Eu sei, não parei de usar desde que tu disse que tinha gostado”.
Não respondi nada, desviei o olhar para a loira que nos encarava com ciúme. Então, vi seus pais nos olhando, sem entender. Aqueles dois que eu já chamava de sogros. Ele notou. Com curiosidade, mirou aquilo que eu estava vendo. Na verdade, não conseguia ver mais nada, pois uma camada de lágrimas prontas para escapar bloqueava minha visão. Eu precisava sair de perto de tudo aquilo. Eu precisava voltar para minha rotina.
Ele se virou de volta pra mim e, a essa altura, uma lágrima já tinha escapado. Aquela expressão em seu rosto eu já conhecia: preocupação e compaixão. Tudo o que eu não precisava dele agora.
- O que foi? O que você está olhando?
- Nada, eu preciso ir!
Ele me prendeu mais ainda junto a si.
- O que você tem? Não vou deixar você ir assim.
- Não tenho nada, já falei. Eu preciso ir, por favor - fixei meu olhar nos três novamente - mande um beijo para seus pais e... para... sua, sua na...morada.
Após terminar a frase, eu o empurrei com toda a força e corri, apenas corri, sem lembrar do salto alto. Ele estava me seguindo e pude ouvir o berro, “espere!”, ecoar no corredor. Não parei, apenas corri mais rápido, com minha mala de rodinhas, tropeçando em tudo e em todos. Por um segundo, meu olhar cruzou com o dele atrás de mim. Nunca vou esquecer aqueles olhos e a imagem daquele corpo parando de correr atrás de mim. Tudo o que eu mais queria era que ele viesse ao meu encontro, que continuasse correndo, me agarrasse e me desse um beijo. Que me contasse que a loira não era sua namorada, mas sonhos não são reais e, quando ele parou de correr, eu entendi, não tinha mais volta. Não havia mais nós, não havia mais nada. Eu só tinha minha simples e velha rotina. Como sempre.
Quando já não o vi mais, encontrei um banco vazio, sentei e, com a cabeça entre os joelhos, chorei toda a água que bebi em uma semana. Não escondi os soluços, e muitos me olhavam chorar. O que importava? Nada mais.
Uma senhora de aproximadamente 60 anos, vendo meu pranto, sentou ao meu lado e pôs a mão sobre minha cabeça. Levei um susto e fiquei olhando para ela sem entender quem era. Talvez um anjo, sem asas.
- Querida, sei que não está tudo bem, senão você não estaria assim. O que aconteceu, meu doce? Posso ajudar?
Queria contar tudo a essa senhora simpática, mas não conseguia falar. Apenas balancei a cabeça negativamente e mais lágrimas rolaram.
Então, ela me abraçou. Se não tivesse acontecido comigo, eu nunca acreditaria que uma senhora idosa e estranha me abraçava e me embalava como se eu fosse uma criança. Na verdade, eu agira como uma naquele dia.
- Querida, não sei o motivo para você estar assim, mas não fique triste. Às vezes, as coisas terminam sem um bom final, sem um “felizes para sempre”, mas lembre que nada, nessa vida tem um fim e que nem tudo acontece do jeito planejado, por isso é divertido e frustrante viver. Levante este rosto bonito e continue procurando um final feliz. Tome aqui – ela me entregou um lenço – fique com ele, preciso ir, essa é minha chamada. - Ela me abraçou e foi embora.
Ela tinha razão, eu precisava ser forte e seguir em frente.
Não era fácil. O inverno parecia mais chuvoso e frio. Havia dias em que só me agradava ficar na cama, dormindo, sem pensar. A rotina era meu menor problema, já não me abatia mais. Quando possível, tentava me ocupar de todas as formas, mas quando deitava na cama, não conseguia não pensar naqueles olhos, no som da sua voz gritando meu nome. Não conseguia apagar da memória aquele dia, um ano atrás.
Tanto é que, quando anunciaram que iríamos viajar e desembarcar naquele mesmo aeroporto para visitar uns parentes, eu respondi, rápido demais, que não queria ir. Tudo menos enfrentar cada centímetro daquele lugar que me fazia lembrar dele. Mas era casamento da prima distante, não havia como escapar. Precisava ir mais uma vez àquele estado, àquele mesmo aeroporto. Inventei gripes de inverno, dores de cabeça forte, mas nada me ajudou. Ninguém entendia meu mau humor. E quem podia? Eu não contara nada a ninguém, era mais um motivo para rirem da minha cara. Tem certas coisas nesse mundo que mãe ou pai algum conseguem resolver. Precisamos enfrentar sozinhos.
Desde o momento da decolagem até o desembarque, tentei manter os olhos fechados. Fingi dormir para que ninguém me perguntasse nada, para que ninguém interrompesse meus pensamentos mórbidos.
Chovia mais que nos outros dias, e o voo foi turbulento, o que ajudou a explicar minha cara de espanto e medo. Meu coração quase pulou quando pisei na sala de desembarque. O ar ficou pesado no instante em que vi aquele aeroporto.
Meus tios esperavam ansiosos pela nossa chegada, vê-los felizes esperando por nós me alegrou um pouco. Senti-me culpada por não querer estar ali, celebrando uma cerimônia de matrimônio, algo que eu nem sabia se um dia seria capaz de celebrar. Apesar de conhecer novos caras, não conseguia me apaixonar, deixar levar.
Eu não o encontrei, como achei que aconteceria, admito ter ficado um pouco desapontada. É que, na verdade, eu queria ter visto apenas ele, sem a loira. Então, se ele ainda estivesse com ela, foi bom não vê-lo.
Consegui me animar um pouco. O hotel era ótimo, em frente a um parque maravilhoso, cheio de plantas exóticas e ao lado de um shopping. Obviamente, eu preferira sair do hotel e fotografar cada uma das plantas a ficar me arrumando a tarde inteira pra um casamento que só aconteceria à noite.
Estava frio, mas eu comprara um chocolate quente e, com a câmera fotográfica pendurada no pescoço, segui alegre por entre os caminhos do parque. Esse era meu mundo. Já tinha até mesmo esquecido o que me impedia de visitar a cidade. Essa bela cidade. O sol havia desaparecido de trás das nuvens e iluminava um túnel vegetal por onde era possível caminhar entre as plantas e sentir seus aromas.
Quando já havia enjoado de todas elas, concentrei-me nas pessoas. Já eram, aproximadamente, 18 horas e o parque começava a encher de mães e suas crianças, prato cheio para as minhas lentes. Sentei-me em um banco de onde era possível avistar cada centímetro do parque e, concentrada, não desviei o olhar quando um homem pediu para sentar ao meu lado. Quando terminei de tirar a foto da menina ruiva e seu pai brincando de pega-pega, olhei para o homem que estranhamente me observava, com uma expressão de desconfiança, felicidade e espanto. Várias emoções em uma expressão facial. Não era um homem comum. Tinha congelado outra vez, e não por causa do frio.
- O que...hã...como?
Em vez de tentar responder a alguma coisa, ele me abraçou e beijou, sem esperar que eu o impedisse. Eu não poderia tentar. Aquele beijo era tudo o que eu mais desejara ao longo deste um ano. Nenhum outro tinha o calor que ele tinha. Tudo parecia estar no lugar certo, na verdade, eu estava no lugar certo, nos braços dele. Era o único lugar em que não me importavam os outros, nem loiras... droga, ele ainda podia ter a loira. Não acredito. Canalha. Ao pensar nisso, eu me afastei dele.
- O que foi?
- O que foi? Tu não vê as pessoas por um ano e sai beijando elas, sem ao menos dizer oi?
- Oi! – ele me agarrou outra vez.
Quando não correspondi ao beijo, ele parou e ficou me encarando.
- Desculpe – ele tirou os braços da minha cintura – eu senti tanta saudade desse beijo. Desculpe se eu fui grosso. Ver você aqui – ele pôs as mãos na cabeça – é...mágico. Nunca poderia imaginar. Ver você de novo.
Como ele podia dizer isso? Naquele dia, não parecia estar tão feliz em me ver, afinal, ele não estava sozinho. Será que estava solteiro agora? Não conseguia entender. Eu tinha deletado seu perfil de todas as redes sociais, não poderia saber mesmo se ele estava solteiro ou não. Se estivesse, isso explicaria muita coisa, mas não apagaria o dia em que ele deixou de correr por mim. Agora queria tudo de volta? Só por que estava sozinho de novo? Ele não era o tipo de homem que faria isso só por carência. Eu sabia que ele gostava de mim, mas achei que tinha me enganado naquele dia no aeroporto. E agora? O que ele sentia? Como acreditar mais uma vez? Como perguntar? Como conseguir uma explicação? Como voltar ao tempo sem que nenhum dos dois fosse ferido mais uma vez?
- No que você está pensando?
Típica pergunta entre nós, normalmente era eu que perguntava, afinal, ele ficava sério quando pensava em algo importante e quase sempre me assustava com isso.
- Nada.
Resposta típica dele. Me vinguei.
- Não tem como não pensar em nada. Fale!
Usou minha frase contra mim, não pude deixar de sorrir, ele ganhou. Então, resolvi apelar.
- Em tudo. Eu, tu, nós, aqui. Coincidência?
- Destino!
“Pode ser”, mas por que ele queria brincar comigo e me magoar mais um pouco?
- Você não parece muito feliz agora.
“Não estou!”
- É que – respirei fundo, afinal eu resolvi expor meu coração – encontrar tu aqui, sozinho, sem tua namorada, cumprimentando-me com um beijo, não consigo entender o que isso representa, o que tu quer. Fiquei esperando todo esse tempo que algo assim acontecesse e que tu me explicasse alguma coisa, entende?
- Shh – ele pegou a minha mão – que namorada? Do que você está falando? A única coisa que eu queria quando voltei era ver você outra vez. Quando a vi no aeroporto, achei que tinha morrido, que era um sonho, mas você foi embora, sem deixar eu dizer nada. Me deixou sozinho. Eu tentei explicar... Mandei uma mensagem pedindo pra conversar com você, não lembra?
- Lembro, mas eu não pude responder, e tu não mandou mais nenhuma mensagem.
- Achei que você não queria mais falar comigo.
- Eu fui até o aeroporto para esperar tu chegar. Eu gastei minhas economias em uma passagem de avião só de ida para vê-lo! – soltei a mão dele – parecia que tu não precisava de companhia, estava bem acompanhado, com aquela loira bonita. Tu correu, mas não o bastante para me dizer que ela não era tua namorada, me fez crer – suspiro – que estavam juntos. Que ainda estão juntos.
- Eu nunca namorei loira alguma! Ela era uma amiga, estrangeira, veio comigo pra ficar um tempo por aqui, conhecer o Brasil. Nada mais que isso.
- Eu vi o olhar de ciúmes dela quando tu me abraçou!
- Sim, ela estava a fim de mim e, por isso, como ela era nossa hóspede, as coisas ficaram complicadas, e arranjaram outro lar pra ela. Eu nunca fiquei com ela. Eu juro. Você precisa acreditar em mim. Quanto a correr, eu deveria ter corrido mais, se isso fosse impedir você de ir embora e me ouvir!
As palavras dele me atingiram como um soco, assim como sua cara séria, a cara de homem maduro, que me assustava. Não sabia o que responder.
- Você não acredita em mim, não é? – ele olhou magoado para mim, tristeza, apenas tristeza e isso cortou o resto do meu coração.
Eu queria, eu sabia que ele era diferente, mas meu coração estava acostumado a acreditar na minha versão errada dessa história, estava magoado demais pra acreditar que todo o sofrimento foi em vão. Eu queria poder responder que acreditava, começar mais uma vez, mas não conseguia responder.
Ele pegou minha mão e, parecendo ler meus pensamentos, disse:
- Venha, acho que isso vai ajudar.
Ele me guiou, não tentei impedir. Quando saímos do parque, assustei-me um pouco. Andamos algumas quadras e chegamos até uma casa de dois andares amarela. Quando vi o cachorro no pátio balançando o rabo, sabia onde estávamos. Já o tinha visto em algumas fotos.
Nenhum de nós havia falado nada ainda. Eu deixara ele me guiar, segurar minha mão, mas ainda não havia respondido a sua pergunta. Quando ele me levou até seu quarto, vi uma parede repleta das fotos que eu havia tirado de nós, naquele piquenique na praia, os dois tão felizes. Quando vi meu rosto pintando em diferentes telas espalhadas pela escrivaninha dele, eu me lembrei da senhora idosa no aeroporto. Então entendi o que ela quis dizer com final feliz. E... eu estava apenas começando o meu.
Não consigo acreditar como podia achar divertido andar de ônibus. Lembro perfeitamente de quando meu avô me levava pra tomar sorvete no parque leste. Era preciso pegar pelo menos dois ônibus diferentes pra chegar até lá, mas mesmo assim me sentia mais feliz do que quando ia de carro com meu pai.
Não acho mais divertido agora. Talvez porque eu não vá mais tomar sorvete no parque, mas sim, de casa para o trabalho, do trabalho para a universidade e da universidade para casa. Talvez porque ao meu lado no banco há uma mulher praticamente surda que grita ao telefone pedindo para que o filho conserte a sua máquina de lavar roupa. Talvez porque no banco a minha frente há uma mulher mastigando um chiclete terrivelmente grande e barulhento. Ou ainda, pelo simples fato de que no banco de trás há um menino, que provavelmente não vai tomar sorvete no parque, que acha que tem o direito de chutar meu banco. Talvez por tudo isso e mais um pouco eu não queira mais andar de ônibus na cidade.
A onde foi parar a diversão, será que isso quer dizer que estou crescendo?
Lembro perfeitamente, como se fosse hoje, do dia em que meu avô me acordou super cedo naquele domingo lindo. Ele me sacudia e me chamava, estava empolgado pra me tirar da cama, uma vez que, o circo passaria pelo parque leste neste domingo e nós não poderíamos perder a oportunidade de ver os palhaços. Lembro que só aceitei sair da cama se fosse ganhar um sorvete. Não sei quem estava mais feliz naquela manhã, meu avô por me levar para ver o circo ou eu, por tomar sorvete.
Entramos no primeiro ônibus, sentamos próximo a porta e esperamos os outros passageiros entrarem e encontrarem um banco vazio. Um deles chamou minha atenção, um menino da minha idade, 7 anos, entrou sozinho no ônibus e sentou no banco a nossa frente. Antes que o ônibus começasse seu caminho até o centro o menino se virou e perguntou educadamente para meu avô: “senhor? Esse ônibus vai para o parque leste? Preciso muito ver os tigres.” Meu avô educadamente e com toda a paciência que não tenho, respondeu: “esse ônibus vai até o centro e de lá, precisamos pegar mais um que passa em frente ao parque”. O menino ficou um pouco confuso, mas agradeceu e disse que nada ai impedi-lo de ver os tigres.
Na época e, até hoje, isso me assusta, o menino estava sozinho indo para o parque sem saber se estava no ônibus certo, não estava com medo de não conseguir voltar para casa, tudo o que ele queria era ver os tigres. Não sei se a causa dele era melhor do que a minha, mas ambos estávamos felizes com o passeio.
O ônibus começou a andar e me distraio com as piados do meu avô e quase me esqueço do menino. Meu avô não o esqueceu, pelo contrário, quando estávamos quase chegando ao centro, meu avô cutucou o garoto. Assustado ele se vira e pergunta: “o senhor me chamou?” meu avô respondeu: “sim, minha neta e eu também vamos ao parque, é preciso descer na próxima parada e pegar o outro ônibus, você quer nos acompanhar?” o menino fica sem jeito e responde positivamente com a cabeça, mas acrescenta: “vocês também vão ver os tigres?” vovô respondeu: “claro, podemos ver os tigres”. Com a sinceridade de toda a criança eu digo: “ eu não quero ver os tigres, tenho medo, vovô, quero tomar sorvete.” O menino fica desapontado e meu avô, com um doce sorriso, garantiu teríamos tempo para ver os tigres e tomar sorvete e o menino acrescenta: “não precisa ficar com medo, eles estão em gaiolas, e eu seguro a sua mão”. Tanto meu avô como eu ficamos surpresos com a resposta daquele lindo garotinho de cabelos castanhos escuros, mesmo que naquela época eu não tinha o menor interesse de segurar a mão de algum garoto, aceitei mesmo assim o que os dois me propunham.
Foi o melhor passeio de todos. Lembro que tive só um pouco de medo ao ver os tigres, não sei explicar se era porque o menino ficou segurando minha mão em todo o nosso passeio ou porque eu me distraí tanto com o sorvete. Só sei que aquele garoto parecia já fazer parte da família a muito tempo. Como se fosse outro neto de meu avô, um irmão. Não parecia o desconhecido que era, o menino, o pequeno Gabriel. Até nome de anjo ele tinha.
Quando estava escurecendo pegamos os mesmos ônibus e voltamos para casa deixando o menino pra traz. Meu avo ficou extremamente preocupado em deixá-lo sozinho, mas Gabriel garantiu que sabia como voltar para casa e agradeceu o passeio. Depois disso, vovô e eu nunca encontramos Gabriel novamente.
Dez anos depois vovô morreu levando com ele toda a diversão de andar de ônibus.
Um pouco abatida com a nostalgia de lembrar da historia resolvi encarar o desafio de ir ao parque leste no final de semana e tomar um bom sorvete de chocolate. Por que eu não poderia fazer isso?
No sábado, às oito horas da manhã já estava acordada. Vesti meu vestido rosa claro, “bem verão”, procurei levar uma bolça pequena que coubesse apenas meu celular e o dinheiro para o ônibus e para o sorvete, nada mais.
Apesar de estar sozinha, me sentia feliz fazendo isso, era como se o vovô estivesse alí comigo. Quando entrei no ônibus, tudo já parecia diferente e divertido e não pude deixar de reparar no garoto de cabelos castanhos, corpo musculoso e tatuagem de tigre no braço, era bonito demais para não ser reparado. Acho que fiquei encarando por muito tempo, porque ele me olhou e sorriu, como se não fosse uma completa mulher entranha e tarada olhando pra ele. Sinceramente, era o que eu devia parecer olhando assim.
Desconcertada, sentei no banco atrás do garoto. Quando entrei no outro ônibus notei que o garoto bonito havia entrado também. Não sabia se ficava com medo ou feliz.
Comecei a ficar com medo quando ele sentou ao meu lado. Não por que queria, obvio, o ônibus estava lotado. Ele apenas pediu licença e sentou, sem esperar resposta. Sua perna encostou na minha e rapidamente me afastei, ficando espremida o resto do caminho. Eu mal conseguia respirar, ele era um gato, que ficava olhando para minhas pernas, tinha entrado no mesmo ônibus que eu, duas vezes, o que eu podia pensar.
Quando o ônibus parou em frente ao parque e pedi licença a ele, ele educadamente respondeu: “Claro, também vou descer aqui”. Entrei em pânico.
Quando descemos, decidi fechar os olhos, respirar e não pensar que ele podia ser um assassino tarado ou algo no gênero. E não parecia ser, digo, o fato de ele ir aos mesmos lugares, qual o problema? Vai ver foi só coincidência. Talvez eu já tivesse visto ele no ônibus alguma vez, por isso sorriu para mim, o rosto dele era um tanto familiar.
Quando abri meus olhos novamente não o vi mais. Suspirei e segui o caminho rumo a diversão e às lembranças boas.
Comprei um sorvete enorme de chocolate e fui em direção ao circo, eles não tinham mais muitos animais agora, havia apenas alguns macacos barulhentos, uns cinco puddles e apenas um tigre. Quando fui em direção ao tigre vi o garoto da tatuagem de novo. Será que ele estava em todos os lugares? Fiquei olhando para o tigre fingindo que não tinha o visto. Ele chegou mais perto de mim e, ainda olhando para o tigre a nossa frente, falou:
- São fascinantes, não são?
Olhei para ele como quem diz “hã...você esta falando mesmo comigo?”
- ah...são mesmo! Um pouco assustadores, também.
- ah, só um pouco! Mas trocaria o assustadores por ferozes.
- é...pode ser. – sorri e fui me virando em direção ao lago com meu sorvete.
- posso saber seu nome?
- Alice.
- Gabriel, prazer!
- Prazer...Gabriel.
Gabriel, porque esse nome me lembrava alguma coisa? Tudo se encaixava de alguma forma, mas não podia ser, justo hoje, só podia ser uma enorme consciência, não era verdade.
Ainda assustada decidi matar a ansiedade e o nervosismo com um saquinho de pipocas e sentei às margens do lago. Vovô sempre comprava um saquinho a mais para dar aos patos, muito embora, eu ainda acredite que pipoca não deve fazer muito bem aos patos. Lembro que naquele dia em que conhecemos o garoto o vovô comprou dois saquinhos extras e deixou que o garoto desse a pipoca aos patos.
Aquele garoto, ele também se chamava Gabriel, também gostava de tigres, também era bonito e, também, estava ao meu lado agora.
Levei um susto e quase sai rolando em direção às aguas geladas. Fiquei olhando para ele sem acreditar. E então, com um sorriso irradiante, ele falou:
- É...pelo visto, você ainda vem ao parque comer sorvete de chocolate e, depois de todos esses anos, tem medo dos tigres”.
Dar a volta por cima não é derrubar o outro e vê-lo cair. Dar a volta por cima é olhar no fundo dos olhos dele e ser capaz de sorrir. Lágrimas fortalecem aqueles que não sabem rir.
Não era para ser mais um jantar qualquer. Na verdade não era mais um jantar qualquer, era um jantar com a pessoa amada. Era especial para ambos. Só que eles não sabiam o que aguardava por eles.
Como o tempo era curto e ambos tinham aula naquela noite, saíram juntos do trabalho e foram ao shopping. Até então o jantar havia sido maravilhoso, assim como todos os momentos em que passavam juntos. A conversa fluía, as risadas eram naturais e o tempo passava depressa.
Quando se deram conta de que não tinham mais tempo juntos, se retiraram do restaurante e seguiram em direção ao carro.
Caminhavam lado a lado, até ela parar. Quando ele notou que ela não estava mais ao seu lado ela já estava com a mão no coração sem conseguir falar.
- ei, o que houve?
A resposta dela foi o simples cair no chão num desmaio rápido e inesperado.
- Pelo amor de Deus alguém me ajude! – ele gritou.
O socorro veio em seguida, pessoas de aglomeraram a volta deles sem entender o motivo daquela linda moça estar deitada sobre o chão, inconsciente.
O caminho até o hospital foi aterrorizante, os paramédicos conversam com ela, tentavam fazê-la acordar. Diziam a ele que ela estava viva, mas não respondia a nenhum sinal deles, como se estivesse em transe ou coma. Ele só conseguia dizer:
- tragam ela de volta até mim, por favor, façam alguma coisa!
A frustação dele durou cinco dias doloridos, até que ela acordou, assustada, confusa e muito agitada, como se não quisesse que ele estivesse alí, no hospital, ao seu lado. Ficaram um longo tempo sem se falar, apenas olhando uma para o outro e tentando lembrar de tudo. Ele sentiu uma felicidade incrível ao ver aqueles olhos castanhos abertos mais uma vez.
Ela estava preocupada.
- eu desmaiei, não é mesmo?
- sim.
- isso não é bom.
- você se lembra de alguma coisa? Os médicos disseram que você está com ótima saúde, mas que você vai ficar aqui até descobrirem o motivo do seu desmaio.
- não preciso que ninguém descubra o motivo do meu desmaio, médico nenhum saberá a resposta, não há nada de errado comigo, preciso sair daqui.
- calma, meu bem, é melhor você ficar aqui.
- não! Você não entende. Não posso perder tempo, na verdade, agora já é tarde demais. Por favor, preciso ir embora.
- ok, fique tranquila, vou falar com os médicos e se for preciso de cuidados você pode ficar na minha casa, prometo cuidar muito bem de você.
- não posso ficar na sua casa, não posso mais te ver, nunca mais, ok?
- acho que você esta delirando, como assim não pode mais me ver, eu te amo, você me ama, não ama?
- por favor, não me faça explicar.
- o que você está escondendo de mim? Você tem uma doença rara? Por favor, me explique, vou fazer de tudo pra te curar, mas não me pesa pra ficar longe de você.
- não sou eu que tenho uma doença. E sim, não há cura, você não sabe como queria saber a cura...
- estou confuso. Não chore, meu amor. Me conte!
- não posso! Por favor vá embora, pra sempre! Eu...não...o...amo!
- o que?
- por favor...saia!
Sem entender completamente mais nada ele saiu do quarto de hospital desiludido, triste e com uma dor tremenda. Como ela podia dizer que não o amava, ela mentira todo o tempo? E que doença era essa sem cura que ela não queria lhe contar, porque não contava? Ele lutaria até o fim para vê-la bem e saudável.
Ela sabia que estava mentindo pra ele, mas era a única coisa que podia fazer, quando o desmaio vinha significava que as coisas só iriam piorar daqui pra frente. Ela já lutará todas as vezes e nunca conseguiu...
Se afastar dele evitaria mais sofrimento. Não podia deixar ninguém descobrir. Quando chegasse a hora certa ele saberia e uma carta explicaria tudo.
Duas, exatamente duas semanas, se passaram até os jornais estamparem a seguinte manchete: “jovem rapaz morre subitamente de ataque no coração. Apesar dos esforços incansáveis dos médicos não foi possível reanimá-lo. Ele sofria de uma doença rara, desconhecida por muitos especialistas e até agora, sem cura. Os familiares informaram que o jovem nunca apresentou nenhum sinal de doença ou problema no coração, todos estão chocados e sem reação frente ao acontecimento.”
A carta dela:
Sim, eu te amava!
Desculpe não te contar, mas essa era a única solução. Não posso mudar o destino de ninguém, essa é a regra. Você não faz idéia de como gostaria de poder mudar o rumo de toda essa história e estar ao seu lado agora.
Sei que quando estiver lendo essa carta já não terás mais de cinco minutos, e é só isso que eu posso te dizer.
Espero que me perdoe. Acredite que nunca foi tão dolorido escrever uma carta dessas como foi pra você.
Espere por mim, sei que estarei ao seu lado no dia 21 de dezembro. Quem sabe o céu seja o melhor lugar para nos amarmos, pra todo o sempre!
Aja paciência. Chuva, frio, lama. Deus acordou com péssimo humor hoje. Resolveu assustar todos os habitantes da cidade.
Ele estava atrasado para uma importante reunião. Desviava o carro de todas as sinaleiras e não enxergava um palmo a sua frente. Compromissos, reuniões, almoços importantes e ainda as compras de Natal. Sem tempo para qualquer diversão e muito menos para levar uma bronca do seu chefe.
Ela corria contra a chuva abaixo de uma sombrinha rasgada. Estava mais que atrasada. Maldito despertador. Logo hoje, no dia de sua entrevista, a chance de mudar de vida, o desgraçado resolveu não despertar. O ônibus já havia passado, e o próximo estava passando. Ela corria, mas ele parecia tão distante. Todas as forças na natureza estavam contra ela naquela manhã, porque lá se foi o ônibus. Agora precisava correr ainda mais.
Ele tentava ligar para todos. Tentava justificar seu atraso e pedia perdão, ao mesmo tempo que dirigia seu conversível prata. Que se explodam as multas de transito. Só por ultrapassar os sinais vermelhos sua caixa do correio lotará na próxima semana. Ele passou por uma poça d´água.
Ela se molhou com um engraçadinho que passou por uma poça. Agora o dia estava completo. Chegaria à entrevista com o cabelo desfeito, a maquiagem borrada, a roupa ensopada e soltando fogo pelas narinas. Atravessou a rua olhando para a cara do motorista apressadinho, apenas por um segundo, porque o apressadinho não parou para olhar a sua cara.
O que se seguiu foi um estouro do choque entre uma mulher apressada e um luxuoso carro de um homem apressado. Ele foi obrigado a parar. Só lhe faltava essa, atropelar alguém: hospital, polícia; agora sim, perderia o dia inteiro. Até que viu o corpo estendido no asfalto. Perfeito, numa paz inexplicável. Na verdade, tem explicação, causa e conseqüência. Ele era a causa e a conseqüência que viria. Desesperado tentou reanimá-la. Um pouco assustada e confusa acordou sem entender o que havia acontecido. Ela tentou perguntar, mas a voz ela havia perdido ao vê-lo mais de perto. Ele tentou responder, mas sua voz ficará dentro do carro.
Ela era tão linda.
Ele era tão lindo.
Quando se olharam, a chuva virou neve, o frio virou calor e o tempo virou pena. Flutuava com calma apenas observando aquelas figuras estranhas no meio da rua.
O relógio os despertou. Ela tentou se levantar, mas ele não deixou. “Vou chamar uma ambulância, você bateu forte a cabeça”. Na verdade, ele queria ficar um tempo a mais com ela. “Estou bem” ela dizia. Perguntou se ele não poderia lhe dar uma carona. Ela queria ficar um pouco mais de tempo ao lado dele. Engraçado? Ambos seguiriam a mesma estrada. Ele queria saber mais sobre ela:
- Você trabalha lá? Nunca vi você.
Tímida ela responde:
- Gostaria muito de trabalhar lá. Conheço todos os produtos, o último, ao meu ver, é o melhor lançamento de Natal que já vi. Também, faz um bom tempo desde de a última vez em que consegui um trabalho e não posso perder essa oportunidade, mas já estou atrasada.
Ele ouvia com a maior dedicação, felicidade.
- E você? Trabalha lá? – ela perguntou.
- Sim, sou gerente administrativo. Também estou atrasado. A pessoa que eu espero já deve estar me aguardando.
- Percebesse que você está atrasado. – ela responde.
Ele ri e olha um pouco mais a fundo nos seus olhos. Se os olhos são a janela da alma a dela era clara como água. Ficam um tempo, assim, sem entender o que está acontecendo aos dois.
- Adoro essa musica! É uma das minhas preferidas. As pessoas não gostam muito, mas eu adoro.
- Somos diferentes do resto do mundo. Tenho todos os CD´s dessa cantora.
- Não consegui comprar o último ainda, vou me dar como presente de Natal.
- Pegue aqui. Fique com ele. Seu presente de Natal.
- Mas ele é seu! Não vou aceitar. Assim você não terá todos os CD´s.
- Terei sim. Por favor, leve!
Ela aceitou. Que belo presente. O que ele queria dizer? Compraria outro CD? Ela não sabe, mas nunca iria imaginar que um homem vestido com terno e gravata, dirigindo um conversível de cinema lhe daria alguma atenção.
Ele estacionou o carro na garagem, ambos saíram correndo. Dentro do elevador só se podia ouvir a respiração arfante de ambos. Mesmo andar, mesmo setor. As coincidências eram muitas.
Ele entrou em sua sala, ligou todos os equipamentos necessários e por sorte a pessoa ainda não havia chegado. Sentou- se em sua enorme mesa de carvalho, olhou para todos os seus prêmios, como fazia para esquecer a solidão e se sentir importante. Não se sentir tão sozinho no mundo.
Ela estava nervosa e ansiosa para a entrevista, a secretaria lhe disse para aguardar mais um minuto, o gerente ainda não havia chegado. Sorte? Talvez, mas agora, sentada na confortável cadeira se sentia casa vez mais inferior, inferior a todo aquele ambiente de grandes conquistas e ficou se perguntando se teria mesmo toda a capacidade para atuar naquela empresa. Ela se levantou, não seria.
Impaciente ele ligou para a secretária, mas candidata havia desistido.
“Quando se ama, os pensamentos são iguais e as vontades cada vez mais reais.”
Ela corria pela praia, tentando fugir daquilo que a assustava. Ela corria pela praia, tentando fugir do medo. Ela corria para fugir dos próprios pensamentos. Ela corria numa praia deserta para que não pudesse ouvir qualquer opinião ou solução para seus problemas.
Pintava a areia com suas pegadas e encantava o sol com suas lágrimas. Não conseguia entender como alguém podia se sentir tão feliz e tão triste ao mesmo tempo. Sentia-se culpada por não notar, parecia sempre tão certa sobre tudo, parecia. Com ele era diferente. Suas idéias, todos os seus planos, confissões, desejos e sonhos pareciam ainda mais belos. Então por que não ficar ao lado dele? Eu já disse, ela estava confusa, ela ainda está confusa. Lembra-se do dia em que ele cantou: “É tanto, é tanto. Se ao menos você soubesse. Te quero tanto”. Ela sabe.
Então por que fugir? Ela foge porque nunca sentiu isso antes? Mas e todos os outros que amou, todos os outros a quem dedicou um pouco do seu coração? Aquilo não era amor? Será que era apenas paixão? Ou o fato de nunca ter sido correspondida faz com que ela se sinta assim? Ela se sente assim porque alguém não desistiu dela, porque alguém a corteja, porque alguém demonstra interesse. Não é qualquer interesse, mas o interesse. O tipo de interesse que alguém demonstra quando encontrou a pessoa certa. O tipo de interesse que diz: eu preciso de você, você é tudo o que eu preciso. Encontrei o meu tesouro, não vou perdê-lo.
Será que agora não é tarde demais para lutar? Será que agora é tarde demais para dizê-lo: eu achei o meu tesouro. Desculpa, demorei demais para perceber. Na verdade ela já sabia, no fundo, que era a pessoa certa. Na verdade, ela sabia que tudo o que precisava era dele. Como tudo em sua vida era difícil, não será tão simples assim ficar ao lado dele. Ambos terão que passar por obstáculos: distância, preconceito entre inúmeros outros que não vale a pena mencionar.
Ela corria pela praia sem enxergar. Chegou ao ápice de seus pensamentos e suas lágrimas. Por que chorar? Por que se isolar, quando o que ela está sentindo é o melhor sentimento que pode existir entre os seres humanos? Por que não arriscar? Por que não seguir em frente? O que se tem a perder? Por que não se dar uma chance de ser feliz? Por que não pensar apenas em si mesmo? Por que não lutar contra todos?
Ela confiou em tudo o que ele disse no dia anterior. Ouviu seu pedido com atenção, combinou todas as regras e detalhes – como uma mulher sempre costuma fazer – e, finalmente, aceitou o seu convite. Alguma coisa dentro dela dizia que era loucura aceitar o convite de alguém que ela mal conhecia, mas outra parte parecia que já o conhecia de longa data.
Já passava das 20 horas quando ela passou pela porta do restaurante, com o seu vestido preto básico, seu coque bem feito e sua auto confiança. Um senhor de mais idade, bem vestido e humorado lhe perguntou se tinha reserva para essa noite. Ela tentou o nome dele, ele havia feito a reserva como ela esperava. Ao menos ele não havia se esquecido.
A mesa que ele escolhera era perfeita, com vista para o mar. Flores e velas a enfeitavam. Era uma pena ele ainda não ter chegado, ela queria ter feito surpresa, não imaginava chegar tão cedo. Estava calma, ele podia estar preso no trânsito, quem sabe?
Passaram-se 10 minutos, mais 5 e parecia que ele não viria. O idoso educado perguntou a ela se não desejava algo para comer ou beber enquanto esperava. Ela aceitou a sugestão e pediu um dos pratos mais baratos, todos eram absurdamente caros. Junto com o prato veio a surpresa: o garçom novato, com todo a vontade derrubou a massa com molho em seu colo. Foi a gota d’ água para que ela explodisse. Correu para o banheiro, mas a água parecia não resolver o seu problema, nem acalmar seus nervos. Já passava das 21 horas, não havia motivos para acreditar que ele ainda viria. Com raiva, foi seguindo o seu caminho a pé.
No meio da rua, um vendedor de rosas cantava poesias para atrair os jovens casais que passavam pela praça. Ela irritada, não podia nem pensar e ouvir as canções de amor que saíam da sua boca. Parece que ele havia lido os seus pensamentos, pois chegou mais perto dela e lhe ofereceu uma rosa. Uma rosa para uma bela mulher solitária. Continuou a cantar, e ela, furiosa, pensava nas conversas que haviam trocado, nos sorrisos entre uma olhada e outra. No quão agradável era poder tê-lo por perto, mesmo que fosse por poucos segundos. Não podia acreditar que tudo era mentira, porque ele a convidou então? Não era o que ele queria? Isso não estava certo, alguma coisa devia ter acontecido, porque ele não ligara então? Porque não havia avisado? Ela agora estava em pânico, mas com raiva. Resolveu cortar caminho pelas ruas e parques da zona leste, esqueceu que o chafariz da praça central, aquele que não é exatamente um chafariz, mas uma rua com chuveiros ao contrário, espirrava água a cada duas horas. Exatamente quando ela passou pela rua, as 22 horas, o chafariz jogou sua água no resto do vestido. Agora não sobrava nada, nem um pingo de vestido, nem calma e muito menos a confiança com que entrara no restaurante horas antes. Agora não podia conter mais suas lágrimas, podia ter ficado em casa, não seria tão ruim estar sobre as cobertas, olhando um bom filme, sozinha. Que diferença fazia? Ela estava sozinha, no meio da praça, chorando, sem saber o que fazer. Desejando com todas as forças nunca mais vê-lo.
Ela estava arrasada, sim. Mas parecia que o rapaz deitado no chão um tanto desacordado estava em pior situação que ela. Não quis se aproximar, mas algo chamou sua atenção: por que um mendigo usaria aquelas roupas? Era um rapaz que precisava de ajuda. Alguém que não havia caído de propósito. Ela correu. Quando estava a dez passos de distância, achou o que procurava e esperava durante toda a noite. Era ele, deitado na rua. Ela gritou, sacudiu o seu corpo, mas parecia que nada o reanimava. O seu rosto perfeito, estendido em suas mãos, branco e sem vida. Conseguiu chamar a ambulância e o socorro veio logo em seguida. Seu pânico era tanto, que mais uma vez desejou estar em casa, no conforto do seu sofá. Como não havia mais ninguém por perto, ficou responsável por acompanhar ele até o hospital, ela ficou assustada, mas queria saber o que havia ocorrido, se ele sobreviveria. Os médicos não conseguiam reanimá-lo, e o caminho até o hospital parecia tão comprido porque aquela angústia corria em seu corpo.
Algumas semanas se passaram e ela nunca deixou de visitá-lo. Por vezes, sonhou que ele acordaria e poderia caminhar pelas ruas. E quem sabe sair com ela para um agradável jantar? Suas esperanças quase se foram, mas ele acordou. Forte e confuso, sem saber o que fazer, quem era ela. Pouco se lembrava do acidente, mas o rosto dela na ambulância ele recordava. Sua voz ele já havia ouvido muitas vezes. Perdido, ele pergunta quem é ela? Eu sou tudo aquilo que você precisa. Por um minuto, ele não soube o que responder, mas algo lhe diz que mesmo sem conhecê-la, sem nunca tê-la visto, ela pode ser tudo aquilo que ele procura. Ele até mesmo acreditava que já vira seu rosto nos sonhos, porque ela parecia um anjo, um anjo que veio das águas do mar para cuidar dele. Mesmo sem saber o seu nome, confiava seus cuidados ao seu anjo.
My Hard Sun @myhardsun-blog - Tumblr Blog | Tumgag