fatefulwords:
d’orleans, l.
Deixar a França para trás não foi uma tarefa fácil, mas Nicolas sabia que ele não teria paz estando no país, mesmo que em outra região. Sempre havia sido impulsivo – tomava as suas decisões pelo que sentia e não pelo que era mais lógico, e aquilo havia lhe causado muitos problemas. Quando decidiu entrar na seleção, ele não esperava se apaixonar. Nicolas tinha deixado tudo que restava do seu coração no Japão, com Michiko, ou era aquilo que ele imaginava. Fazia tanto tempo que sua vida era apenas uma sucessão de noites sem compromissos jorradas por garrafas de vinhos não terminadas e pontuadas por cigarros pós-sexo, que ele não imaginou que a seleção pudesse trazer nada diferente se não o desafio de ficar celibato por um tempo. Aquilo era pura vingança por como a princesa da França achava que podia lidar com seu amigo. Seu relacionamento com Léonie já havia sido corrompido desde o começo – pelos seus próprios motivos ocultos, pelo seu relacionamento com Dean, ou por ele achar que podia brincar com os outros sem se queimar.
Porém, no fim, ele quem se queimou.
Da França para a Croácia, então República Tcheca, e assim Nicolas foi pulando entre um país e outro, voltando às suas raízes nômades e tentando se divertir pelo caminho. O álcool, o sexo, as aventuras, tudo ainda fazia parte da nova jornada, mas tudo era bem menos… satisfatório. Era como se ele precisasse ir duas vezes mais forte em tudo para sentir algo por um tempo maior. Como um fósforo, ele sentia-se queimando rápido demais e o prazer nada durava.
Como a seleção havia sido popular, Nicolas era mais reconhecível do que gostaria, principalmente entre um determinado público feminino que parecia desesperado para dormir com um príncipe. Por um tempo, foi divertido conseguir tudo que queria facilmente (era assim que seu irmão se sentia? Ele achou hilário a ideia), mas Nic sempre preferiu o anonimato e o trabalho duro. Ele não queria ter as coisas por ser o príncipe da Suíça, mas porque ele merecia. Seus pais tentaram fazê-lo voltar à Suíça, mas ele rejeitou a ideia – assim como ele sempre desligava o telefone se eles ousassem a mencionar Leónie ou a França. Os seus pais estavam tentando fazer o melhor para ele, até mesmo mencionar a entrevista que ele não havia visto, mas Nicolas não queria saber. Leónie havia feito sua escolha e não havia sido ele, então ele fugiu. Ele passou tanto tempo fugindo dos fantasmas do seu passado, mas onde quer que ele fosse, parecia que eles o seguiam.
Quanto mais tempo se passava, entretanto, mas a novidade se esvaia e mais ele voltava a ser um rosto desconhecido, que apenas algumas pessoas saberiam quem ele era. Ele voltava a não ser nada especial – ninguém conhecia o duque, o príncipe da Suíça, o ex pretendente da princesa da França. Ele era apenas Nicolas. E, quase um ano após a seleção, ele acabou se estabelecendo em Budapeste ─ fazendo amizade com algumas pessoas e reencontrando velhos amigos, alugando um apartamento em Ferencváros e arrumando um emprego num bar local. Não era a primeira vez que ficava em Budapeste, então não existia o sentimento de novidade, mas ele sentia que precisava de algo mais familiar e as amizades que já tinha antes ajudavam-no a não recair e fazer alguma besteira, tipo ligar para Leónie.
Uma de suas antigas conhecidas da cidade ajudou-o a conseguir emprego no mesmo bar que ela trabalhava. Uma das coisas mais divertidas de trabalhar num bar certamente era flertar com as clientes que apareciam. Era completamente inofensivo e às vezes dava bons frutos – fosse boas gorjetas, fosse números de telefone – e, assim, ao ouvir uma voz feminina, Nicolas já olhava para cima com o seu melhor sorriso antes de se deparar com a última pessoa que esperava ver ali.
Leónie ainda estava tão bonita quanto antes – se não estivesse ainda mais bonita. Havia cortado o cabelo, mas o novo corte combinava com ela, ou talvez com alguma versão dela. Esse era o grande problema, não era? Nicolas nunca soube se ele conheceu de fato Leónie ou se ele formou uma ideia dela pela qual ele mesmo se apaixonou. Cada vez que encontrava com ela, ela parecia agir diferentemente e isso o enlouquecia. Era a vida de realeza que não parecia deixar que eles fossem pessoas de verdade. Nicolas sabia que ele havia mentido para ela sobre quem ele era na primeira noite e depois sobre os motivos dele estar na seleção, mas ele nunca mentiu sobre sua essência.
Não sabia determinar se seu estômago havia despencado de um abismo ou se tinha dado um leve salto, mas era irrelevante. Ele engoliu seco e virou-se para pegar uma garrafa, ganhando tempo. Tudo que ele tinha passado tanto tempo cuidadosamente mantendo guardado dentro de algum lugar nele veio à tona como uma avalanche. Ele nunca tinha sido muito bom em esconder o que sentia (bem, na verdade, ele nunca quis esconder), porém, agora ali, com ela em seu local de trabalho e uma multidão ao redor deles, ele precisava esconder. “Cocktail ou puro?” Perguntou, como se não conhecesse o suficiente a rainha da França para saber o que ela gostava de beber. Tinha se dado tempo suficiente para voltar a ter o mesmo sorriso juvenil no rosto, segurando uma garrafa de whisky e uma coqueteleira em outra mão. Talvez, se ele fingisse que não a conhecesse, ela desistiria do que quer que estivesse pensando. Talvez ela iria pensar que ele estava muito melhor e deixa-lo em paz, porque ele não sabia se poderia ir naquela montanha-russa novamente.
Não se lembrava de já ter estado tão nervosa e sem saber ao certo o que fazer antes, em todos aqueles anos de vida sempre fora muito determinada e destemida, talvez tenha ficado nervosa na primeira vez em um palanque, na sua primeira vez com Dean, mas nenhuma dessas vezes chegava perto do que estava sentindo naquele momento. Seu coração batia tão forte e rápida que poderia acreditar que ele pularia para fora e cairia em cima do balcão a qualquer momento. Suas bochechas não paravam de doer do tanto que sorria, sentia-se feliz de uma forma única, Nicolas não era o motivo principal do sentimento, mas era uma parte importante dele. Também sentia-se grata de várias formas, o sentimento de gratidão não era algo comum a si, não foi criada para agradecer e sim dar ordens, a seleção a transformou e muito daquilo foi devido ao príncipe suíço (que provavelmente não fazia ideia de tal coisa).
Percebeu a falha no sorriso dele quando a reconheceu, poderia jurar ter sentido o corpo estremecer quando seus olhos encontram-se brevemente antes dele virar-se. Será que ele iria ignorá-la? A pontada de decepção foi inevitável, mesmo que não estivesse esperando uma recepção calorosa… Na verdade nunca soube o que esperar realmente, Nic sempre fora uma incógnita para si, jamais conseguiu prever qualquer reação dele, mesmo quando se esforçou para pedir desculpas e até mesmo lhe revelou que sentia a falta dele. As reações dele na época a deixaram mais confusa e com raiva, por um tempo pensou em desistir dele completamente, era difícil dizer o que realmente a levou até ali, o que a fez ir atrás dele, depois de tantos… problemas. Talvez ela só quisesse provar a ele que era diferente, que estava diferente. Nem mesmo Léonie saberia dizer, ela apena sentia que devia algo a ele, uma explicação, uma declaração… Talvez estivesse sendo teimosa por ele ter partido quando ela o quis tão profundamente que quase a destruiu. Sentia que devia a si e a ele uma tentativa, não poderia dizer uma segunda chance, porque ele poderia simplesmente não querer.
Se perdeu em pensamentos no pequeno instante que achou estar sendo ignorada, piscou breve em confusão quando ouviu a voz dele. O sorriso era o mesmo, mas podia ver algo diferente ali, então percebeu uma coisa que a fez baixar os olhos e rir fraco. Ele estava mesmo fingindo que não a conhecia quando esteve claro instantes atrás em seu olhar que ele a reconheceu? “Cocktail, por favor” Respondeu debruçando-se no balcão, sem tirar os olhos dele, observando todo os seus movimentos, não apenas por estar curiosa, Nicolas sempre foi alguém interessante e… bom de se olhar, não que ela tenha admitido isso rapidamente para si própria, demorou uma eternidade. Ele continuava belo como sempre, sexy com sua forma espontânea de se expressar, ainda que percebesse algo diferente, como se o suíço estivesse se contendo.
Não explicaria que já fazia muito tempo desde a última vez que tinha bebido de verdade, a ponto de temer e praticamente ter certeza que sua resistência ao álcool estava beeem fraca. Durante todo aquele tempo fez de tudo para agilizar o quanto antes toda a reforma política francesa, também fez terapia e tratou de alguma coisas que precisava, precisou tomar remédios que não podiam ser misturados com bebidas alcoólicas e aos poucos fora perdendo o hábito.
Alguém esbarrou em si enquanto esperava a bebida, espalmou as mãos no balcão para impedir o tropeço dos pés e logo sentiu uma mão em seu ombro. Ao virar a face notou um rapaz com sorrindo presunçoso. “Pois não?” Inclinou levemente a cabeça para o lado, questionando-o com o olhar, quase como se o desafiasse. “Você é tão linda que poderia ser a minha rainha”. O centro de suas sobrancelhas se enrugou, estava quase incrédula, ele não parecia tão bêbado. “Eu sou a minha própria rainha, não tenho interesse em ser a de alguém”. Respondeu com diversão, voltando-se novamente para o balcão, tinha acabado de apoiar os antebraços quando sentiu a mão do homem quase na sua. Agora ela estava começando a ficar irritada. Retirou o braço fazendo o outro se desequilibrar. “Não estou interessada”. Sua voz agora era mais firme, seria pedir muito uma noite sem confusão?















