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@myrealproblems-blog
Na liquidez desses teus relacionamentos, na rapidez das tuas escolhas vazias, esconde um pavor quase sufocante de se machucar novamente, ou sentir um desejo quando não se sente nada. É se entregar para a primeira pessoa, tentando se achar. Você pode ter várias companhias durante o prazer mas no fim, o quarto estará sempre cheio de você e seu medo. Já foi difícil suportar, o sexo com alguém que não é nosso é um copo de álcool que tomamos sabendo que no fundo não vai saciar nossa sede, mas nos tira de nós tempo suficiente para experimentarmos uma felicidade vã, torta e rápida. É uma droga. A liquidez, tão agradável não lutar por ninguém, ter quem quiser a hora que quiser, acatamos isso como se o coração não pulsasse nunca, como se nunca fossemos sangrar por ninguém. Um pulo ou outro em ilhas diferentes, com medo de pousar só em uma e ela ser inóspita suficiente para lhe enlouquecer… Essa é a tal liquidez de Bauman.
Gutto
O Medo de Leandro
E todos os moradores da vizinhança viam um bando de crianças correndo e gritando, algumas vezes ao dia. O motivo era um jovem com os dois braços atrofiados, esguio, cor negra, cabelos alvoroçados que vestia jaqueta ao contrário, com o zíper fechado nas costas. Falava enrolado e olhava as pessoas com a cabeça baixa assim, debaixo para cima, aparentando sentir medo do mundo. Os pequenos simplesmente ficavam em pânico ao vê-lo passar pela rua. Aquele homem torto, todo estranho, que não falava e tinha um olhar esquisito não era tão conhecido, pois a chance de lhe conhecer nunca fora dado. As pessoas apenas o temiam. Esse era Leandro.
Em mais um dia de caminhada na rua, onde as crianças corriam, saiu de dentro de um pequeno restaurante uma menina muito pequena e curiosa, olhos redondinhos, vestido rosa florido e trancinhas, que o vendo, prontamente chegou perto com um pacote de batatas e o ofereceu sem nenhuma estranheza. Leandro com os olhos arregalados, porém de cabeça baixa, pegou duas batatas e consumiu, prontamente saindo de perto da pequena garotinha trêmulo, enquanto ela perguntava o por que estava na rua. E o motivo pelo qual as crianças corriam sempre dele. O pobre infeliz rapaz nem sabia se comunicar para explicar a inocente menina. Mesmo assim, pareciam ter criado uma conexão que não precisaria verbalizar para se entenderem.
Os dias se passaram e toda comida que sobrava do restaurante a garotinha armazenava, e quando via novamente aquele bando de crianças correndo, lá estava Leandro e a pequena garota logo gritando atrás:
- Leandro volta aqui, sua comida!!!
Todos os clientes do restaurante assistiam as crianças correndo de Leandro, e o rapaz correndo de medo da garotinha que ia logo atrás com um pacote cheio de alimentos e boa ação.
É Leandro, para quem já sofreu, um pequeno gesto de amor demonstrado dá medo mesmo.
Gutto
O silêncio é meu som preferido.
Em meio aos prédios da cidade, o sol se põe e não vemos a sua cor, só se repararmos bem. As cores cinzas e o reflexo dos vidros e carros ofuscam o pobre verde que conseguiu existir em meio às calçadas.
As únicas cores que vemos são puramente artificiais, em propagandas e pinturas que nos fazem refletir como gastar mais.
A cidade nos pede urgência, rapidez e agilidade. Se não for útil, você não precisa mais voltar. Se não vender sua alma, não vai pertencer. O ser é ter e eu me deito jovem e acordo velho, cansado e sem esperança. E ao olhar em minha janela, só avisto mais cinza.
Quando estou na natureza, me reencontro, preciso ver se vai chover, onde me abrigaria. Se tomaria chuva, e perceber os animais que podem estar ao meu redor, as cores das plantas, o cheiro e a temperatura. Eu vejo a complexidade de tudo, só pode ter sido organizado por algo maior que se conecta a mim. Eu estou vivo, estou lá. É um estado puro de presença que só a natureza pode me proporcionar.
Se eu pudesse escolher e eu luto por isso, estaria preso ao presente sempre.
Gutto
Pintura do criador.
O espelho do outro de Kafka
Há aqueles que passam a vida inteira tentando polir espelhos que não os refletem. Vivem dobrando a espinha para caber nas molduras que os outros desenharam. Sorriem com a boca, mas sangram pelos olhos.
Agradar os outros… É como correr dentro de um corredor que se estreita a cada passo. Você vê portas, mas elas sempre se fecham antes de você tocá-las. É como escrever cartas que nunca são lidas,ou como se apresentar a um tribunal que já tem o veredito antes mesmo do seu nome ser chamado. Kafka talvez dissesse que o homem que vive para agradar os outros é como Gregor Samsa, acordando um dia transformado não em inseto, mas em uma máscara, uma carapaça de desejos alheios colados sobre o próprio rosto. E quanto mais tenta agradar, mais se perde. A sua voz ecoa dentro de si como em uma caverna vazia, sem resposta, sem sentido, sem eco. Mas há uma saída, estreita como o espaço entre duas palavras sinceras: é a recusa gentil, porém firme, de continuar sendo o que esperam. É o gesto silencioso de quem decide quebrar os espelhos e caminhar no escuro. Pois ali, na sombra, longe dos aplausos falsos, mora o único olhar que importa: o seu.
Gutto
L i b e r d a d e
Quantos anos vividos, carregando um incômodo que crescia gradativamente, assim como meu corpo. Era um sentimento de ver grandes coisas acontecendo, atribuídas ao divino. Grandes pessoas de fé encarregadas de transmitir a palavra, e sim, ela comovia, por vezes causava medo, alegria, alívio. Mas era sempre algo razoável. Um razoável que não dá sede, que tem retrogosto mas não sabor. Era como respeitar e amar algo que nunca foi possível provar.
Cresci, textifiquei, testemunhei grandes coisas, como aqueles que admirava tal fé e responsabilidade. E defendi a lei, derramando a palavra com amor e respeito do mesmo modo, mas nunca na magnitude que esperava.
Eu lia, testemunhava, refugiava todos e a mim mesmo no verbo, na qualidade dEle, mas eu nunca estive consciente do poder real.
Até entender que faltava viver. Mas como viver se tudo que eu sabia e espalhava era tudo que eu entendia como "viver por Ele", e de repente me pego de surpresa sentindo nada ser suficiente.
E algo irresistível apareceu, tive de perdoar aos que me faltavam, e a mim que também faltei. E oferecer amor a quem jurei nunca entregar nada, e amar meus inimigos. Sem perceber, estava vivenciando o real viver, e as coisas já não poderiam ser mais razoáveis mas deveriam ser radicais.
Nunca entenderemos de fato, a santidade não é um spoiler do que será feito conosco, pois não somos santos, mas pecadores.
Mas a sede insaciável de viver o que se prega, com certeza é a marca dos que são dEle.
Gutto
Se fosse morrer amanhã o que desejaria ver no espelho hoje?
O grande filósofo Marco Aurélio nos trás essa bela reflexão.
Se morresse amanhã, o que gostaria de ver hoje no espelho? Alguém mais jovem? Mais rico? Mais bonito e magro? Ou alguém realizado em suas conquistas terrenas?
Dinheiro, fama, reconhecimento. Brilhantismo?
Um ser humano mais paciente, amável e saudável?
A morte a convite de Marco Aurélio nos faz o convite de pensar sobre a vida.
Queremos ser ou ter?
Gutto
Pelos meus Cálculos
Toda vez que me agradaram, provinha dos seus. E toda vez que senti paz, ela vinha de ti.
Os momentos tempestuosos, e as mais corrosivas dúvidas, me ensinaram através da sua palavra. Os atos mais bonitos e generosos que eu tive, foi exemplo Teu.
Pelos meus cálculos, o único que sempre esteve derramando sua graça, apresentando os seus foi sempre Tu. E eu aprendi que não preciso de mais nada.
Já me és suficiente.
Gutto
É como se eu caminhasse por um pasto verdejante e se eu sentisse o ar puro enchendo meus pulmões e tocando meu rosto. É leve e refrescante, diferente de todas as aventuras nas quais eu participei.
Você me fala de um Deus que nunca ousei tocar e você exala o melhor dele mesmo não sendo perfeita. E através da sua manifestação de vida eu o enxergo mais próximo, grande e implacável.
Durante toda minha vida fui apresentado a cenários catastróficos e até interessantes, mas nunca pude enxergar o que vejo agora.
Você é preocupada e ao mesmo tempo tão doce e leve, muito frágil. Tenho medo até de chegar muito perto com minha mania de quebrar tudo que me expressa importância.
Gutto