Nação Conspiração começou a nascer em 2019 como trabalho final da disciplina de Roteiro III, inicialmente (e ainda atualmente) a ideia era de desenvolver uma websérie com a temática da teoria da terra oca, trazida como uma ideia de roteiro pela Giovana, que conheceu a teoria através de sua mãe, nossa primeira intenção era utilizá-la como uma verdade absoluta, um mundo completamente real, porém desconhecido pelos humanos da superfície. Queríamos mostrar, através de vlogs, um humano que “caiu” no centro da terra e foi adotado pelos atlantis (civilização nativa do centro da terra). Kleber contaria sua história através de vlogs e demonstraria sua vontade de retornar para a superfície a fim de conhecer seu povo e seu mundo de origem. Com isso em mente, começamos a nos aprofundar mais sobre a teoria, pensar em como seriam os seres nativos do centro da Terra, sua organização social e quais e como eram os portais que haviam na superfície. Pesquisando sobre esses portais, nos surpreendemos ao perceber que supostamente existem passagens para a terra oca em muitos lugares ao redor do mundo e de diversas formas, como lagos, cavernas, vulcões e até pirâmides.
Inicialmente demos à série o nome de “Nova Atlantis” e escrevemos o episódio piloto para a disciplina de Roteiro III. No primeiro semestre de 2020, decidimos revisitá-la e produzir um episódio para a disciplina de Direção IV e, para tornar viável nosso mundo fantasioso, pensamos em utilizar colagens e animação stopmotion para representar o lado utópico da história. Infelizmente, nos deparamos com a pandemia da COVID-19 e esse projeto não conseguiu sair do papel. No finalzinho desse mesmo semestre decidimos realizar o TCC em dupla e acabamos escolhendo continuar trabalhando com esse projeto.
De início, resolvemos continuar com a ideia de fazer um projeto híbrido, unindo duas formas diferentes para representar uma narrativa por meio de vlogs da personagem principal, Kleber, em imagens reais e adicionando inserções de colagens, animações e imagens de arquivo. Mas, ao longo do caminho, começamos a pensar em novas possibilidades de trama, e achamos que seria mais interessante para a série se o protagonista estivesse na busca por um dos portais, querendo entrar no centro da Terra, assim podíamos explorar as viagens da personagem até o portal e sua pesquisa sobre. Kleber agora seria um youtuber conspirador em busca da terra oca, que antes era real e agora passa a ser apenas uma hipótese. A websérie seria composta por vlogs e vídeos diários onde ele contaria sobre suas descobertas e mostraria suas viagens no seu canal “Nação Conspiração” e, no final da temporada, descobriríamos um segundo personagem. Paulinho, que estaria assistindo a esses vídeos, descobriria que Kleber estava desaparecido e possivelmente teria conseguido passagem para o centro da Terra.
Estávamos caminhando bem com essa ideia, até que na sabatina de TCC I fomos questionadas se a série se sustentaria apenas com esses vlogs, ou seja, uma narrativa muito linear sem reviravoltas. Com isso em mente, decidimos repensar nossa narrativa, surgindo assim ideias para incrementar a história. Nosso primeiro passo foi incluir mais ativamente Paulinho na trama, porém com o foco ainda no youtuber, Paulinho seria apenas uma ferramenta para nos aprofundarmos na busca por Kleber. Com o passar do tempo, quanto mais desenvolvíamos a história, menos sentido fazia ter o Kleber como personagem principal. Foi difícil desapegar, mas decidimos que seria muito mais interessante para a história ter Paulinho como o foco. Assim nasceu a estrutura mais atual da série e do projeto, que seria desenvolver a estrutura com personagens principais e secundários, loglines e sinopses de cinco episódios, arco da temporada, clima, referências e a produção do episódio piloto.
A teoria da terra oca sempre foi uma constante no nosso projeto, permanecendo durante todas as mudanças e, com a personagem principal ainda sendo Kleber, nosso foco estava mais em explorar a teoria em si, com suas pesquisas, viagens aos portais, diários de bordo e afins, do que seu envolvimento pessoal com a mesma. Contudo, ao colocarmos Paulinho mais ativamente na narrativa e eventualmente o tornar personagem principal, percebemos que seria ainda mais interessante trabalhar o seu envolvimento e mudança de personalidade com a teoria, do que apenas a própria teoria.
A mudança do protagonismo acabou reverberando na série inteira, e surgiram novas personagens: Tânia, que é mãe de Paulinho, e Zefa, que inicialmente seria a zeladora do prédio. Começamos a pensar em como explorar o desktop da melhor forma e decidimos que a maior parte da série se passaria através do computador de Paulinho e de sua webcam, mas também adicionaríamos outros dispositivos como o celular e câmeras de segurança para ampliar a possibilidades de espaços além do quarto.
A partir da sabatina, definimos o que gostaríamos de entregar na qualificação, que seria o perfil dos personagens, o arco da temporada, as sinopses, as loglines dos episódios e o clima da série. Em decorrência da pandemia, todo esse processo de decisão e criação do projeto foi feito à distância, em reuniões semanais ficávamos horas conversando, criando e escrevendo o projeto.
Para nossa qualificação chamamos para compor nossa banca, além do nosso orientador Fábio Allon, os professores Pedro Faissol e Arícia Machado. Escolhemos o Pedro Faissol principalmente por ele ministrar aulas de roteiro, e achamos que ele seria uma ótima escolha para nos guiar em relação à narrativa e construção de nossos personagens e trama, além de que ele acompanha esse projeto mais de perto desde o começo, pois o primeiro roteiro, intitulado “Nova Atlantis”, foi escrito para sua disciplina de Roteiro III. E ele também ministrou, junto com o professor Alexandre Rafael Garcia, a disciplina de Direção IV, onde iríamos produzir o piloto da série. No caso da professora Arícia Machado, por ser a professora responsável pelas disciplinas de Direção de Arte e também Realização I, pensamos que ela seria uma boa adição para nos guiar na construção do clima e cenário da série, nos ajudando no desenvolvimento de suas camadas, e o que poderíamos acrescentar aos nossos personagens e cenários, fazendo-os ficarem mais complexos, ricos e profundos.
No nosso relatório de qualificação entregamos a série nesse formato:
KLEBER, 25/30 anos, sempre quis ser reconhecido na internet e tem canal no youtube sobre teorias da conspiração. Muito ambicioso, manipulador e egoísta, não mede esforços para conseguir o que quer, mesmo que isso envolva inventar histórias mirabolantes e fingir seu próprio desaparecimento.
PAULINHO, 18/22 anos, é sustentado pelos pais e está fazendo cursinho, é preguiçoso e passa a maior parte do seu tempo na frente do computador vendo vídeos ou jogando. Ao assistir um vídeo de Kleber ficará obcecado pela teoria, o que o levará a dedicar todo seu tempo pesquisando.
TÂNIA, 45 anos, é mãe de Paulinho. Uma mulher de negócios forte e poderosa, muito trabalhadora, não passa muito tempo em casa e por isso não acompanha a vida do filho de perto.
ZEFA, 60/65 anos, é a zeladora do prédio onde Paulinho e Tânia moram. Por trabalhar há muitos anos lá viu Paulinho crescer. É uma mulher muito simples, gentil e amorosa.
Paulinho encontra o canal Nação Conspiração do youtuber Kleber e se interessa por um vídeo sobre a teoria da terra oca. Ao ser cativado por esses vídeos, ele decide procurar o blog do youtuber e se depara com uma notícia de que Kleber está desaparecido, mas não chega a dar muita importância e não abre a matéria. No blog, ele encontra várias informações sobre a teoria e acaba passando o dia inteiro lendo e procurando informações sobre em outros sites e vídeos. Com o passar do tempo, Paulinho fica cada vez mais obcecado com a teoria e isso transparece tanto em sua aparência, seu comportamento, quanto no ambiente ao seu redor. Convicto de que a teoria da terra oca é real, Paulinho revisita a matéria que dizia que Kleber havia desaparecido e começa acreditar que o youtuber conseguiu entrar no suposto portal. Paulinho planeja-se para viajar e ir atrás da entrada para o centro da terra. Após se desentender com sua mãe sobre a viagem, o jovem decide pegar dinheiro escondido e seguir seu plano. Tânia percebe a ausência do filho e começa a se preocupar, contatando família e amigos que acabam não sabendo do paradeiro de Paulinho. Ela procura por pistas no computador dele e se depara com uma notícia recente de que Kleber fingira seu desaparecimento.
Na banca de qualificação foi trazida sugestões que foram muito pertinentes e nos ajudaram a começar a pensar em questões para amadurecer a série. O professor Pedro Faissol nos trouxe os seguintes pontos: possibilidade do foco narrativo se deslocar para Tânia, no quinto episódio explorar potencial dramático dela descobrindo o sumiço do filho e pesquisando sobre a teoria, mostrando a dualidade da mãe superprotetora desesperada em um primeiro momento, suas forças para encontrar seu filho; repensar os episódios 2 e 3, porque no momento eles estavam muito fracos, tendo a possibilidade de juntar os dois e focar nessa transformação do protagonista; justificar diegeticamente as elipses utilizando-se de diários, vlogs ou cartelas; mostrar o protagonista já no episódio piloto, tendo esse salto do universo online de Paulinho para o quarto, seu universo físico e por fim construir o memorial pensando em um projeto de edital de produção ou desenvolvimento de roteiro como ponte para continuar o projeto futuramente.
A professora Arícia Machado nos trouxe os seguintes pontos: trabalhar com elementos que mostrem a farsa, superficialidade das redes sociais, dar pistas na visualidade, principalmente pelo desktop, nas listas de favoritos, guias, papéis de parede, entre outros; pensar no contraste de como eles se mostram nas redes sociais em contraponto de como eles realmente são; uso do reflexo do monitor, mostrando o quarto de Paulinho; usar o monitor como janela e também como espelho, uma auto imagem; tomar cuidado com a visualidade do blog, para não parecer forçado demais, ser algo crível e não mal feito, levar a sério essa crença de Paulinho na teoria; imagens do quarto ficarem mais escassas no decorrer da série, a partir do tempo que ele fica mais na internet; o desktop poderia se preencher cada vez mais, igual ao quarto; ter tempos de respiro, contemplar o desktop, mostrar a vigilância dos eletrônicos.
Passada a qualificação já tínhamos a base da série (personagens, trama, formato e universo) bem formada, então os próximos passos seriam desenvolver e amadurecer os episódios e a partir disso as nuances e detalhes da série. A começar pelos perfis dos personagens, Paulinho antes estaria no cursinho pré-vestibular e teria entre 18 e 22 anos, mas achamos que seria mais crível se ele fosse mais novo, com 15/16 anos e estivesse no ensino médio, assim ele seria mais ingênuo. Ainda sobre os personagens, decidimos mudar a profissão de Zefa, que seria a zeladora do prédio, e passa a ser funcionária na casa de Tânia, criando uma proximidade maior com o protagonista, além de que, na época, tiramos o ponto de vista das câmeras de segurança, deixando apenas a webcam. No entanto, resolvemos voltar com essa perspectiva, tendo uma quebra no último episódio, e mostrando Paulinho fora de seu quarto. Já no primeiro episódio, nossa intenção era apenas revelar que havia alguém assistindo aos vídeos de Kleber, mas sem mostrar seu rosto, ou seja, apenas ações na própria tela do computador. Porém, concluímos que seria mais impactante para o piloto revelar esse alguém, no caso Paulinho, com a imagem do ponto de vista da webcam, dando o gancho para o segundo episódio, que é majoritariamente visto pela webcam. O segundo episódio foca na imersão de Paulinho na teoria, e nele continha uma passagem de tempo bem brusca, em um momento o quarto estava de um jeito e no próximo corte já estava tudo diferente. Notamos que esse episódio estava muito raso, as coisas aconteciam muito rápido e tudo muito direto ao ponto, só focando nessa pesquisa. Decidimos expandir esse tempo, adicionando ações cotidianas e trocas de roupa para dar profundidade a essa passagem, mostrando que os dias mudaram e ele ainda estava interessado na terra oca. Inicialmente, definimos que a série contaria com cinco episódios, tínhamos certeza do enredo do primeiro e do último, mas o miolo da temporada parecia um pouco fraco, assim decidimos juntar o que acontecia nos episódio 3 e 4. Depois disso, começamos a pensar se seria ideal diminuir o número de episódios ou acrescentar mais coisas a história, e chegamos a conclusão que seria melhor reduzir para quatro episódios do que tentar ficar encontrando outros acontecimentos só pra encher espaço. Assim, no terceiro episódio, Paulinho decide ir atrás do portal de entrada pro centro da terra, briga com sua mãe após pedir ajuda financeira para a viagem e por fim decide pegar o dinheiro e ir viajar escondido. No quarto e último episódio mudamos o foco narrativo para Tânia, mostramos ainda do ponto de vista da webcam ela preocupada com o desaparecimento do filho. Paulinho só aparece no final do episódio e da temporada, através de uma câmera fora de seu quarto, deixando um gancho de suspense do que acontecerá em seguida. Como mencionado anteriormente, nossa ideia inicial era roteirizar e filmar o episódio piloto, entretanto, por conta de tempo e da pandemia decidimos, para o melhor desenvolvimento da série, descartar essa ideia e escrever os argumentos dos quatro episódios e produzir um teaser.
Por fim, nosso memorial artístico-reflexivo apresenta uma contextualização sobre o tema e formato da série, nossas referências e todo o trajeto de construção e idealização até este último momento. Além de toda a estrutura formal da série composta por: clima da série, perfil de personagens, arco da temporada, loglines, sinopses e argumentos.