eu fiquei independente no dia da independência da bahia
A primeira coisa que eu tive depois que mudei de cidade foi a estante dessa foto. E te digo (e te dou o direito de me julgar por isso), poucas coisas dizem mais de mim do que ela. A estante de besteira ainda está na sala, no quarto e espero poder levá-la para todas as casas em que eu morar. É o que falta pra essa biografia do canto direito me definir melhor. Eu sou uma estante de besteiras. Uma câmera, um souvenir de um momento que não devo esquecer, uns livros que me contaram alguma coisa, um presente de um amigo, uma lembrança da infância, alguma coisa que eu achei e que é, de alguma forma estranha, muito importante pra mim. Como o globo quebrado que depois de muito pechinchar, comprei numa loja de velharias da Bela Vista. Uma das únicas coisas que eu comprei para preencher o vazio dessa estante [e talvez o da manhã de sábado].
Nesse tempo em que estou aqui, meu patrimônio cresceu mais ou menos assim: agora eu tenho geladeira, fogão, cama, tv, sofá, estante, etc etc etc, todas as tralhas de casa que não vou citar uma a uma. E quem diria, adquiri até mesmo um gato. Tenho dois anos a mais no RG, outro emprego, novos e velhos amigos, alguns hábitos que não tinha antes, um conjunto de regras e um lifestyle que é só meu. “É que o tempo passa”, me disse um amigo num e-mail ainda essa semana. Ele me contava que escreveu essa frase ao lado da cama pra lembrar quando julgasse necessário. Eu fiquei pensando que não escrevi nada talvez porque achei que já sabia. Mas, ao perceber que já passaram dois anos, tomei um sustão porque nem notei que o tempo estava correndo. Por isso, acho que é importante relembrar as coisas e, pros mais esquecidos, até mesmo deixar lembretes por ai.
Uma foto antiga de Gil Maciel [um ser superior], estava rolando no facebook de uns amigos. Era ele ainda com 20 e poucos anos dançando em cima de uma mesa. Foi um SMS que eu mandei pra ele que me fez receber uma resposta muito esclarecedora. Eu alegava saudades e orgulho e dizia que aquela foto era histórica. Ele dizia que a foto era emocionante pra ele também, porque ele ainda sobe na mesa e dança. Essa parte ele não disse, mas ainda dança o mesmo passo. Tomei uma lição ali, um drops sabor realidade. Como a realidade de todo mundo deveria ser e como eu espero que a minha seja.
Infografista que sou, tenho facilidade para organizar informações e fatos confusos de uma maneira cronológica. Nesse único caso, não é casa de ferreiro espeto de pau. De resto, não tenho um site incrível, não tenho cartão de visita e muitas vezes saio apenas mal diagramada por ai com uma roupa preguiçosa, a arte pela arte de ser desleixada [as vezes é bom]. Mas nesse dia, meu computador estava quebrado e o tempo estava sobrando. Deu uma vontade inadiável de relembrar.
Fiquei sentindo de novo a sensação do dia que, completamente sozinha na nova cidade, eu fechei a porta do apartamento da rua dos franceses e comecei a segunda parte da vida, que é o que chamam de ‘ser independente’.
O tempo passa.
*** 2 de julho é a independência da bahia. há dois anos atrás, nesse mesmo dia, eu cheguei em São Paulo. não sei o que isso quer dizer, mas acho incrível e simbólico mesmo assim.