eu confesso que já quis dizer muito. confesso que já tive muitas coisas em mim, distorcidas, tortuosas, que precisavam da minha saliva e suor para tomar forma. os fluidos do meu desespero as moldavam, emprestavam densidade. e eu esculpia no ar os delírios do meus próprios terrores. os meus medos, vistos de longe, eram menos assombrosos. meus amores desesperados, tomados entre minhas digitais, passavam de inimigos cruéis a caridosos amigos. eu escrevia e regurgitava meus órgãos para acalmar o espírito e prosseguir. sempre funcionou.
porém dia desses me vi com vontade de escrever mas sem ter o que moldar. porque a linguagem, ainda que poderosa, está presa aos limites materiais daquilo que se quer expressar. é o máximo que se consegue dizer, o quanto o braço consegue alcançar e os movimentos que a língua é capaz de fazer.
e nem tudo é materializável. todas as coisas que você sempre quis são indizíveis. o cerne do seu espírito é indecifrável. a resposta de algumas perguntas não pode sequer ser sussurrada.
apenas e somente a ação configura.
e olhar nos olhos de outrem é mais do que qualquer texto. e sentir a pele de alguém é o símbolo maior, a expressão mais perfeita da nossa limitação de comunicação enquanto gente. enquanto massa de carne que pensa. enquanto ridículo que anda.
não há escultura a parir porque não há inimigo a tomar forma. não há poesia a escrever porque a insuficiência vence. e na vitória silenciosa daquilo que não é suficiente, o coração encontra outras estratégias.
encontra o segredo de escrever com os próprios atos o sentimento que transborda. que afoga. que é o que somente aquilo poderia ter sido.
tudo.











