disastrous discordance @romanogers
O choque do acontecido atingiu-lhe como um relâmpago; eles tinham acabado de matar aquela pessoa. Eles estavam, de facto, a tirar-lhe a vida. Ela podia ter calculado que algo parecido podia já ter acontecido. Durante a guerra, ela entendia que precisava de tirar vidas para libertar outras, as circunstâncias pediam o simples “matar ou ser morto”; mas já não existia uma guerra a decorrer, daí não ser imperialmente necessário matar ninguém. Deixar alguém inconsciente fazia muito bem o trabalho, tal como lesões não fatais no corpo. Não era como ela nunca tivesse atirado o escudo com a pontaria travada para a cabeça, mas nunca tinha realmente chegado ao ponto de ter de fazer isto novamente, de voltar a matar. Com as memórias da sua vida antiga a rondarem a sua mente, voltou-se então para o colega que a tinha acompanhado nesta missão para, não conforto, mas sim, debater o acontecido, e, agora, com a consciência das suas condições, tudo atingiu-lhe com ainda mais força.
Ela entendia que Nash era a sua própria pessoa e ela não podia responsabilizar-se pelo que o colega tinha acabado de ajudar a fazer nem tratá-lo como uma criança que acabou de roubar um doce de uma loja; não era ela que o tinha de punir, se é que uma forma de castigo seria sequer aplicada numa situação dessa. Contudo, não podia deixar de se sentir igualmente culpada; ela tinha pedido o auxilio dele na pequena missão, estando ciente das suas formas de combate e sabia como se sentia em relação a morte. Sentia-se tola por ter presumido que, agora integrado no grupo, ele não voltaria a matar. De algum modo, ela sabia a verdade e tinha-se sempre calado, pelo menos até agora. E a culpa era tanto dele como dela, ela sabia muito bem disso, e o que está feito não pode ser apagado, mas também existia aquele sentimento de culpa que parecia atingi-la como uma facada no estômago. O sentimento desapareceria se ela também não tivesse participado na conta de corpos. Encheu o peito de ar, murmurando entre a sua respiração ainda ofegante da luta. “Por amor de Deus, o que acabamos de fazer?”
Nathaniel estava longe de se considerar com tempo livre. Enquanto se movia, sua mente estava trabalhando a todo vapor pensando na missão seguinte, enquanto ocupava seu corpo em fazer a usual contagem de corpos. Ele mal percebeu o estado de sua parceira, realizando todas as ações no automático. Geralmente, as pessoas acreditam que um espião está alerta por todo o tempo, mas não é bem assim. Por mais que seja difícil para ele admitir para si mesmo, Nathaniel ainda é um humano. Em campo, seus sentidos ficam extremamente aguçados, seus reflexos são imediatos e seus pensamentos, focados em atingir o objetivo. Não tem calor, não tem frio; há apenas o vácuo, o nada perpetuando em sua cabeça. Mas em seus raros momentos de lazer, ele se desarma, esquecendo do mundo, se preocupando em curar as dores físicas e consertar os erros da alma. As palavras afiadas de Steph, porém, o tiraram de seu transe. “Culpa de sobrevivente logo agora, Cap?” Ele devolveu, unindo suas sobrancelhas para demonstrar sua profunda irritação com aquele assunto. “Eu realmente não preciso ser lembrado que sou um assassino. É o meu trabalho, o nosso trabalho, e não tem outra forma de completarmos ele sem acabarmos com algumas vidas pelo caminho. Você chorou por cada vítima que fez na guerra, Steph?” O homem praticamente cuspiu as palavras. A missão havia sido uma fonte de grande estresse e deixou ambos cansados, e percebendo isso, Nathaniel recolheu-se. “Desculpa, Capitã. Eu... Desculpa, é só que... Não tem outro jeito, sabe? E francamente, eu pensei que você já havia superado isso. Eles são os caras errados, nós somos os certos, todo mundo sabe como essa história termina.”














