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DORK MAGAZINE — Destaque: Abel Belvoir lança EP secreto “Rooms Without Names”
📍 27 de dezembro 2023, 02:14 AM – por Olivia Pearson
Sem aviso prévio, sem campanha, sem legenda. Abel Belvoir apenas apareceu. E deixou um rastro de quatro faixas e um silêncio pesado atrás de si.
Na madrugada da última terça-feira, Abel Belvoir, conhecido por sua atuação na extinta banda 1996, lançou sem alarde o EP ‘rooms without names’. O projeto, descrito por ele como “pessoal, isolado e não pensado para ninguém além de mim e meus fãs”, traz quatro canções que caminham entre o instrumental e o quase-murmúrio.
A capa, um close granuloso do próprio Abel, foi publicada sem contexto em seu instagram com um link. Nada de entrevistas, nada de chamadas visuais ou colaborações. O que temos é música crua, com arranjos sutis, guitarras à margem do silêncio e letras que mais sugerem do que revelam.
Ele não deu entrevista por telefone. Mandou respostas em áudio, pausadas. Era possível ouvir o som do isqueiro acendendo. Um pássaro ao fundo. Alguns silêncios foram mantidos.
Olivia: Você não anunciou o EP oficialmente. Só postou a capa e sumiu. Isso foi intencional ou mais uma fuga?
Abel: Não tenho intenção de promover. Apenas fiz essas músicas e elas se moldaram. Eu só... deixei ali. Era um arquivo fechado fazia semanas. Gravei sozinho, em casa. Não mandei pra ninguém antes. Não era pra causar nada. Nem barulho, nem emoção. Mas às vezes o que é quieto chega mais longe do que a gente pensa.
O: Por que o nome ‘Rooms without names?’
A: Porque cada faixa foi escrita num canto da casa onde eu tava morando, e nenhum desses lugares significava nada antes. Eles viraram alguma coisa depois que o som ficou preso ali. Sabe quando você entra num quarto e sente que tem um peso no ar, mas não sabe o que foi dito ali? É isso. Lugar nenhum com história demais.
O: Vamos falar das faixas. Em “Peaches Etude”, que é instrumental, você deixou um canva escrito ‘Só deixei os dedos irem. Não era pra ser sobre nada, mas virou sobre tudo que não falei.’ Você sente que fala mais quando não canta?
A: Total. Às vezes a melodia tem vida própria e não precisa de complemento. Peaches Etude foi tipo... quando você tenta não pensar, mas o corpo lembra sozinho. Gravei num fim de tarde ruim, e só deixei fluir. Tocar me salva. Mas o pior é isso: a gente toca pra esquecer, mas o som lembra.
O: Em “The 90s” você diz que não é sobre saudade, mas sobre o tempo errado. Isso é algo recorrente na sua escrita?
A: Sim. Eu sou o tipo de pessoa que lembra de coisa que não viveu, sabe? Tipo uma memória emprestada que de tanto ouvir consigo me por nessa realidade. The 90s não é sobre a década em si, mas sobre essa ideia de quando o mundo parecia menos rápido. Mais analógico. Quando as pessoas erravam devagar. Não é nostalgia. É vontade de ter existido num tempo que combinasse mais comigo. Mas isso nunca acontece. Pessoas certas no tempo errado.
O: “Happy Now?” tem um sarcasmo que quase engana. Você fala que ‘é um blefe’. Você sempre esconde a dor atrás da ironia? A: Acho que sim? [silêncio breve. Um som de trago.] É minha forma de não dar muito de bandeja. O refrão parece leve, mas... sei lá. Foi difícil escrever.Dei risada quando terminei, mas engoli seco. E é isso: não foi sobre uma pessoa só. É sobre essa ideia de que a gente deixa as coisas limpas quando vai embora, mas não deixa. As pessoas esquecem o que largaram nos outros.
O: E alguma das músicas foi em específico para alguém?
A: As pessoas acham que escrevo sobre elas. Mas essas músicas são sobre mim tentando não escrever sobre ninguém.
O: Por que?
A: Porque quando a gente escreve sobre alguém, a gente entrega. No momento eu escrevo sobre o que ficou. Sobre o que não consegui dizer. É quase sobre alguém, quase sobre mim, quase sobre nada. E nisso, acho que acaba sendo sobre todo mundo.
O: Última pergunta: você vai tocar esse EP ao vivo?
A: Talvez um dia [risos breves] talvez nunca.
And at once I knew I was not magnificent
— Joris Linde
2025, Canadian Grand Prix
A primeira gota estalou no halo como uma pedrada leve. E depois, nada. Só o ruído abafado do motor e o assobio do vento recortando a lateral do carro enquanto Joris atravessava a reta que antecede a curva 6. Apesar de estar tranquilo porque ele conhecia bem aquela pista. Apesar do clima traiçoeiro, os muros perto demais, poças onde não devia ter poça… Aquela era uma das poucas corridas, além da de casa, que sua mãe fazia questão de estar presente.
“Confirmando: radar mostra chuva ganhando força entre os setores 2 e 3. Você quer inter?” A voz do seu engenheiro havia lhe puxado para a realidade novamente.
Ele não respondeu de imediato.
Pé cravado no acelerador, o carro mergulhou em velocidade para dentro da curva 7. Estava em quarto lugar, estava quase lá. A traseira escorregou meio palmo, não o bastante para assustar, mas o bastante para avisar. Joris ajeitou o carro com um toque de punho, e continuou. Olhos fixos, mandíbula cerrada.
A asa traseira tremia no fim da reta. A pista refletia o céu nublado como vidro trincado que tinha algumas partes molhada, em outras ainda quente, rugosa, seca. — Ainda tenho grip... ainda tenho grip. — Voz baixa, tensa, abafada sob o capacete saia quase que atravessada. A única pessoa que podia julgar o grip dos pneus era ele, porque estava ali dentro. E Joris tinha grip.
Na entrada da curva 10, ele percebeu: a frenagem tinha que vir antes. Uma poça se formava rente à zebra interna. Ele corrigiu. Freou mais reto. O carro derrapou milímetros antes de assentar no chão novamente.“Parte do traçado tá molhada” a voz do engenheiro voltou. “Se parar agora e secar em três voltas, perdemos a janela.”
— Copiado. — Linde nunca foi do tipo que ia até o limite, todos ali sabiam que ele era bom e ele tinha segurança no que fazia. O carro ficava mais quente e ao mesmo tempo, molhado, pelo que vinha do céu.
E então, de repente, o setor 3.
Na freada para a última chicane, ele viu o brilho denso da água se acumulando do lado esquerdo da pista. Uma nuvem baixa se movia lentamente sobre o circuito, derramando chuva de um jeito desigual e cruel. A zebra ali estava escorregadia como gelo. A linha de dentro, invisível sob a água.
Ele manteve a velocidade. Decidiu por não decidir. Se segurasse mais duas voltas, talvez o traçado inteiro molhasse, e aí sim, todos parariam juntos e ele não perderia nenhuma posição. Mas até lá… era só ele e a dúvida.
O carro bateu na zebra.
O pneu dianteiro direito subiu e escorregou. A traseira perdeu o eixo.
— Não, não, não... — O volante fugiu das mãos. E ele havia tentando recuperar, mas quando percebeu que seria tarde demais, soltou para que o impacto não arrebentasse os seus pulsos.
O carro tinha dado uma cambalhota e a parede chegou como um fim de frase.
Impacto. Seco, metálico, direto no muro do lado de fora. Dianteira destroçada. Asa arrastando.
Silêncio no rádio. Só o som da chuva engrossando.
“Joris, fala comigo.”
Respiração de Linde era pesada, ainda tentando entender o que havia acontecido.
“Joris, você esta bem?” — Tô bem.
Mais silêncio. Ele olhou em volta, os faróis de emergência piscando, a multidão longe, tão confusa. As gotas agora pesadas escorriam pelo visor e ele baixou a viseira com raiva de si mesmo. Ele havia ido longe demais, mesmo que seus pneus ainda tivessem aderência, era imprudente continuar forçando o grip esperando uma janela de pitstops.
O rádio ainda chiava quando ele soltou o cinto. Os sinais de emergência piscavam no painel à sua frente, como uma lembrança constante do erro. Lá fora, a chuva engrossava. Pesada agora. Fria. E quase instantaneamente Joris estava um pouco mais amargo.
Ele empurrou a proteção do halo com os punhos e ergueu o corpo devagar. A lateral do carro estava cravada contra o muro, pedaços de fibra de carbono espalhados no cascalho. O ar tinha cheiro de ozônio, borracha queimada e concreto molhado.
Uma bandeira vermelha tremulava ao longe.
O primeiro a chegar foi um comissário de pista. Depois, dois paramédicos, molhados até os ossos, com capas de chuva sacudindo contra o vento. Um deles apontou pro capacete.
“Pode sair sozinho?”
Joris assentiu. A voz não saiu, mas os movimentos eram firmes. As pernas responderam. O corpo inteiro doía, mas nenhuma dor aguda. Nada que indicasse fratura. Ele desceu com cuidado, afundando o pé no cascalho. Pisou com o esquerdo, depois o direito. Tudo ainda lá. Tudo funcionando. Tudo bem.
O Muro dos Campeões parecia menor visto de longe. Mas mais arrogante. Como se tivesse vencido mais uma vez.
address the letters to the holes in my butterfly wings nothing's forever, nothing is as good as it seems .
— Bridget Utonium
2025, Los Angeles (?)
Bridget sempre chegava cedo. Gostava de andar devagar até o hospital, como se os passos arrastados pudessem atrasar o inevitável. O prédio branco cintilava sob o sol de Los Angeles, mas tudo nela doía como se o dia estivesse nublado. Seu pai ainda respirava, por enquanto. Máquinas preenchiam o som do quarto. E ela sempre achava que podia ouvir a voz dele por baixo dos ruídos, mas talvez fosse só porque a época do soro se aproximava. A primeira coisa que fazia quando chegava ao quarto que ele estava, era sentar ao lado da cama e tirar o mp3 velho do bolso da mochila. Tinha pintado ele com esmalte de glitter rosa quando era criança, colado adesivos de unicórnios, corações e estrelas. Música lhe ajudava a não pensar tanto em tudo, e com apenas um fone na orelha, a garota ajeitou a cadeira perto da cama e apoiou os cotovelos no colchão, como fazia quando era pequena e o pai lia para ela antes de dormir. Ele estava imóvel, preso às máquinas, com aquele bipe constante que já fazia parte do ar. Mas para ela, ele ainda estava ali, de algum jeito. Nunca dizia nada ali em voz alta. Não queria perturbar os outros. Conversava com ele por dentro, nos pensamentos embolados e confusos, onde ainda existia uma casa pequena com cheiro de açúcar, temperos variados e cereal. Onde os dois riam juntos, desenhavam juntos. Onde ele dizia: “Quando as cores ficarem confusas, Bee, só fecha os olhos e respira fundo. E não esquece de tomar o que eles mandam, tá? Isso ajuda o mundo a voltar pro lugar.”
E ela tomava. Sempre que necessário. Sem pânico, sem crise. O soro colocava as coisas nos trilhos, do jeitinho que ele falava. Depois, as lembranças paravam de escorrer como tinta na água. As vozes sumiam. Os pensamentos paravam de correr tão alto. Mas algo sempre sobrava. Sempre a mesma menina: olhos escuros, sobrancelhas marcadas, expressão de quem nunca se rende. Ao lado dela, outra, mais suave, mas incrivelmente durona. As duas apareciam toda vez que a data do soro se aproximava. Ninguém sabia quem eram, mas Bridget sentia uma saudade tão absurda delas que doía no fundo dos ossos. Não tinham nomes. Talvez fosse parte da sua imaginação completamente fora da curva. Mas sonhava com as três juntas, de mãos dadas, correndo entre prédios que não existem, em uma cidade que tinha cheiro de algodão-doce e gasolina. Alguns diziam que era maluquice. E ela foi encaminhada para a ala psiquiátrica algumas vezes. E bom lá diziam os desenhos realistas das garotas que ninguém reconhecia eram só ecos de alguma ilusão mal resolvida. Tudo ficava embaçado quando tinha que ir lá. Davam outra coisa para ela, como se fosse um soro mais forte que lhe deixava tão sem vida que ela havia decidido não falar mais disso. Era melhor focar no que era real. Ela sentia falta do pai. Bridget continuava ali, imóvel, com a palma da mão do pai descansando sobre a sua. O toque era leve, passava horas assim pois não queria o deixar sozinho.
Golden light, Heavy heart.
— Marco Di Angelis
Abril de 2025, Miami.
O mundo do lado de fora era barulhento. Mecânicos conversavam alto, ferramentas batiam, motores davam seus rugidos ocasionais. Mas ali dentro, no silêncio abafado do seu trailer, Marco só ouvia o próprio coração. E esse batia rápido, impaciente, quase furioso dentro do peito.
Sentado à mesa de canto, com o laptop aberto à sua frente, ele respirava fundo, tentando manter as mãos firmes. Elas não estavam colaborando. Algumas coisas haviam saído do seu controle na última semana, e talvez, mas só assim, talvez mesmo, as coisas pudessem ficar melhores entre ele e Eleonor.
A luz do fim de tarde filtrava pelas cortinas finas, e deixavam o aço escovado em um tom de dourado. Ele ajeitou a gola da camiseta pela quinta vez. Quase desejava que Mary entrasse ali e sinalizasse algum tipo de emergência. Seria mais fácil encarar qualquer coisa do que isso.
A chamada conectou.
E então o rosto dela apareceu.
A respiração de Marco ficou tão irregular, que era perceptível mesmo que por uma chamada que ele estava tenso. Rígido. A mandíbula cerrada, os ombros duros como pedra.
Ela estava sentada em algum lugar claro, ele arriscava que ali fosse alguma espécie de sala também. O fundo simples contrastava com a rigidez do olhar dela. A expressão era sempre a mesma quando era direcionada a ele. Di Angelis tentou sorrir, mas desistiu no meio do caminho.
— Marco. — ela disse, sem nenhuma entonação.
— Eleonor. — ele respondeu com um leve aceno, a voz um pouco mais grave que o normal. — Obrigado por atender.
Ela não respondeu.
Marco umedeceu os lábios. Estava quente ali dentro, mesmo com o ar-condicionado ligado. Ou talvez fosse só ele.
— Eu... sei que não sou a pessoa favorita da senhora. — Ele começou, direto, como ensaiado, percebendo que o sotaque ia ficando ainda mais pesado a cada palavra dita. — Mas queria falar com respeito. E pedir algo importante.
Ela cruzou os braços. Aquilo doía mais do que ele gostaria de admitir.
— Quero pedir a mão da Bree em casamento. — disse enfim. Sem floreios. Sem voltas. Era melhor dizer de uma vez.
Um segundo.
Dois... — Não. A palavra foi cortante. Precisa. Sem hesitação.
Ele piscou, engoliu em seco. Um pouco incrédulo. Ele sabia que seria uma conversa difícil, mas jamais imaginou que fosse ser desse jeito.
— Eu... entendo que a senhora tenha motivos. Mas...
Ela ergueu a mão, pedindo silêncio. E ele obedeceu.
— Você tem ideia do que causou na minha filha? — A pergunta veio com calma, como se ela estivesse esperando exatamente aquele momento para o lembrar daquilo. E isso foi como uma estocada no peito. Marco fechou os olhos por um instante. Era agora. Era o momento de parar de se esconder.
— Tenho. Eu vi depois. E... levei tempo demais para entender tudo. Achei que me afastar era o melhor, depois de tudo... Mas eu não consigo viver sem ter a Bridget na minha vida.
Ele tentou intervir, mas ela continuou.
— Eu a vi juntar os cacos sozinha. Eu vi o que você deixou pra trás. Então não, Marco. Eu não aceito esse pedido.
Ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Não estou pedindo que goste de mim. Mas quero que saiba que Bree é a melhor coisa que já me aconteceu. E que, se ela disser sim, eu vou passar todos os dias da minha vida tentando ser o homem que ela merece.
— Querido, não insista. Você não tem a minha bênção pra casar com a minha filha. Nem agora. E, sinceramente, talvez nem nunca. — Do lado de fora, uma buzina soou breve mas ele estava tão apreensivo que simplesmente não conseguia perceber nada mais em volta. — Eu não confio em você, Marco — ela disse, por fim. — Principalmente com a história dessa garota grávida que...
— Isso não é verdade, eu não... — Antes de continuar se defendendo ele percebeu as feições da mulher — Eu quero formar uma família com ela.
— Família, Marco? Isso não é uma série de TV em que todo mundo se perdoa num episódio emocionante. Eu sei exatamente o tipo de circo que você vive, mas isso aqui é a realidade.
Ele a olhou, e por um segundo, teve vontade de gritar. De levantar dali, de dizer que ela não conhecia nada dele, que ela não sabia nada da sua vida e que nunca havia dado brechas para que ele mostrasse de verdade quem era. Mas não gritou. Não podia. Não naquele momento.
— Eu não aceito esse casamento. — disse ela novamente, com a calma. — E se ela aceitar, vai ser sem minha bênção.
Marco mordeu o lábio inferior. As palavras dele vinham até a garganta, mas nenhuma parecia suficiente. Ou certa. Ou digna.
— Eu entendo. — disse enfim, num sussurro rouco.
— Você pode amar minha filha o quanto quiser, Marco. Mas isso não te torna digno dela. — Ela inclinou um pouco o rosto para a frente, como se quisesse garantir que ele ouvisse cada sílaba.
Marco balançou a cabeça, concordando com o que ela disse. De certa forma, ele concordava com ela.
E então ela desligou.
Hoje tem open bar pra ver minha desgraça.
— Ignacio Canavaro
Fevereiro de 2025, Palermo.
Nacho estava sozinho em seu escritório, a luz da cidade se refletindo nas janelas, mas ele mal notava a vista. Seus olhos estavam fixos no copo de uísque em sua mão, o líquido âmbar deslizando lentamente pelas bordas, como se quisesse demorar a cair. Ele o ergueu e tomou um gole, sentindo o ardor queimando sua garganta, mas não havia alívio naquilo. O sabor forte e seco não era mais um prazer. Era apenas mais um lembrete de que ele estava à deriva, tentando se aferrar a algo que já não significava o que um dia significou. A sensação de controle, de superioridade, estava indo embora. Ele sabia disso. E, por mais que tentasse esconder, uma parte de si já aceitava que a queda era inevitável.
Lá fora, o mundo continuava em movimento, mas dentro de si, ele se sentia paralisado. Havia tentado tudo para manter sua posição, tudo para seguir sendo o homem que todos esperavam. Mas, agora, ele via que não havia mais como enganar a junta diretiva da sua empresa. Ele se lembrava claramente de quando tudo começou a desmoronar. O momento em que o quarto relatório não podia mais ser falsificado, quando a fachada da sua empresa finalmente ruiu diante dos seus olhos e a verdade não poderia ser ignorada. Não havia mais como escapar, nem com os truques que o haviam sustentado por tanto tempo. O império que seu pai pensara ter construído com mão firme agora parecia prestes a desabar, e ele não sabia o que fazer para impedir isso.
Claro que ele havia pedido ajuda a Lola. E depois de uma dúzia de críticas, ela havia elaborado algumas estratégias com Calderón. E mesmo que a nova coleção começava a mostrar bons resultados e as coisas começavam a melhorar, ainda faltava muito.
Ele não podia ser o salvador da própria história, não dessa vez. O que ele não conseguia negar era que, apesar de todo o esforço dela, a empresa estava ainda a meses de distância da recuperação. Pelo menos seis meses. E, depois da forma como ele havia sido enganado tentando escolher outro fornecedor mais barato e perdendo mais de 4 milhoes de dólares e tendo acabado caído em mãos de contrabandistas, ele sabia que sua posição poderia ser ainda mais ameaçada.
A bebida no copo se mexia novamente, como se o chamasse, como se fosse o único consolo que ele ainda tinha. Ele se forçou a parar de pensar na queda, mas era impossível. A verdade era que ele estava tão distante de onde queria estar que, por mais que tentasse dar um passo para frente, parecia que estava apenas sendo puxado para trás.
Falsificação de relatórios financeiros, subestimação da importância da transparência com os acionistas, desconsideração dos alertas internos de Lola, falta de inovação e adaptação, negligência nas relações com parceiros e stakeholders, excesso de confiança nas próprias decisões, descontrole emocional e impulsividade, falta de sucessão planejada, desconfiança e isolamento, negligência com o bem-estar da empresa e dos funcionários.
“Seis meses”, ele murmurou para si mesmo, sentindo o peso daquelas palavras. Não havia mais como negar: ele estava no limbo. E, por mais que se fosse com a ajuda de Lola, aquele limbo se estendia. Mais seis meses de luta, de tentativas, de reformas. Mais três coleções que não podiam ousar em dar errado.
Ele sabia que, sua queda seria inevitável. O erro estava ali, estampado em todos os relatórios, em cada decisão errada que tomara. E, enquanto o uísque descia, ele se perguntava se ele conseguiria encontrar uma saída. Ou se, na verdade, ele já estava tão afundado que não haveria mais nada para salvar.
O pensamento de que ele precisaria de mais seis meses para sair daquele buraco o fez apertar o copo com mais força. Seis meses... seis meses de luta para um império que ele não sabia mais se queria manter. A queda estava ali, mas talvez, no fundo, ele soubesse que aquilo fosse a única chance de se reerguer de forma verdadeira.
twenty years have passed, but the Di Angelis name resonates stronger than ever.
Carta entregue por Marco di Angelis a Olive Calahan, horas após o parto de Serena Sainz.
Oi, minha princesa. Primeiro, deixa eu te explicar uma coisa: seus pais estão acabados. Sério, eles estão no limite do que um ser humano pode ter de energia. Então, não culpe eles por não terem feito nada tão legal quanto essa carta. Eles estão ocupados descobrindo como ser pais, o que parece bem mais difícil do que parece. Mas uma coisa eu sei com certeza: eles te amam muito. Eu vi a história deles desde o começo, e agora, você está aqui. Quando você crescer e, quem sabe, tiver um bebê também – e eu espero que isso aconteça quando você tiver uns trinta anos (porque gravidez na adolescência é algo muito preocupante) – saiba que poderá contar comigo para tudo. Sempre. Minha lealdade é toda sua. Se precisar dar perdido nos seus pais, me avisa antes, e eu cubro qualquer história. Tamo junto, sempre. Agora, deixa eu te contar como foi o dia de hoje, porque foi muito lindo. Faz só algumas horinhas que você nasceu, e já posso dizer que foi amor à primeira vista. Eu fui a primeira pessoa, além dos seus pais, a te segurar no colo. Ah, e eu e a sua tia Bree levamos flores pra você. Escolhemos rosas amarelas porque, sei lá, achamos que você ia ser loira. Sim, pode rir, porque agora isso parece meio bobo, mas tivemos boas intenções! Além disso, rosas amarelas significam alegria, felicidade e serenidade. E olha só: SEU NOME É SERENA! Tá vendo? Somos gênios. Agora, um aviso básico: nunca mostre essa carta pra sua tia Sofia ou chame a Bree de “tia” na frente dela. A Sofia é muito ciumenta e jamais aceitaria você chamando outra pessoa de tia que não fosse ela. Mas relaxa, ela te ama muito – só não tanto quanto eu (brincadeira… ou não) Mesmo assim, a sua tia Sofia é uma ótima pessoa e te ama muito. E, claro, a Bree também te ama. Não é uma competição, nunca será. Você é o bebê mais amado de Mônaco! Talvez o único bebê de Mônaco no momento, mas foca na parte do amor. Seus olhos são os mais azuis que eu já vi – uma versão ainda mais brilhante dos olhos da sua mãe. Do seu pai, você herdou só o cabelo (ainda bem, porque, cá entre nós, ele não é lá essas coisas) mas duvido muito que você seria feia. Hoje é 26 de janeiro, um dia lindo, numa Mônaco ainda mais linda porque você está aqui. Quando te peguei no colo, foi um momento muito diferente do que eu esperava, é muito diferente de segurar um gato. Dá um desconto aí, porque eu nunca tinha segurado um bebê tão pequeno antes.
Parece que você gosta vermelho, mas confio que vai crescer preferindo azul e o número seis, que são infinitamente melhores do que o número cinquenta e cinco. Logo você vai pegar seu primeiro voo sem nem saber o que é um avião e nem entender o nosso mundo, mas eu te garanto, e um mundo bonito. Com todo o amor do seu maior amigo no mundo inteiro Seu padrinho, Marco.
Lights will guide you home.
— Mary Abrams
Dezembro de 2024, Los Angeles.
Mary havia dormido de qualquer jeito na poltrona do hospital, era o seu segundo dia ali e o seu corpo ficava dolorido e a cabeça embaralhada. Ela não sabia o que fazer com a própria vida, mas uma coisa era certa estava exausta. Há dois anos, jurara que nunca mais mudaria de cidade ou de emprego por causa de um homem. Mas estava ali, considerando novamente abrir mão de tudo.
Se epreguiçou devagar, e olhou para Kevin. Ele parecia tão... indefeso. Tão frágil. Tão pequeno. Aquele homem magro e abatido à sua frente não parecia em nada com o seu irmão, e isso a matava aos poucos.
Se ela tivesse prestado mais atenção, se não tivesse sido tão egoísta em se fechar na bolha do trabalho, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Sempre haviam sido apenas eles dois, cuidando um do outro desde de que tinham 15 anos. Mas agora ela percebia o quanto havia falhado com ele. Kevin precisava dela, e ela estava ocupada demais vivendo uma vida que nunca foi feita para durar. Pierre, Facundo, Arthur, Miguel... e agora Mason. A lista dos últimos dois anos parecia um fardo. Todos passageiros, todos desgastantes.
Ela havia sido tão estúpida ao aceitar se mudar para seguir uma pessoa que amava e isso havia lhe custado dois anos inteiros. Dois anos fodidos que a afastaram de Kevin. E agora ele estava ali, a pele pálida, os braços marcados de hematomas, tão magro que parecia à beira de desaparecer. Mary sentiu seus olhos marejarem e a angústia no seu peito crescer. Tentava se esconder com o moletom que usava, que por infortúnio do destino era do time de Mason.
Rebecca não havia ido visitar Kevin nenhum dia.
Mary suspirou com os olhos ardendo e a garganta apertada. Ela ergueu o olhar para além do moletom para Kevin mais uma vez. Ele precisava de paz e estabilidade. Algo que eles não tinham desde que eram adolescentes.
Pegou o celular com as mãos trêmulas e digitou para Mason uma mensagem que parecia pesar mais do que o aparelho em suas mãos. Ela sabia o que significava deixar tudo para trás de novo, mas dessa vez era diferente.
Era por Kevin.
Dolores Canavaro mais conhecida como Lola Canavaro é uma executiva latino-americana de publicidade e marketing. no momento, ela está fechada para plots.
maximilian ethan williams mais conhecido como ethan williams é um automobilista britanico que atua na formula 1 pela williams racing. no momento, ele está fechado para plots.
If we got each other and that's all we have.
— Dominique Norris
Fevereiro de 2025, Londres.
Dominique estava sentada no sofá, com os olhos fixos na tela da TV, mas sem realmente ver nada. O silêncio no apartamento parecia a esmagar, e ela sentia o peso de cada respiração. O peso da dor ainda estava ali, tão forte quanto no primeiro dia. Charles a havia deixado pela terceira vez, e, apesar de tudo, a dor não diminuía. A saudade dele cortava mais do que ela gostaria de admitir, e, enquanto o mundo ao seu redor continuava girando, ela se sentia congelada no tempo.
Então, ouviu os passos de Lando. Ele apareceu na porta da sala, um pouco hesitante, como se soubesse que algo estava errado. Ele sabia reconhecer os sinais. Sabia que, quando Dominique estava assim, era como se o brilho dela se apagasse um pouco. Como se fosse a luz que iluminava todos ao redor, e agora... agora ela estava apagada.
Lando se sentou ao lado dela, sem pressa, sem palavras. Ele ficou em silêncio por alguns minutos, apenas observando. Ele sabia que ela estava mais sensível agora, mais quebrada. Mas ele também sabia que, com o tempo, ela voltaria a brilhar. Ele não entendia completamente o que ela estava sentindo, mas ele a conhecia. Sabia o quanto ela se entregava aos sentimentos, o quanto ela amava, e sabia que isso também a machucava profundamente.
— Ei — Lando falou, com a voz baixa, tentado não quebrar o silêncio com mais palavras do que o necessário. — Você não precisa ficar sozinha.
Dominique não olhou para ele de imediato. Seus olhos estavam voltados para o vazio, como se buscassem algo que ela não conseguia encontrar. Lando a observava, tentando entender como fazer para ela se sentir um pouco mais leve. Ele sabia que, por mais que tentasse, as palavras não seriam suficientes. Nada seria. Mas ele queria, de alguma forma, estar ali.
— Eu... não sei o que fazer, Lando — Dominique murmurou, com a voz trêmula. — Não sei como parar de sentir isso. Não aguento mais.
Lando a olhou com uma expressão suave. Ele não sabia o que dizer, mas não precisava. Ele apenas pegou a mão dela, em silêncio, e a segurou com firmeza. Não era para dizer que as coisas iriam melhorar de imediato, ou que as palavras dele poderiam curar tudo, mas para mostrar que ele estava ali. Que ela não estava sozinha, mesmo que sentisse o peso do mundo.
— Eu sei que dói — Lando disse, a voz calma, mas cheia de sinceridade. — Mas você vai passar por isso. E, enquanto isso, eu estarei aqui. Sempre, para o que você precisar.
Dominique olhou para ele, e, por um momento, sentiu como se a escuridão ao redor dela fosse um pouco mais leve. Não era justo ele perder todas as suas ferias cuidado dela, mas ela não tinha forças pra lidar com aquilo mais uma vez sozinha.
— Você sabe que eu sempre estarei aqui por você. — Lando a olhou com os olhos cheios de compreensão. Aquelas palavras ficaram no ar, quase como um sussurro de esperança. Ela não sabia quando ou como, mas algo dentro dela começou a se acender, como uma chama enfraquecida que voltava a se acender aos poucos. Ela sabia que, mesmo com a dor, ela ainda carregava dentro de si a luz que a tornava única. E Lando... Lando sempre a lembrava disso. Ele era a cor que iluminava tudo ao redor, mesmo quando o mundo parecia sem cor. — Vai passar, Dom — Lando disse, com um sorriso suave, sem pressa de sair. — Eu sei que vai.
Dominique não respondeu, mas conseguia acreditar mais naquilo, por ter ele ali.
im 26 and my folks are getting old i know they dont have forever and im scared to be alone. so im thankful for my brother, even though sometimes we fight; when my life wasn't easy, he is the reason i survived.
Still Sick, Even After the Third Goodbye.
— Dominique Norris
Fevereiro de 2025, Londres.
Charles a havia abandonado pela terceira vez. E, mesmo assim, a dor não diminuía. Ela ainda sentia o peso de cada palavra, cada olhar que parecia prometer algo que nunca viria. Dominique se pegou olhando para o vazio, a respiração errática, o peito apertado como se as paredes da sua própria mente estivessem se fechando sobre ela. Tudo que ela queria era simplesmente… ser feliz. Formar uma família, construir um futuro com ele. Era o sonho dela, a esperança que a mantinha viva mesmo nos momentos mais sombrios. Mas agora, tudo parecia um eco distante, algo que nunca seria real.
Ele dizia que a amava, que ela era tudo para ele, mas as palavras soavam vazias, como se tivessem perdido o significado. Ela se lembrou de como ele olhou para ela, com os olhos cheios de desespero, quando praticamente berrou que não queria se casar, que não se sentia pronto. Ele não se sentia pronto. E, naquele instante, Dominique entendeu. Ela não era a mulher com quem ele queria construir aquela vida. Ele não a via ali, ao seu lado, naqueles planos futuros que ela imaginara. Não importava o quanto ela quisesse. Não importava o quanto ela tivesse se entregado. Ele havia a deixado novamente, de uma forma mais cruel do que as anteriores, e agora, a única coisa que restava era a dolorosa constatação: ela não era a escolha dele.
O silêncio no apartamento parecia pesar toneladas. Dominique se afundou no sofá, seus olhos marejados sem que ela soubesse por que as lágrimas não paravam de cair. Ela não queria mais sofrer. Não queria mais carregar o peso de um amor que não seria correspondido da maneira que ela desejava. Mas a verdade cruel era que, por mais que tentasse, ela não conseguia simplesmente apagar tudo o que havia vivido com ele. Não conseguia apagar o amor que ainda, de alguma forma, queimava dentro de si. O desejo de estar com ele, de criar algo juntos… Mas ele não queria. Ele havia sido claro.
Ela queria entender como havia chegado ali. Como o amor que ela acreditava ser eterno agora se transformava em uma ferida que não parava de sangrar. Como ela havia se permitido ser tão vulnerável, tão dependente de alguém que, no fundo, nunca a enxergou da maneira que ela sonhava. Ela sabia que ele estava perdido, mas não conseguia deixar de sentir que também estava perdida. E, mesmo com todo o amor que ainda restava, ela sabia, no fundo, que já não podia mais esperar. Não poderia mais ser a mulher que ele não queria.
A saudade, agora, não era só do que eles tiveram, mas da mulher que ela queria ser ao lado dele. A mulher que ele não conseguia ver. E isso doía mais do que qualquer abandono que ela pudesse ter enfrentado. Era a dor de perceber que, talvez, o que ela mais desejava fosse um futuro que jamais existiria. E, com isso, ela sentiu a sensação de estar desfeita, sem chão, sem saber como continuar, sem saber o que fazer com um amor que se tornava cada vez mais impossível de viver.
Anxiety starts kicking in to teach that shit a lesson
— Sofia Sainz
Novembro de 2024, Qatar.
Assim que Milo saiu para trabalhar, Sofia permaneceu na cama, imóvel, sentindo o peso dos próprios pensamentos. Tigre sempre parecia adivinhar quando algo estava errado, se enroscava mais em seu colo. O ronronar dele ecoava pelo quarto silencioso, mas, ao invés de acalmar, parecia intensificar o barulho em sua cabeça.
Ela deveria estar bem. Tinha entendido as razões de Milo na noite anterior – ele não queria aquele emprego agora porque sabia que exigiria mais viagens, mais horas de trabalho, mais distância entre eles. E por mais que fosse algo grandioso na carreira dele, Milo havia escolhido priorizar o que os dois tinham. Isso deveria bastar, mas não bastava.
Porque ela sabia que eles dariam um jeito. Já faziam isso. Viagens, mudanças, algumas semanas longe um do outro – aquilo já fazia parte da dinâmica deles. Era cansativo. Óbvio, mas eles sempre encontravam um ponto de equilíbrio. Com o próximo ano, isso seria ainda mais fácil.
Londres parecia um novo começo. Ela tinha o filme pra promover, o projeto com a Disney começava a engatinhar e algumas músicas pra tirar do papel, isso sem contar os convites para colaborar com outros artistas.
Por isso, a decisão de Milo conseguia deixar ela ainda mais ansiosa. Ela não estava abrindo mão de nada. E aquele…. Era um sonho dele. Sainz não conseguia entender completamente como alguém poderia abrir mão de algo assim sem ressentimentos futuros. Ela sabia o quanto ele amava o que fazia – amava o desafio, a adrenalina, o ambiente das pistas. Negar isso parecia grande demais, até para ele.
Sofia passou a mão pelo pelo macio de Tigre, tentando afastar a espiral de pensamentos que insistia em crescer. Claro que era cansativo. Mas inevitavelmente sua mente começava a vagar. “E se?” era a pergunta que ecoava com mais força. E se, com o tempo, ele se arrependesse? E se ele começasse a se sentir limitado, como se a escolha tivesse sido uma obrigação e não uma decisão?
Ela respirou fundo, sentindo um nó formar na garganta. O pior medo, no entanto, era o que vinha por último. E se Milo começasse a perceber que ela não era tão perfeita assim? Com o tempo juntos, com a calma que o próximo ano parecia prometer, ele teria mais espaço para perceber suas falhas, suas inseguranças.
Ela fechou os olhos, mas as imagens continuaram vindo – cenas hipotéticas, impossíveis de evitar. Ele cansado de tanta proximidade, ele enjoando dela. Ele decidindo, que já tinha dado o suficiente.
Tigre se mexeu em seu colo, como se notasse a tensão crescendo nela. Mate, também estava ali e fez um movimento de se aproximar. Sainz esticou a mão para acariciar o cão, mas o gesto foi automático, vazio. Ela ficou ali por mais tempo do que deveria, paralisada entre pensamentos e realidade ate finalmente ter energia para se mover.
Pegou o celular e tentou distrair a mente. Abriu conversas com Olive e Catarina, e por um tempo funcionou. Sofia interagiu, respondeu, mas logo a ansiedade voltou com força. Ela sabia que não conseguiria deixar aquilo para lá sem alguma ajuda.
Stormy tinha deixado algo com ela na noite anterior. Algo que ela havia pedido. Sofia riu na hora, mas agora, mexendo no estojo, não achava mais tão engraçado. Depois de uma pausa longa, decidiu que precisava daquilo para lidar com o que estava sentindo.
Acendeu o baseado com mãos um pouco trêmulas e tragou devagar, sentindo o calor familiar se espalhar por seu corpo. Tigre, que ainda estava em seu colo a olhou com uma expressão que, se ele fosse humano, seria o retrato perfeito do julgamento. Sofia soltou uma risada baixa, o som soando fora de lugar no quarto silencioso.
— Não olha assim pra mim — ela murmurou, tocando na cabeça do gato, que continuou a encarar como se realmente estivesse condenando sua escolha.
A mente, tão caótica há poucos minutos, começou a desacelerar, como se alguém tivesse apertado o botão de pausa. Encostada na janela, com Tigre agora enrolado em um canto da cama e Mate deitado aos pés dela, Sofia olhou para o céu, tentando convencer a si mesma de que tudo ficaria bem.
Ela sabia que Milo a amava, sabia que ele sempre escolheria ela, assim como ela escolheria ele. Mas, mesmo assim, não conseguia evitar o medo do que o futuro traria. Do que eles poderiam perder – ou descobrir – com o tempo. Tragando mais uma vez, ela chegou à conclusão de que deveriam superar aquilo juntos.
pov: always yours. (part 2).
Vamos falar da briga. Eu senti que você escolheu o segredo no lugar de mim. Que de novo, você me colocou em segundo lugar. Eu me senti com dezessete anos, viajando pra Monaco e acordando chegando lá com fotos suas na noite anterior com outra menina. Fingindo que não tinha visto, indo pro seu apartamento e agindo como se estivesse tudo bem. Eu sei que o segredo é sobre o relacionamento da Sofia. Marco me contou. E é, eu consigo adivinhar que deve ser um pedido de casamento. Eu demorei 2min para chegar a conclusão, então você tava certo quando disse que eu iria adivinhar em três perguntas. Mas realmente, a briga parou de ser sobre o segredo quando eu disse que ia dormir fora e você, na minha cabeça, não pareceu se importar. Eu sei que você se importou. Eu mandei mensagem dizendo onde eu estava por isso, mas só... Tudo ocorreu feito uma avalanche aquela noite. Foi como a gota da água. De mil coisas que eu estava guardando dentro de mim. De coisas que eu não resolvi por completo, porque eu perdia coragem de conversar com você em algum momento- e eu sinto que você nunca me procurou pra fazer eu falar também. Eu quero que você faça isso, se você puder. Me procure. Eu espero que eu volte a conseguir coragem, mas no momento, eu não tenho. Eu não tenho vontade também, é um saco. Eu morro de medo de fazer qualquer coisa, porque parece que tudo vai dar errado sempre. Meu irmão em disse que você é quebrado, e que eu preciso me acostumar com os cacos. Eu nunca me importei com eles. Eu nunca me importei em me machucar por você. Mas eu acho que nós já somos adultos demais pra continuar assim. Eu não quero mais me machucar por você. Eu quero te ajudar a colar eles nos lugares- e eu sei que eu vou me cortar no processo, mas não para sempre. Falando em coisas que outras pessoas me disseram, sua irmã me disse que nosso tempo tinha acabado. Se eu estava pensando todas as coisas que eu estou, nosso tempo tinha acabado. E eu não consigo aceitar isso. Eu não consigo aceitar a ideia de não ser sua. Não existe um universo onde eu esteja ok com isso. Eu quero que amar você seja mais tranquilo. Eu quero que me amar seja mais tranquilo pra você. Eu quero que nos dois sejamos melhores. Por mim, por você. E pela Serena. E eu espero que você queira passar por isso comigo. Se você ainda me quiser, eu ainda quero ser sua noiva. Mas eu quero, e talvez o principal, namorar você. Eu acho que a gente não fez isso nos últimos meses. Eu não fiz isso. Eu não quero sair, eu não quero conversar direito. E qualquer coisa que você (e se serve de consolo, qualquer um) diz minimamente confusa, eu levo de um jeito errado. E amor, você é campeão em dizer coisas confusas, então tem sido complicado. Eu sinto sua falta. Não só esse tempo aonde eu fiquei em Barcelona, mas eu sinto falta de brincar com você. De sairmos passear. De... Mais. Acho que fui sempre eu quem comecei esse tipo de coisa, e eu não tenho tido energia pra isso. A gente estava voltando a agir assim, pre briga. Eu sei. Eu sei mesmo. Eu só... Não tinha resolvido tudo. A gente ainda não resolveu. Eu tô escrevendo isso, mas provavelmente temos muita coisa para conversar. Em resumo, eu acho que podia dizer; Eu amo você. Eu sinto sua falta. Sua filha sente sua falta. Eu sempre serei sua. Eu vou te dar mil e uma chances e espero que você me de algumas também, eu meio que preciso de paciência agora. Sua, Cielo. obs: eu estou no quarto.
❛ POV: always yours (parte 1).
Muitas coisas tinham sido doloridas nos últimos dias, mas ter lido "o tempo de vocês acabou" tinha sido uma das que mais havia doído entre todas. Mesmo quando eles tinham terminado, e ela tinha se mudado de continente fazer faculdade, ainda tinha uma chance. Os dois sempre tiveram uma chance na sua cabeça, e ela não queria perder essa possibilidade. Ela não queria perder ele para sempre. Depois da conversa, e após ter passado algumas horas chorando, Olive pediu para que Marco e Bridget saíssem, e ela teve uma sessão de emergência com sua psicologa que durou três horas. Ela já tinha sido diagnosticada com ansiedade, mas elas também falaram um pouco mais sobre isso. E sobre como isso estava afetando ela. Depois da consulta, ela comprou um voo pro dia seguinte para Monaco. Amar Santiago era difícil. Dizer isso não era a coisa mais romântica do mundo, mas era verdade. Mas ela não trocaria amar ele, por mais ninguém no mundo. Ele era, e sempre tinha sido, quem ela queria estar. Nada disso mudava. A psicologa tinha sugerido ela escrever tudo em uma carta pra Santiago, talvez para mostrar, talvez para só organizar o que estava sentido. Depois de procurar pelo Airbnb, ela conseguiu achar um caderno e uma caneta, e se sentou na mesa para que pudesse fazer isso.
Eu não sei por onde começar essa carta. Eu sinto sua falta? Eu amo você? É tudo verdade, mas também parece errado começar assim quando eu sei que tem mil coisas que devíamos estar conversando antes disso. Não que estejamos conversando agora... Acho que cartas provavelmente podem ser consideradas um monólogo, eu sou boa em falar bastante. E eu tenho certeza que estou me enrolando agora. Então... Aqui vai. Eu já te disse isso, mas talvez eu nunca tenha feito questão de explicar o tanto que é, mas tenho estado muito insegura. Eu sempre fui, você sabe. Talvez por isso não tenha sido algo grande quando eu disse, mas é só mais. Eu também não me sinto como eu mesma. Eu acho que eu não sou. Não querendo jogar culpa de tudo em hormônio da gravidez, mas eu me sinto como uma casca de eu mesma todos os dias. E É difícil. Eu fui diagnosticada com ansiedade. Eles tão inclusive investigando TOC, o que eu nem sabia que podia ser por pensamentos, achei que era tipo... Apagar a luz sete vezes, sabe? Esse tipo de coisa. Mas ficar pensando merda varias vezes seguida também é TOC. E eu penso muita merda. Eu também acho que se sentir sua falta pudesse vir como um laudo, eu teria sido diagnosticada com isso. Eu sei que eu já disse que sinto sua falta, mas não acho que consigo explicar. Serena sente também. Ela tá tão quieta. Eu odiava vivia reclamando de como ela nunca parava de se mexer, mas é pior com ela quieta. Eu notei que a única vez que ela se mexe mais, é quando to ouvindo sua voz. Tipo, vendo suas entrevistas pós a corrida do México. Voltei a me enrolar. Meu foco não anda dos melhores. Você já parou para pensar que... A maior parte da minha vida, eu fui sua? Eu fico pensando isso às vezes. Aqui em Barcelona, eu pensei mais sobre isso. Eu guardei meu primeiro beijo pra você. mesmo que antes da gente ficar, uma parte de mim achasse que nunca iria acontecer. Mas eu não queria beijos de outra pessoa. Eu meio que nunca quis. Eu sei que a gente passou anos separados. E eu sei que eu fiquei com várias pessoas nesses anos, mas... Nenhuma delas era você. Nenhuma tinha graça. E olha que eu beijo mulher (eu estou fazendo piadas, será que isso é o remédio fazendo efeito?). Enfim. E você, apesar de me tendo de um jeito que ninguém nunca mais vai me ter, ainda beijava outras pessoas. Eu sei que voltar em algo do passado não é o ideal, mas minha psicologia disse que eu devia admitir isso para você. Que ainda me incomoda. Que eu ainda fico mal. Eu jurei que tinha superado isso, mas a gravidez me deixou insegura comigo mesma, com eu não ser o suficiente para você, e só... Veio a tona de novo. Eu já me peguei cheirando sua roupa para ver se não tinha perfume de mulher ali, é péssimo. Eu não acho que você tenha me traído. E eu sempre soube quando rolou das outras vezes, mas eu tô meio que num medo eterno disso. Eu lembro que depois daquele encontro, na noite aonde a gente decidiu tentar de novo, nos conversamos. Eu disse que era a última chance. Eu lembro que beijar você de novo foi como voltar pra casa finalmente. Eu lembro de ter pedido para irmos devagar. E dai, dali a pouco, a gente engravidou. Nada devagar. Sabia que deve ter sido meio que nos primeiros dias que a gente transou, né? Eu amo a Serena. De verdade. Mas eu tô uma bagunça, a gravidez mexeu comigo de um jeito que eu não tinha pensado que podia acontecer. Eu acordo me sentindo exausta, e vou dormir da mesma forma. Eu me sinto feia toda vez que olho no espelho, e conforme a barriga cresce, parece que fica pior. Eu ando sem energia ou vontade de fazer qualquer coisinha. Eu andei lendo, e vi que é normal. Que depois do parto, normalmente as pessoas voltam a ser... Ela mesmo. E céus, eu espero que sim. Eu não quero ser essa versão de mim pra Serena. E eu não quero ser essa versão de mim pra você.