Tem uma outra pessoa dentro de mim. Ela parece comigo, pensa comigo, tem a minha voz, meu corpo, minha essência.
Essa pessoa, que vou chamar de Ana, tem me destruído por dentro. Pior, de dentro pra fora.
Questiona todas as minhas atitudes. Não perdoa um erro. Nem mesmo quebrar um copo de cozinha. Ela sabe que todos ao meu redor me odeiam. Sabe que eu não sou justa com os outros, porque me deixo afetar pelas críticas e assim eles deixam de me criticar. Por dó. Como se você fosse digna de dó, diz Ana rindo.
Ana compreende todos ao seu redor. Entende a dor, a paranóia, o sofrimento. Mas só se for alheio. Jamais se for meu.
Ana sabe que os outros não suportam mais essa versão de mim, insegura e sensível. Sabe que eu sou egoísta por transparecer meus sentimentos tão ridiculamente frágeis. Sabe que eu era forte, muito forte, mas que agora eu amarelei.
Porque também, de acordo com a Ana, eu só faço cagada mesmo.
Eu deixo meu namorado bravo. Ele que é tão perfeito, porque me aguenta, ficou bravo porque eu esqueci de chamá-lo para o jogo que eu tinha prometido que ia chamar. E a Ana, dentro de mim, faz minha cabeça e eu me sinto o pior lixo do mundo e fico chorando e tentando melhorar a situação enquanto ele me olha confuso e fala que tudo bem, que já passou, que não precisava ficar tão nervosa assim, que essas coisas acontecem.
Tudo o que eu queria era ser somente Eu de novo. A menina, ou melhor, a mulher forte de quase 22 anos, ariana, atrapalhadinha e grossa, porém empática e dedicada como ninguém, do riso fácil, que ri das próprias gafes e sabe que todo mundo erra e magoa os outros.
Não essa estranha, uma Ana, que chora por tudo, remói a bronca da amiga pelo seu atraso as 7h da manhã quando já são quase 23h.
Eu sinto o peso do mundo nas minhas costas e a Ana tem certeza que sou a encarregada por ele. Tem certeza que eu mereço esse peso.
E é desesperador porque eu estou começando a pensar como a Ana.
Tenho a certeza em mim, por causa da Ana, que eu jamais conseguirei me perdoar (sabe-se lá Deus pelo o quê; nem a Ana sabe porque). Que não vou conseguir ser verdadeiramente amada, ou pior, ser digna de amor. Porque eu sou desprezível.
E eu não aguento mais ter que me convencer de que eu mereço amor, carinho e perdão, sendo que NADA me aconteceu para me provar o contrário disso.
Eu simplesmente sou assim.
Eu queria tanto tirar a Ana de dentro de mim, mas parece que ela já fez morada. As vezes eu me pergunto se sou mais Eu ou mais a Ana.
Talvez as duas. Ou nenhuma.
Prazer, sou a Ana. Quer dizer, a Mulher.