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Todo e qualquer esforço de Felícia para conter as emoções do dono, para ajudar-lhe a se manter são, foram postos por água abaixo quando ouviu o que a loira dizia. Woodley congelou, seus olhos fitavam os de sua cadela, mas não era mais a mesma que ele enxergava; na verdade, não conseguia registrar mais nada. Carta? Sua criança? Aquela menininha era sua? Os olhos foram arregalados e desviados para a figura pequeninha que brincava um pouco mais distante deles, claramente uma criança feliz e saudável. Charlotte. Exatamente como ele sempre, sempre sonhou. Os olhos de Woodley perderam o foco novamente apesar de continuarem voltados na direção de onde a criança estava, ele não conseguia desviar o olhar mesmo que a mãe da pequena estivesse ainda falando. Tanto ele quanto Nicole tinham coisas entaladas na garganta, mas o problema era que nada do que ela falava, o ex-capitão tinha alguma ideia do que significava. A pequena garotinha, contudo, parecia ter alguns traços conhecidos que ele costumava ver em suas fotos de criança. Rapidamente o cérebro fazia a conexão. Seu nariz, olhos também. Os lábios e as bochechas são da mãe, no entanto. Assim como os fios claros, os seus são mais escuros mas eram clarinhos também quando na infância. Será que os dela iriam escurecer também? Engolindo em seco, tentou respirar fundo para controlar a respiração que tão rapidamente havia acelerado. Finalmente voltando a si, ergueu-se, olhando para Nicole. “Eu preferia ter morrido naquele lugar.” respondeu. Perdera boa parte das palavras alheias, mas pegou o suficiente para entender. “Eu preferia ter morrido do que ter enfrentado tudo o que aconteceu nesses últimos anos.” dissera com firmeza. Mas não era isso que importava, não mais. Não queria mais despejar nela sobre o sofrimento, sobre toda a complicação de sua vida que foi desencadeada pelo fim do relacionamento… Não, havia algo mais importante. “Que carta, Nicole? Eu não recebi carta alguma. Como… como assim… ela é minha filha? Você acha mesmo… que eu iria ignorar minha filha?” Woodley indagou, passando a mão no rosto quando sentiu uma umidade na bochecha. “Eu não sabia! Você não… você não tem noção do inferno que foram os meses após aquilo. Três meses depois que você me deixou eu sofri um acidente no campo, eu não recebi carta alguma. Eu não sabia.”
Eram tantas emoções a inundarem a jovem — a maioria delas tendo sido abafadas ao longo daqueles anos — que a mesma mal tinha controle sobre as próprias palavras, suas percepções também sendo afetadas pelo momento. Assim, foi somente ao final de sua fala que notou a confusão presente no semblante masculino — algo que teria distinguido mais rapidamente em outro contexto, afinal, conhecia-o como ninguém. Por que estaria tão surpreso? Não era possível que ele não tivesse recebido aquela carta, era? Alguns segundos mais tarde, Nicole se daria conta de que sim. No momento, porém, foi outro detalhe que capturou-lhe a atenção. E a mera menção de um final trágico despertou reações pouco usuais para a loira. Antes que se desse conta de seus próprios atos, a mão feminina foi de encontro à face dele em um tapa não muito forte, mas completamente inconsciente. Os olhos encontravam-se marejados, o coração martelava ruidosamente e um aperto em seu peito a fazia querer encolher-se. Mesmo depois de tantos anos, não podia suportar a ideia de encontrar seu corpo sem vida. E a estudante conhecida por transbordar alegria com um sorriso, agora parecia prestes a quebrar. “— N-não se atreva a repetir isso. Nunca mais. Não. Eu não sei o que você passou, entendo que deva ter sido difícil. Mas um mundo sem você... Seria um mundo mais vazio. Não... Não posso. Não faça. —” Os murmúrios eram pouco coesos, tamanho o emaranhado que existia em sua cabeça. Todos os medos do passado voltaram a preencher a Blanchard, acompanhados da dor que fora a separação. Foi nesse instante que as primeiras lágrimas desceram pelas maçãs de seu rosto. Havia tanto que eles não sabiam. Nic enxugou os rastros molhados com o dorso da mão, o movimento ajudando para afastar os receios que voltavam a sussurrar em sua mente. “— Como eu saberia? Eu estava sozinha, assustada... Mas também tão feliz de tê-la em meu ventre. E eu queria compartilhar essa alegria com você, mas... Você nunca respondeu minha carta. Como eu iria imaginar? —” Questionou com o olhar sobre o dele. Ao ouvi-lo, no entanto, sentiu a garganta ficar seca, o coração parecendo parar dentro de seu peito. “— Você sofreu um acidente? —” Ela repetiu em um sussurro, mal sendo capaz de pronunciar as palavras. “— Eu não sabia... Não me disseram. O que aconteceu? Como você está? —” Indagou, a preocupação evidente em sua expressão. Se tivessem lhe contado, ela teria ido ao hospital. Céus, ela não teria saído do lado de sua cama em nenhum momento. Seu olhar recaiu sobre a cadela, então dando-se conta. “— Cão de serviço? —” Perguntou, recordando-se de quando haviam visitado outros antigos soldados de guerra e ele a explicara o motivo dos animais os acompanharem. E a presença da mesma parecia um confirmador dos piores pesadelos de Lily.














