Capítulo 1 - Sobrevivendo.
Eu puxei mais uma vez a fumaça que tanto me dava prazer, mas pra morrer. Sentada da escada do galpão abandonado, esperando porque a pouco chegaria dois dos meus amigos. A blusa verde de frio surrada tinha bolsos para esconder o celular e a carteira de cigarros. Foi então que ouvi as vozes exultantes dos meninos. Tinha três dias que eu tinha feito aniversário de 17 anos e em meio esses três dias já estava odiando essa idade tão repugnante.
O primeiro que vi foi o Danillo, aquele jeito dele largado pela vida me encantava, as roupas surradas e o estilo mochileiro das estrelas me deixavam em êxtase. Guto por outro lado era reservado e legal, e o que você quisesse ele arranjaria. Quando eles me viram sorriram e sentaram um de cada lado.
- Emma o que você vai querer fazer hoje?! - sorriu Danillo colocando as mãos nos bolsos.
- Eu só não to a fim de voltar pra casa... Talvez vocês possam apenas me fazer companhia... - pedi tragando mais uma vez o cigarro.
- Se não se importa eu vou fumar um baseado na sua frente. - Guto fez piada.
- Você sabe que eu não me importaria. - peguei a minha carteira de cigarros e ofereço pra ambos.
- Ah eu amo ser seu amigo! - afirmou Guto pegando o cigarro. - Gente rica tem certos privilégios de comprar sempre as melhores coisas.
Danillo afirmou com a cabeça. Nós dois nos conhecemos no colégio no ano passado, eu era da turma dos nerds e dos sociais, então eu conheci o Danillo, me encantei com seu jeito introspectivo e sereno às vezes até despreocupado com a vida. Ele me trouxe até o galpão abandonado e conheci Guto seu melhor amigo. Nos primeiros dias eu ficava bêbada com as doses de tequila. Depois ficava apenas fumando e pensando.
- Não se acostume Gustavo, provavelmente a mãe dela esta na nossa cola, daqui a pouco a tranca dentro de casa! - retrucou Danillo irônico.
- Se ela me tirar de vocês será o meu fim... - suspirei anestesiada. - Juro que nunca a entendi... Somos quatro irmãs e um irmão, ela sempre esteve ocupada demais pra ligar pra minha vida antes, quando eu realmente sofria... Agora que estou bem ela quer me arruinar.
- Ah! - Danillo levantou radiante. - Supere... Vamos dá uma volta na cidade.
- Claro! - Guto concordou rapidamente. - O espertalhão sabe o que fala.
Em questão de minutos estávamos andando pelas ruas da cidade, apenas brincando uns com os outros, Guto com seu inseparável skate e Danillo com a sua inseparável mochila. Nenhum de nós se importava realmente com consequências, éramos jovens contra a sociedade hipócrita. Guto pediu por outro cigarro e dei de bom grado.
- Os três, mãos na cabeça onde possamos ver! - gritou alguém atrás de nós. Policiais.
Ficamos parados, não obedecemos a aquelas regras inúteis. Danillo hesitou um pouquinho, olhando um para o outro e sorrimos, a adrenalina começaria agora. Corremos feito loucos, não seria a polícia a nos pegar. Aquilo era muito bom, sentir parte de algo me fazia sentir um pouco viva. Era assim que o vazio se ia, desaparecia de dentro de mim em questão de minutos.
Tentamos nos esconder mais outra viatura nos cercou, paramos cansados e caímos na gargalhada.
- Acho que vamos ser presos... - Guto ironizou.
- Você acha?! - Danillo retrucou.
E fomos presos por correr da justiça, apreenderam meus cigarros, o skate do Guto e a estimável mochila do Danillo eu me senti mal. Fomos separados por eu ser uma garota e que ainda era menor.
O silêncio não me amedrontava, eu já tinha me acostumado com ele há muito tempo atrás. Eu vi, ouvi e vivi muita coisa em meu próprio silêncio, e isso não era nem um pouco estranho. Só a voz da minha mãe e meu padrasto que era estranhamente insuportável. Eu estava com problemas agora.
- Oh meu Deus ela está presa como uma criminosa?! - a voz preocupada e toda cuidadosa da minha mãe soou extremamente mentirosa aos meus ouvidos. - Eu posso falar com ela um momento?
Os policiais e meu padrasto saíram conversando uns com os outros como se nada tivesse acontecido. Eu sabia o que vinha a seguir, eu me limitei a fechar os olhos e relaxar na cama de concreto dentro da cadeia. Pelo menos ali eu não seria nada.
- Eu não sei o que está acontecendo com você, querida. - a voz tranquila d ela era tão falsa quanto toda ela. - Eu não quero acreditar que a perdi, você era tão educada e comportada.
- Obrigada pelo elogio. - ironizei.
- Garota, você é uma vergonha para essa família... - essa era a minha mãe que eu conhecia. - Emily você está se destruindo andando com aqueles trombadinhas, eu sou sua mãe e quero o melhor pra você... E é por isso que você vai começar a frequentar uma ajuda médica. Sua irmã é quase dona da própria empresa, seu irmão ganha o próprio dinheiro e você? O que você é?!
- Uma trombadinha como você disse. - nunca deixaria vir e insultar meus amigos.
- Você está defendendo eles e eu não entendo o porquê você se sinta assim, eu não vou vir na cadeia arrastar o nome da família na lama por sua causa, Emily. - olhou pra mim com descrença.
- Entendi. - respondi me ajeitando na cama confortável.
- Não ainda Emily. - ela respirou fundo, procurando paciência. - Eu conversei com a Dra. Daiane, e, ela disse que você precisa ocupar a mente com outras coisas, eu e seu irmão concordamos em colocá-la pra trabalhar.
Se ela esperasse que eu rejeitasse e fizesse um escândalo, ela não me conhecia, ela nunca me conheceu de verdade, eu dava a face que ela queria vê. Eu apostava muito quando era criança que se meu pai de verdade me quisesse ele saberia tudo e de mim e me tiraria dela. Mas isso nunca aconteceu e eu acredito ainda menos agora. Dei os ombros, despreocupada.
- Em troca quero a liberdade dos meus amigos... Farei o que você está pedindo. - ri minimamente da cara de horror que ela fez.
Ela pensou e pensou várias vezes, olhou pra mim e juntou seus ombros depois soltou a respiração pesada, quase como um suspiro descrente.
- Tudo bem! - concordou por fim.
Depois que ela disse isso os policiais e o meu padrasto vieram alegres me soltar. Eu não falei com nenhum deles quando voltamos pra casa. Eu entrei no quarto e tomei um banho, delegacias é um lugar onde a sujeira das paredes impregna em você. Antes de descermos para o jantar em família, minha mãe bateu na porta.
- Entre! - terminei de vestir minha blusa.
- Quando fomos jantar você trate de pedir desculpa para seus irmãos por arrastar o nome deles na lama. - ela disse apenas isso e saiu.
Claro que eu iria fazer tudo o que ela mandasse porque em casa eu era o que ela quisesse que eu fosse sem nunca reclamar. Assim era melhor, porque eu e minha família éramos todos uns idiotas que morava na mesma casa, e eu odiava. Sai do quarto com um cara de quem estava arrependida profundamente por ter feito nada. A mesa estava composta pelo meu padrasto, minha irmã mais velha Eleonor, as duas mais novas Cayla e Raiely. Sentei no meu lugar mais afastado, esperando Joseph que provavelmente não liga para o meu pedido de desculpas obrigatório.
- Então... Como foi na cadeia sua delinquente? - Eleonor acusou docemente.
- Foi bom e você? - sorri agradecida.
Cayla continuou falando com o namorado numero 12 despreocupadamente, Eleonor se calou e ficou me encarando, deixando transparecer toda sua raiva, Joseph chegou jogando a maleta em cima da mesa fazendo Eleonor se retorcer em aborrecimento. Ela odiava quando ele fazia isso, ela nunca me suportou e o meu irmão muito menos.
- A Cayla está nesse telefone a vida inteira. - observou Paulo.
Eu tinha minhas dúvidas se ele fazia essas observações só por fazer ou simplesmente pra ver a minha mãe gritar com outros de nós. Minha mãe fez com que eu e os meus dois irmãos mais velhos o chamássemos de pai mesmo ele sendo pai apenas das duas mais nova.
- Cayla desligue a porcaria desse telefone. - gritou minha mãe do fogão.
- Emma soube que você foi presa, que escandaloso pra nossa família. - Joseph sorriu no meu ouvido, ele sempre do meu lado. - Ela deve ter ficado uma fera até ligou pra mim pra informar que você merecia uma punição.
Sorri com a cumplicidade de Joseph, ele podia ser um chato de vez em quanto, mas ele era um bom irmão. Com poucos minutos todo mundo já estava sentado em seu lugar. Mamãe nunca nos exigiu nada, apenas que juntássemos sempre juntos, não importa onde você comeria no almoço ou o café da manhã, o jantar era algo especial para minha mãe.
Olhei para todos já sentados e pude ver que não éramos uma família, éramos pessoas que se conheciam e compartilhava uma parte do sangue. Todos tinham um problema, mas nenhum de nós queria se expor a pessoas que não se importa.
Eleonor era filha de um policial, depois veio Joseph e eu, nosso pai era professor. Cayla e Raiely eram filhas de Paulo o atual marido da minha mãe, ele era um idiota nunca trabalhou, na verdade ele era aquele tipo de cara que eu particularmente odiava, políticos. Eu nunca aprovei a relação dele com a minha mãe. Mas também não me opus porque minha opinião nunca contava.
- A Emily tem algo a dizer, não tem?! - mamãe me fuzilou com os olhos e eu fiquei de pé.
Por um momento de completo constrangimento eu ergui a cabeça e encarei o meu padrasto, ele tinha um sorriso infame dos lábios, Eleonor me encarou com tédio, e Joseph segurou minha mão me dando o suporte de sempre.
- Eu peço desculpas por arrastar o nome de vocês na lama - aquilo era humilhação pra mais de ano, mas eu não tinha outra opção. - Eu não fui responsável e devo pagar pelos meus atos, mamãe disse que terei que trabalhar, então...
- Chega! - reclamou Joseph. - Ela não vai ficar se humilhando a noite inteira por um erro de adolescente.
Ela não fez nada, nem olhou para o meu irmão, vaguei meu olhar pela mesa e encontrei dois rostos contente. Eleonor e Paulo. Jos se levantou e informou que já tinha terminado seu jantar. Ninguém ousou ficar no caminho dele. Ninguém ficava porque ele quando estava com raiva era como um furacão em erupção, e, quem ficasse em seu caminho era levado junto.
O silêncio pairou na sala de jantar, se minha mãe não falasse nada eu tentaria sumir dali pra não precisar ficar olhando pelas próximas horas pra eles. Dei um passo pra trás despercebida.
- Seu irmão não vai querer companhia! - a voz carregada e parcial da minha mãe fez todos a olharem.
- Tudo bem! Eu não estou com fome... - tentei sair de qualquer jeito.
- Senta e come! - ela ordenou.
E bem, eu obedeci porque eu não tinha mais nada. A Eleonor comentou sobre a loja de roupas já estava indo bem e que em um mês outra loja seria aberta. Cayla falou sobre seu relacionamento conturbado com Raiely e às vezes Paulo falava sobre com estava indo com a câmara de vereadores. Terminei de jantar e retirei meu prato, não iria lavar as vasilhas agora, amanhã quando eu chegasse, eu faria minha parte
Passei despercebido por todos e fui ao quarto do Jos, ele estava rindo para o celular deitado na cama sem camisa e eu sorri.
- Toc-Toc... - ele sorriu a me ver deixando o celular de lado. - Quem é a garota?
- Ama... O que?! Que garota? - ele me olhou desconfiado. Eu sorri da cara estranha que ele fez. - Entendi... Você é uma garota má. Jogando comigo irmãzinha?
Deitei do lado dele, e peguei o celular, ele tentou tirar das minhas mãos mais eu era mais hábil.
- Amanda L.?! - olhei pra ele confusa.
- Não seja xereta! - Jos tentou pegar o telefone.
Devolvi o celular, e voltei a deitar na cama como se fosse a do meu quarto e ele empurrou para deitar ao meu lado.
- Ta achando o que sua folgada? Não vai roubar meu lugar na minha cama... - ele fez bico.
- Quantos anos você tem? Cinco?
- 21 obrigado. - riu. - Escuta Emma, nunca se humilhe pra ninguém entendeu?! Eu e nem você fomos culpados de nosso pai ser um completo babaca.
Jos ficou sério o que sempre me assustava um pouco, eu poderia adorá-lo, mas ele era instável, sempre foi. O advogado mais inteligente e charmoso que eu já conheci, mas não conseguia se controlar quando algo estava errado. Apenas concordei com a cabeça, eu sabia no fundo que eu era uma droga completamente.
- Eu vou dormir ok?! - sorri.
- Boa noite Emma, até amanhã. - ele pegou o telefone e sorriu escrevendo algo. Talvez para Amanda.
Fui trocada pelo celular, mas quem disse que eu ligava? Sai do quarto dele e entrei no meu, fechei a porta e fiquei parada encarando a cama bagunçada, os dias frios eram vazios como sempre. Sai do quarto e escovei os dentes no banheiro, ao sair do banheiro ouvi Paulo falar com minha mãe.
- Não acha que já está na hora de Joseph e Eleonor procurarem uma casa pra eles mesmos? - sempre desconfiei que ele não gostasse de nós três. Agora queria expulsá-los de casa, quando seria a minha vez?
- Óbvio que não, eles ficaram. - ela respirou fundo - São meus filhos.
- Só estou dizendo que eles são bem grandinhos e sabem se cuidar. - ouvi os passos dele saindo pra fora de casa.
Alguns segundos depois a ouvir chorar, como se não gostasse nada da situação, mas em algum momento teria que lidar com isso. Ela apareceu do nada perto de mim.
- Emily o que está fazendo aqui? Achei que já estivesse na cama. - levantou a sobrancelha inquisitiva.
- Estava escovando os dentes... - falei imparcial.
Ela me estudou, e então deu de ombros como se minha expressão dissesse que eu não tinha ouvido nada. E eu queria mesmo não tido ouvido absolutamente nada, tentei esconder toda a raiva que se acumulava dentro de mim e olhei para ela cansada.
- Boa noite... - ela seguiu para seu próprio quarto.
Agora eu o odiava, a mim mesma também por ser tão conivente com aquela situação e por ser covarde. Olhar para a porta do meu quarto fechada e perceber que eu não sou absolutamente nada.