às vezes a morte e tão mais certo o desamor não é uma forma definitiva de partir as coisas continuam conscientes no corpo em vida repara na constância dos teus dias: a manhã é um reduto temporário até que renasce
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às vezes a morte e tão mais certo o desamor não é uma forma definitiva de partir as coisas continuam conscientes no corpo em vida repara na constância dos teus dias: a manhã é um reduto temporário até que renasce
uma casa suméria
dentro de uma jarra um corpo habita a casa é o amor que partiu no pico do verão ensinaram-me no templo que deve ser assim a memória fazer do corpo que se habita o cemitério de todos os dias
o negro que sou
all I want is brick house with a porch that wraps around all I want is land enough for my children to run In the highest pitch of grace, the end of trial and gratitude
um dia, 3 de janeiro, que se repete agora todos os anos da mesma forma revelando-se pródigo em negro inovando apenas no enredo. um dia que com esta constância repetitiva arrisca-se a tornar demasiado simples; em breve, assim antecipo, estará sujeito a pensadas preparações: vestir-me de negro no dia anterior antecipando o luto, fechar-me num cubo revestido a aço e esperar que as horas passem, e tantos outros expedientes que possam preparar ou pôr à prova a chegada do destino. pois que venha, e que venha todos os dias 3 de janeiro. o caos previsível é o que de mais parecido existe com a serenidade. certo será tornar-me um homem mais triste, que examinando o passado em redor direi para mim próprio que falhei a preparação da vida, ou a antecipação dos destinos escuros. um homem ainda mais triste, assim deveria ter escrito. pois é este o jogo triste que jogamos e que observo com estes olhos que um dia falharão; quem sabe se num dia 3 de janeiro alguém se aproximará de mim para dizer o senhor vai cegar, e eu já saberei e não haverá surpresa. talvez venha a ser um pulmão ou uma artéria do coração mas não fará grande diferença pois o sofrimento, à excepção da morte, de um corpo ou do amor, comporta sempre semelhante grau de afogamento sem que importe muito o organismo que se apaga. ao dr. direi apenas pois dr. já esperava que depois deste dia 3 de janeiro ficasse sem uma parte de mim. conclusões talvez quando estiver a perder quase tudo e a dor for já menor. agora apenas consigo observar certos padrões que ora orientam um ténue sentido ora desorientam a totalidade do corpo. depois de mais uma telha que caiu vou à janela, olho uma senhora nos seus oitenta anos de pantufas na rua e penso em como jogamos o mesmo jogo e nenhum de nós percebeu ainda como jogá-lo. ela porventura chegará tarde, eu, olhando para estas ténues indicações de queda, também. o que nos salva do jogo? absolutamente nada. há quem escolha o desafio, eu só escolhi jogá-lo na medida do que era obrigatório jogar e num ou outro campo que me pareceu interessante arriscar. por isso talvez me possam chamar um homem triste, ou muito triste, em função da definição de felicidade de cada um. talvez por isso se justifique a vibração que senti no reconhecimento que senti quando li aquele excerto de Coetzee que a C. (a maior oferta que tive do destino e perdi, ou seja, um paliativo para a minha morte lenta) partilhou sobre aqueles que se reconhecem nas coisas não amadas, no pequeno cão feio deambulando na rua, ou num vaso atirado a um silo três mil anos antes fugindo do destino. haverá uma outra via que certos homens, uns sufis, outros profetas, outros monges, chamam a via do Trabalho ou da libertação, isto é, a recusa do total jogo procurando uma janela que se possa abrir no espaço-tempo para dele fugir. talvez me ilumine um dia para tentar esta forma de suicídio, apenas corpóreo parece-me. nesta altura, agora que vejo que faltam duas horas para terminar este dia 3 de janeiro e sabendo já que os próximos dias não serão menos sôfregos e lentos, sinto que está escrito no meu passado uma certa tendência para o masoquismo místico. ao que é que isso me levará arrisco a dizer nada. o mais certo é que me faça simplesmente chegar um dia a deus, recepção que acontece e acontecerá certamente a todos os outros, ao cósmico dr., que me dirá apenas o sr. acabou de perder tudo. pois que assim seja, contando que tenha existido alguém a ganhar.
going backwards to recover that which was left behind
a última viagem
entre os olhos colocou uma moeda depois meditou sobre o valor da vida
não comprou nenhum sacramento nenhum sacrifício de calma
entre os olhos colocou o dedo maior a força de uma mão
sobre a cabeça derramou vinho o líquido que dá cor ao coração
para a última viagem ofereceu amor desta terra para a última a sua única libação
haverá sempre um gesto luz a romper o trabalho dos homens vi uma flor rompendo a calçada quis o meu trabalho que não a pisasse
balanço I
este ano passei de rasgar a terra com o arado, não deixando qualquer marca, não rasgando o mundo interior para a espera dos veleiros o vazio de um suposto barco que chegava lento para o adeus olhei o horizonte e foi sempre tão dúbio que poderá não existir talvez seja apenas, às vezes penso, esta cidade escura reflectida no mar este ano comecei por ver a subida dos homens ao altíssimo na neve derretida dos cumes mais altos e acabo este passo cronológico a olhar a lava dos vulcões que tempo foi este afinal em que me vi esperar-te que em vida tão vazia fui capaz de olhar a vontade cega dos homens em não deixar cair as suas últimas explorações
there will be nothing to fear and nothing to doubt
a estética do frio
as primeiras chuvas de inverno as primeiras hesitações no frio visitar a igreja ou o inferno as fráguas nevadas ou as terras baixas de aguaceiro que fazer desta incompreensão chegam as primeiras ondas revoltando o mar os primeiros vertebrados os primeiros a morrer de dor ou de frio ou do êxtase reduzido ao mínimo uma vida arqueada uma escassez provocada pelo frio os primeiros famélicos os primeiros loucos os primeiros a chegar ao ártico e a morrer estamos em dezembro é quase inverno no hemisfério norte trazem o frio os paralelos os primeiros rios as primeiras enfermidades trazem o mundo interior trazem uma estação para morrer de lenta dor e a conta das nossas vidas trazem o último amor e os primeiros suicidas
don’t get heavy, keep it light