Receosamente, um par de braços fantasmagóricos envolveu o corpo do albino, que ainda derramava lágrimas e mais lágrimas sobre um corpo sem vida, o qual a morena identificou como o dela próprio. As mãos passaram por debaixo dos braços do melhor amigo, repousando-as nos ombros dele, deixando a cabeça encostada nas costas do outro, que subia e descia em intervalos curtos e rápidos, em soluços. Os olhos verde-canetinha se fecharam, e a fantasma apenas ficou ali, deitada.
Acredite, ela choraria, se quisesse. Mas Ash não julgava merecedora nem das próprias lágrimas - quanto mais as do albino, que tanto conversara, nem tão animada, porém vagamente, algumas vezes. Sigurd, o rapaz que a morena já considerava como a pessoa mais próxima dela, a que tinha mais confiança - por mais que não conhecesse muito da vida do outro -, estava segurando seu corpo sem vida, derramando lágrimas por ela, porque não conseguira curá-la antes da morte da garota.
Ela queria falar que, graças à ele, sua morte não havia sido tão dolorosa assim. E, para falar a verdade, chegou mesmo a murmurar essas palavras, em uma esperança já perdida que ele escutasse. Seu fantasma ensanguentado, como o próprio corpo imóvel, tremia. Era tão... Tão estranho. Queria apenas poder conversar com ele, mais uma vez. Falar que não importava à ninguém a sua morte, como um simples consolo. Que ninguém ligaria se ela de repente evaporasse do mundo.
Não sabe-se quanto tempo Ash compartilhou esses últimos momentos junto com Sigurd, mas, antes mesmo que o outro deixasse seu corpo no chão e seguisse para sua casa ler o diário que ela havia deixado para ele, sentiu uma mão brusca puxando-a pelo colar de ferradura, aproveitando para também puxar o pano de seu vestido azul claro, fazendo-a engasgar e arregalar seus olhos, mexendo seus braços desesperadamente, tentando agarrar o corpo do maior, como um pequeno e último reflexo, antes da escuridão tomar conta de sua visão.
Ela teria conseguido ficar ali, se suas mãos não tivessem atravessado o corpo do norueguês.
Ash não acompanhou Sigurd em busca ou na leitura do seu diário, nem soube o que o o amigo teria feito com ele - mas confiava nele o suficiente para saber que ele não, por exemplo, jogaria-o fora, ou em um triturador de papel (talvez poderia ficar com medo dela, não ler até o final, pensar em como ele teria se aproximado de uma pessoa tão perigosa assim. Mas jogar fora era improvável). Ela acordou em local infinitamente preto, já com seu corpo limpo do próprio sangue, e os cabelos e as roupas arrumados de uma tal forma que ela julgou assustadora.
A sua faca repousava ao seu lado, limpa e brilhante, praticamente nova em folha, como quando Ash ganhou de seu p... Da dona do orfanato, dizendo que fora o único objeto que seus pais haviam deixado junto com ela, no cesto onde fora abandonada, na porta do estabelecimento. Sua mão direita procurou pela mesma, por reflexo e não bastou a encontrá-la - de alguma forma, sentia-se protegida com o objeto em mãos... Protegida por si mesma, e, principalmente, de si mesma.
Levantou-se, devagar, apoiando-se em ambos os joelhos, notando subitamente que, assim como toda a sujeira, a dor dos ossos quebrados, dos cortes, de tudo havia sumido. Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha esquerda, fechando os olhos por um breve momento, tentando localizar, com "seus instintos" - que, na verdade, pegava emprestado de Ashley, por mais que não gostasse de admitir isso -, aonde ela estava. Mas arregalou-os novamente, quase que no mesmo instante, praticamente deixando a faca cair dos seus dedos leves e delicados.
Sentiu-se mais do que apenas limpa e arrumada. Sentiu-se só. E de repente, percebeu onde estava.
Saiu correndo à procura de qualquer pessoa que fosse. Se os padres que tanto ouvira todo esse tempo estivessem corretos (não que ela ainda mudaria sua religião de ateísta agnóstica para qualquer outra), estaria sob julgamento final. Certo? Ashley havia, por fim, lhe deixado em paz. Sua personalidade havia morrido junto com o seu corpo, e as duas seriam julgadas diferentemente. Ash poderia ir para o inferno - onde ela tinha, provavelmente, mais chances de acabar -, e passar o resto da eternidade sofrendo pelos seus pecados.
Mas, depois de correr por minutos, que mais lhe pareceram horas, um pronto azul e branco estendia-se ao longe, aproximando-se mais e mais, mostrando à morena quão errada estava sobre o lugar que pensara anteriormente. Engoliu em seco, parando bruscamente, levando a mão livre até a própria garganta, contendo um grito. O vulto parecia que apenas era um borrão azul, com membros brancos incompletos, quase como se estivesse flutuando - mas não, ela estava apenas camuflada pela escuridão. A portuguesa sabia quem era. Sabia que, dessa vez, fugir não era uma opção.
O vulto parou de andar quando estava à exatos quinze metros da outra, parando em uma pose exatamente igual a da garota a sua frente, parecendo que um espelho havia sido posto entre as duas, com exceção da faca, a qual ambos os "reflexos" seguravam com a mão direita. As duas se olharam, com expressões sérias - por mais que uma segurasse um sorriso e a outra um grito -, olhos fixos nos olhos, como em um jogo do sério, antes delas assentirem com a cabeça e começarem a ficar cada vez mais próximas, com passadas exata e estranhamente iguais, até ficarem à três metros de distância.
Não pareciam mais um reflexo.
Ash estava completamente arrumada. Tirando a faca, parecia que estava pronta para sair com mais um de seus inúmeros irmãos do orfanato, para levá-los ao supermercado ou apenas para passear com eles na praça. Já Ashley estava com os cabelos despenteados, o vestido de um azul tão bonito rasgado em várias partes, e, principalmente, cheio de sangue - assim como todo o resto do seu rosto e a própria faca a qual carregava. E foi aí que as "gêmeas" desmancharam as expressões concentradas.
— Rapaz... — a americana comentou, tombando a cabeça para o lado, semicerrando apenas um dos olhos, abrindo o mesmo sorriso simples e curto que Ash abriria normalmente - deixando-o estranhamente psicótico -, desmanchando a pose, outrora tão firme e delicada (que apenas fizera para parecer igualzinha à outra personalidade). — Eu pensei que jamais iria conhecer você, sem ser por aquelas estúpidas páginas de diário.
Ash conteve um xingamento, mesmo em mente - ela não gostava de fazer uso de palavras de baixo calão. Apenas apertou a faca na mão direita um pouco mais forte, erguendo levemente a cabeça, ainda com o rosto sério. Nunca pensou que conversar com sua outra metade fosse tão estressante - mais até do que quando conversou com aquele pedestre de Fantasia qualquer, que havia sujado um de seus favoritos vestidos empurrando-a no chão, e que ainda dissera-lhe tantas coisas irritantes, deixando, consequentemente, Ashley assumir o controle do corpo.
— Ash Blank. — chamou a outra, com um tom de voz tão doce que fez a outra levantar as sobrancelhas em surpresa - ela realmente poderia se disfarçar de Ash, se quisesse (assim como a própria Ash havia feito, durante um único dia. Aquele que acabara por matar o próprio pai, em um gesto desesperado) -, enquanto os joelhos da americana estavam dobrados de leve, e as mãos levadas até o peito, com um falso sorriso de pena nos lábios. — Eu, hein. — disse, de súbito, transformando as expressões em uma de desgosto (as expressões da outra mudavam tão rápida e repentinamente que chegavam incomodar a portuguesa). — Esse sobrenome é tão estúpido.
Começou a andar de um lado para o outro, enquanto gesticulava com a mão livre. — "Blank". "Em branco", do inglês. — explicou, mais para ela mesma do que para Ash. — Eu não acredito que até nisso você pensou, só pra conseguir aquele resultado de merda no seu planinho. Você queria ter uma vida melhor, fora da sua família, não é? — "entregou", fazendo Ash assentir com a cabeça, sem dizer nada.— Mas não podia esperar até 18 anos, pois seus pais não deixariam você realizar qualquer coisa que quisesse, e fugir de casa era impossível. — completou a outra, parando de andar. — Então você me criou. E fez as vontades do nosso pai. E finalmente conseguiu arranjar um ponto onde poderia sair para viver a sua vida, do jeito que quisesse.
Os olhos verdes, carregados de maldade, pintados de canetinha, fixaram-se nos outros, sérios. O sorriso assustador alargou-se. — Quem diria. Você é mais manipuladora que eu.
Aquilo fez Ash desabar por dentro - até a cabeça voltou a posição normal. Manipuladora, ela? Talvez, parando para pensar com todos aqueles fatos sendo apresentados (jogados) na sua cara, tão de repente. Mas a morena gentil apenas sorriu, ironicamente, arranjando uma palavra melhor do que "manipuladora", que a fizesse se sentir melhor. — Manipuladora, não. Apenas ligeiramente mais inteligente. O suficiente para ter um sonho limpo, e bolar um plano que tivesse cem por cento de chance de dar certo, para que eu conseguisse ser feliz, levando em conta as condições as quais eu me encontrava.
Ashley deu um passo à frente, na direção da outra, fazendo o sorriso de Ash sumir.
— E, pra isso, você me criou. — e aquelas simples palavras, ditas com tanta seriedade, fizeram a portuguesa quase perder o equilíbrio nas pernas. Claro, o sorriso também acabara por sumir. — E causou a morte de inúmeras de pessoas. — mais próxima. Ash recuara meio passo, fazendo ela ficar na diagonal em relação à Ashley, que, por mais séria que soasse - e com mais razão que tinha em suas palavras -, ainda mantinha o sorriso. Como aquilo era irritante e impressionante ao mesmo tempo. — Mas, bem, isso não me importa. — com a mão livre, abanou alguma coisa invisível, em um gesto de "deixa para lá". — O que me interessa, agora, é a possessão do corpo.
A outra pareceu bem surpresa quando Ash apenas levantou uma sobrancelha, sem entender nada. Mesmo na morte, aquelas duas teriam que guerrear (a portuguesa imaginava se, por ser uma batalha mental, os golpes iriam lhe fazer sentir alguma dor)? — Vai dizer que não sabe. — a americana disse, bem devagar, como se estivesse falando com uma criança, ainda surpresa. — Tch. — suspirou, irritada, não ouvindo resposta nenhuma da outra personalidade. — Preste atenção. Somos praticamente duas almas diferentes, mas estamos presas no mesmo corpo, e somos provindas de uma mente já morta há muito tempo. Sabe, a Ashley Jonhathan Ward original.
Ash sabia muito bem quem era a original. A sua pequena criança inocente. Mais precisamente, toda a sua vida, antes de ela mesma se formar na cabecinha daquele poço de inocência, criando todo aquele plano manipulador e inteligente demais, e, logo em seguida, Ashley ter nascido, como parte dele. Ashley Jonhathan Ward havia sido morta assim que Ash nasceu e tomou conta do corpo, e, principalmente, quando Ashley assumiu-o pelos anos militares seguintes.
— Ou seja. — a ex-militar continuou. — A única alma que será julgada será a que sobreviver.
— Eu temo te dizer isso, Ash... — falou a segunda personalidade, empunhando a Vorpal Blade, fazendo-a brilhar de uma forma um tanto estranha, principalmente naquele lugar que parecia que as duas únicas fontes de luz eram as próprias meninas - mas talvez fosse apenas o reflexo do sangue que tingia o metal e os desenhos da arma branca, que antes eram tão bonitos. —... Mas eu vou te arrastar pro inferno junto comigo.
Aquela batalha durou exatas nove horas e quarenta e cinco minutos, pois ambas as almas não ficavam exaustas, e parecia que existia um processo lento de regeneração ajudando ambos os lados. Por isso, não irei narrar em detalhes a luta entre as duas personalidades, que demoraram tantos anos para se encontrarem. Mas direi as consequências: Ashley, novamente, acabara com o rosto esfolado no chão (assim como Snow já havia feito), deixando-o mais ensanguentado que antes. Ash perdeu o olho direito com duas facadas no local. A clavícula de Ashley recebeu uma facada funda, que chegou a até atravessar a axila. A perna direita de Ash foi fraturada em dois lugares, e o braço esquerdo da outra em um, apenas.
Tirando, é claro, todos os outros cortes leves que as duas trocaram entre si, além dos chutes, socos e todo o resto. Mas aquilo não importou mais quando Ashley conseguiu, por fim, imobilizar a adversária, utilizando ambas as pernas para conseguir segurá-la no chão (e as pernas da outra já estavam praticamente inúteis, então não era problema algum). Infelizmente, era seu braço direito o qual usava na batalha, e, consequentemente, o que mais protegia (e que ficou praticamente intacto). A Vorpal Blade de Ash voou longe de seus dedos assim que caiu no chão, e quando o objeto da outra foi apontado para a sua garganta...
... Sabia que não teria mais chances.
A americana não fez algum último discurso antes de rasgar, por completo, a garganta da personalidade gentil, chegando a até fazer um traço de facadas até a região dos pulmões e do coração, processo que fez lenta e dolorosamente - e que, pessoalmente, fora muito divertido. E, respondendo a pergunta anterior de Ash, que ela fizera à ela mesma, sobre as dores... Sim, elas estavam presentes. E, naquela poça de sangue que se formou, em uma escuridão infinita, Ash Blank morreu pela segunda vez.
Se quem estava no comando do corpo agora era Ashley, não bastou muito que ela fora julgada para parar no inferno, onde, já tendo uma alma extremamente corrompida, não bastou para que virasse um demônio, do tipo Súcubo (tendo como poderes Mudança de Forma, Escuridão, Levitação com a mente e Regeneração). Espalhar a discórdia pelo mundo ficou tão mais simples assim. Com a Mudança de Forma, Ashley poderia adquirir os olhos bonzinhos de sua odiada outra personalidade, adormecida em seu subconsciente, e manipular, com perfeição, as pessoas que quisesse.
Ficou dois anos daquele jeito, antes que pudesse ser pega por um exorcista qualquer, de surpresa e por um simples descuido em uma luta, levando-a para aquele lugar de nome esquisito, localizado na Itália. Lá não bastou a ser exorcizada e rapidamente colocada em processo de purificação. Mas esse último processo só ajudou-a em uma única coisa: recuperar suas memórias, e as de sua antiga colega também. Jamais um demônio daquele tipo conseguiria ser cem por cento "curado". E foi assim, fingindo ser um tipo bonzinho com tudo e todos, literalmente sendo Ash em vez de Ashley, que a americana passou o seu primeiro ano em Sancti Sacramentum.
A súcubo passeava tranquilamente pelos arredores da Matriz, com o usual pequeno sorriso no rosto e as mãos cruzadas atrás das costas, com passadas leves e delicadas, até perceber que mais um exorcista havia chegado na Matriz. E mal ela fora na direção dele para cumprimentá-lo, que um turbilhão de lembranças voltou à tona, ao mesmo tempo que o sorriso assustador e psicótico, que ela não abria há tanto tempo, foi segurado, para que não demonstrasse nada além de surpresa.
O albino estava parado não muito longe da morena, mas ambos se encaravam. Ashley levou ambas as mãos à boca, em um sinal de surpresa, antes de um sorriso alastrar-se pelos seus lábios, e ela acenar, tímida e amigavelmente, de onde estava, para o albino, assim como Ash mesmo faria.
— Senhorio Sigurd! — sua voz chegava a até tremer, de tanta "felicidade". Tinha que ser aquele garoto de Fantasia. Aquela cicatriz era única. E não podia ser outro rapaz. Se fosse, toda a graça da brincadeira que a americana já estava bolando se perderia. — Há quanto tempo, não?