the war is won.
A maneira como os dedos do albino se mexiam em frente ao seu rosto, irritavam Ashley profundamente. Ela queria pegar as duas mãos do exorcista e quebrá-las. Até o cheiro dele conseguia fazer ela passar mal. Porque, além de ele ser um exorcista, era amigo de Ash, a sua personalidade "boazinha", que deveria ser a coisa mais detestável de todas naquele mundo.
Mas, ah, acredite. A morena não iria deixar um único amigo de Ash - principalmente Sigurd Balderson, o garoto o qual a portuguesa havia criado laços tão fortes que não poderiam ser desfeitos, mesmo depois do incidente em Fantasia - ficar livre do pesadelo da garota boa. E o pesadelo, é claro, era ela mesma, Ashley Jonhathan Ward. Seria um castigo ao garoto por ter feito coisas boas à sua tão odiada inimiga.
Porém, mesmo contra a sua vontade, a americana pegou ambas as mãos do mais alto - ora, ele parecia muito mais velho do que as lembranças de Ash, que ela "pegava emprestado", lhe mostravam - e fez elas tocarem o seu pálido rosto (mais do que ele era em Fantasia, se é que isso fosse possível), recostando a bochecha esquerda na mão do rapaz. Sorriu, discretamente, como sempre, imitando de maneira exata o olhar fixo e simpático da companheira de mente.
E fez questão de encontrar esse olhar com o azul do norueguês. Só para fazê-lo notar que as orbes não era mais de cor verde canetinha. E sim vermelho sangue.
— Sigurd... — a menor começou, deixando escapar uma ou duas lágrimas (falsas. Mas quem disse que isso poderia ser distinguido naquela cena?), que rolaram, devagar, pelo único traço das bochechas visível, antes de tocarem os dedos do albino. Os ombros se encolheram, e o pequeno corpo da súcubo se encolheu, com as costas indo para cima e para baixo em leves soluços. A interpretação de Ashley era perfeita, sem erros. Infelizmente.
Mais lágrimas escaparam dos olhos da menina, que recostou ainda mais a mão do maior (que era praticamente do tamanho do seu rosto) nas suas bochechas - o motivo real era que Ashley queria fazê-lo sentir a sua pseudo felicidade -, como se o calor dele a acalmasse, e não a fizesse querer vomitar. —... É você... É você mesmo, certo? — murmurou, com a voz levemente rouca, como se não pudesse acreditar - e, realmente, não acreditava.
Nenhuma das duas personalidades, na verdade.
Suas mãos entraram em contato direto com a pele dela. Era quente, era confortável. Era como tocar em outro ser humano, como ter Ash de novo na sua frente. A sua amiga estava de volta e ele podia vê-la, tocá-la, falar com ela e ouví-la. Como ele desejara por aqueles penosos e longos anos, Ash estava de volta... Pelo que já deveria ser a milésima vez.
Quantas vezes já tinha tido o mesmo sonho? Caleb, Ash, Brunhilde, Loki, Sarah. Todos eles lhe visitavam frequentemente em seus sonhos. Caleb sorria para ele, às vezes. Ou então estava com medo da garota do poço e pedia a Sigurd que o abraçasse. Ou estava ocupado demais jogando vídeo game para prestar atenção a ele. Sarah sorria e reclamava do namorado, mas sempre com um ar terno no olhar. Loki batia palmas e ria para tudo, alegre. Brunhilde, tão desastrada e doce, sorria para todos e abraçava Sigurd com frequência.
Aquilo acontecia todas as noites. Todas as noites ele os via, todas as noites ouvia as suas vozes. Às vezes até sentia seus toques e podia jurar que sentia seus cheiros. Mas tudo aquilo não passava de uma ilusão. Ele abriria os olhos e estaria sozinho, seus braços vazios. Ash e Brunhilde estavam mortas. Sarah e Loki não pertenciam mais a ele. Caleb devia estar morto também... Assim como o Sigurd Balderson que estivera com todos eles.
Ele gostaria de negar. Olhar para ela e pedir que fosse embora. Ele não conseguia lembrar sem sentir uma dor imensa. Só queria poder dormir em paz. Mas neste instante os olhos do exorcista encontraram-se com os dela.
Houve um momento de tensão em que ele teve a impressão que seus batimentos cardíacos tinham parado. Os olhos não eram verdes como nas suas ilusões. Eram vermelhos. Vermelhos como os das criaturas que ele exorcizava todos os dias. Criaturas que tinham morrido e voltado à vida da forma mais miserável possível... Para pagar pelos crimes cometidos na vida anterior, crimes que Ash - não Ashley, Ash. - nunca havia cometido. Quando a última palavra em tom doce foi dita, Sigurd puxou as próprias mãos. O gesto foi brusco e pouco gentil, algo impensado para o norueguês doce que ele fora um dia.
Um dia.
-- Não. -- E recuou dois passos, os olhos sem brilho, como um par de lagos congelados, encarando fixamente o demônio. -- Não sou o mesmo... Não conheço você. Não é a Ash... Não é...
E doeu. Doeu mais do que qualquer sonho que ele tinha tido até então. Porque era o corpo dela. Estava na frente dele de verdade... Mas ela não estava lá. Então Ash tinha ido para sempre? Porque não era a Ash quem tinha voltado naquele corpo. Era a outra que vivia dentro dele. Ele sentiu como se estivesse revivendo a morte dela.













